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Opinião

Legalista, eu? Pois é...

Este texto não é para os assumidamente legalistas mas para aqueles que como eu têm reconhecido em si mesmos traços de um legalismo que recusa a deixar-se morrer

Por André Ricardo Nunes Martins

Tempos atrás, uma campanha na TV indagava de forma bem generalizada: “Onde você guarda o seu racismo?” À época, o questionamento me incomodou posto que me julgava antirracista convicto e, portanto, era como se a pergunta não me dissesse respeito. Era para os outros, os racistas, não para mim. Um pouco mais à frente, com mais reflexão atinei com o cerne do problema: o racismo deixa marcas em todos nós, incluindo integrantes das minorias raciais, é traço cultural que estrutura sociedades onde existiu opressão racial.

Recorro a esse paralelo, para referir-me a algo que diz respeito bem de perto a cristãos e em especial, evangélicos. “Onde você guarda o seu legalismo?” A irmãos e irmãs, assumidamente (ou sabidamente) legalistas, alerto, este texto não é para vocês. Quero falar em especial a pessoas que como eu têm reconhecido em si mesmas, e buscado combater, traços de um legalismo enfronhado, recorrente, persistente e que recusa a deixar-se morrer.

A caminhada cristã é feita de desafios. O tempo todo somos desafiados a cultivar virtudes e disciplinas, a abandonar o pecado e o mundo (entendido como o estilo de vida presunçoso, egocêntrico e distanciado de Deus) e a imitar os bons exemplos da Bíblia, da história da igreja e contemporâneos. Lembrando que há também maus exemplos na Bíblia, postos lá para que nos sirvam de advertência. Pelo texto bíblico e pelos sermões, reflexões e estudos tomei conhecimento, ainda criança, desse tipo de cristão conhecido e execrado como fariseu, hipócrita, puritano, sepulcro caiado. São alvos de nosso repúdio, de ironia, de brincadeiras de toda sorte.

Nesse afã de buscar imitar a Cristo e aos mais agraciados nessa jornada, o propósito não é fácil, nem simples. Eventualmente, até temos essa impressão de que é de boa, de que tiramos de letra, mas no médio e longo prazo, qual nada! Daí o clamor angustiado do apóstolo Paulo ao falar de si mesmo na Carta aos Romanos: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero esse faço. [...]Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.19 e 24).

E atenção, precisamos aclarar. Os termos “legalismo” e “legalista” que na política têm acepção positiva, como parâmetro de quem defende o primado da lei e a observância da institucionalidade, no meio religioso, têm sinal negativo, sendo a perspectiva de quem se apega à letra da lei e não a seu espírito. O legalista prioriza o cumprimento de regras, o atendimento de cerimônias, a aparência da religião em detrimento da vivência autêntica da fé. Essa visão tacanha de se relacionar com o sagrado aparece o tempo todo na Bíblia, sendo um dos problemas recorrentes que levavam os profetas de Iavé a exortar o povo.

A performance legalista dá-nos a falsa sensação de que podemos controlar nosso relacionamento com o Altíssimo e o curso de nossa vida. O entendimento é bem simplista, animado por textos bíblicos tirados de seu contexto. A ideia de que se fizermos tudo certinho, irá tudo bem com a gente. Manteremos longe os infortúnios e as coisas sairão como desejamos. Em tudo isso, há ilusões: a de que podemos ser perfeitos e não pecar, a de que alguns pecados são mais importantes que outros, a de que há uma jornada vitoriosa sem percalços, e mesmo a de que somos melhores que os outros que não seguem a Deus e por aí vai.

O mais sério é que mesmo discordando dessas premissas, não obstante, muitas vezes somos traídos por certa teimosia e fraqueza. Achamos que temos crédito com o soberano do universo. A verdade é que é muito difícil lidar com a grandeza e os mistérios de Deus, o seu silêncio, o seu “não” para conosco. Deus é soberano o tempo todo, a nosso favor, contra nós e apesar de nós. Mesmo quando tragédias acontecem e levam pessoas amadas, quando gente maligna prevalece sobre inocentes, quando nossos sonhos e planos são frustrados, quando inúmeras batalhas são perdidas e os perversos parecem prevalecer.

Ademais, é preciso ficar atentos para que, ao resistirmos ao espírito legalista, não respondamos com uma postura de indiferença e desprezo aos mandamentos do Senhor, falta de zelo e reverência para com as coisas de Deus e falta de empenho em buscar forjar em nós mesmos um coração ensinável e cultivar ouvidos e coração atentos à voz do bom pastor.



Abatido em seu orgulho e pecaminosidade, o rei Davi reconhece que sua capacidade de oferecer mil sacrifícios ao Senhor dos céus e da terra de nada valia, porque o que Deus demanda de nós é uma autenticidade humilde e assumida diante dele: “Eis que te comprazes na verdade e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria.” (Sl 51.6). Uma coisa é decidir não ser legalista, outra bem diferente é ganhar todas as batalhas nessa área. Pois bem, não desanimemos. Lutemos contra a religião das aparências, contra o legalismo, a superficialidade. E mesmo quando aqui e ali cedermos a essa mediocridade, recusemos a autopiedade e a acomodação. Olhemos para Aquele que pode nos levar a bom porto.

Em tempos em que se empunha e se alardeia a identidade de cristão com orgulho e arrogância, lembremos que se efetivamente o somos, é tão somente pela graça de nosso Deus que o somos. Deus nos guarde.

  • André Ricardo Nunes Martins, jornalista, mestre em comunicação e doutor em linguística. É presbítero em disponibilidade e membro da Igreja Presbiteriana de Brasília.
Imagem: Pixabay.
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