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Opinião

O sonho da unidade – WEA 180 anos

Presente em 160 países, através de alianças evangélicas nacionais, a WEA é a segunda maior organização cristã no mundo, representando cerca de 650 milhões de cristãos

Por Bertil Ekstrom

Este ano a Aliança Evangélica Mundial (WEA) comemora 180 anos de existência. Presente em 160 países, através de alianças evangélicas nacionais, é a segunda maior organização cristã no mundo, representando cerca de 650 milhões de cristãos. David Howard, diretor da WEA de 1982 a 1992, descreve a história da Aliança com o título “O sonho que não iria morrer”. Qual era o sonho O sonho era de unidade entre os cristãos e de cooperação na evangelização global.

Um breve histórico
Em 1846, a Aliança Evangélica foi formada durante um encontro em Londres, que contou com a presença de 800 cristãos representando 11 países da Europa e da América do Norte. Logo surgiram ramos da Aliança Evangélica nestes países. Após séculos divididos por questões de doutrina e organização eclesiástica, cristãos decidiram unir-se em torno daquilo que tinham em comum. Os fundadores da Aliança Evangélica não almejavam apagar as diferenças mas afirmavam que havia algo mais fundamental: uma convicção compartilhada sobre a autoridade das Escrituras, a necessidade do novo nascimento, a centralidade da cruz e a urgência da missão. Os primeiros grandes avivamentos no mundo de língua inglesa ignoravam as fronteiras eclesiásticas habituais. William Wilberforce acabara de concluir sua longa campanha para erradicar a escravidão do Império Britânico. Líderes buscavam formas de manter aquele ímpeto e de canalizar as energias de uma igreja avivada para algo que pudesse perdurar. A  Aliança Evangélica foi a resposta que encontraram.

O caráter missionário
A WEA nasceu com um forte caráter missionário e buscava promover um esforço missionário cooperativo e unido. A publicação mensal da Aliança, Evangelical Christendom, trazia, desde a sua primeira edição em 1847, notícias significativas sobre o trabalho missionário em toda parte e as grandes conferências da Aliança dedicavam significativa atenção ao tema das missões e da cooperação missionária.

Algumas conferências missionárias importantes foram organizadas na primeira metade do século 20, como Edimburgo (1910), Panamá (1916), Le Zoute, na Bélgica (1926 – onde líderes africanos se reuniram), Jerusalém (1928) e Madras (1938). O Concílio Mundial de Igrejas foi formado em 1948, em parte como resultado de algumas dessas conferências. É interessante notar que tanto a conferência do Panamá (1916) quanto a de Le Zoute (1926) foram reações à conferência de Edimburgo (1910), pois latino-americanos e africanos sentiam que Edimburgo não havia avaliado corretamente a situação das igrejas cristãs em suas respectivas regiões.

Em 1951, a Aliança Evangélica Mundial havia perdido grande parte de seu dinamismo, e havia necessidade de algo novo. 105 anos após a fundação da Aliança Evangélica, foi fundada a World Evangelical Fellowship (WEF), tendo como base a antiga aliança. Desta vez, o encontro ocorreu nos Países Baixos, com representantes de 21 países. Quatro comissões foram formadas em 1951: Evangelismo, Missões, Literatura e Ação Cristã. Mais tarde foram acrescentadas as comissões de Teologia, da Comunicação e da Mulher. No ano de 2002, a Aliança adotou novamente o nome World Evangelical Alliance (WEA).

A Comissão de Missões
Pessoalmente tenho me envolvido principalmente com a Comissão de Missões, sendo o diretor executivo por 13 anos. A comissão foi inicialmente criada com o objetivo de promover maior coordenação e cooperação entre sociedades missionárias em diferentes países. A Assembleia Geral da WEF, em 1974 (logo após o Congresso de Lausanne), definiu os seus objetivos de proporcionar coordenação, serviços e intercâmbio de informações; oferecer assistência e recursos para seminários, conferências de estudo e encontros internacionais; prestar assistência no desenvolvimento de missões, educação e intercâmbio de pessoal; e incentivar a criação de comitês nacionais onde ainda não existiam. O propósito era de aumentar a colaboração entre as igrejas e as organizações missionárias e de servir de ponte entre as novas missões do Terceiro Mundo e as missões ocidentais tradicionais.



O surgimento do movimento missionário na América Latina, África e Ásia, a partir das décadas de 1970 e 1980, influenciou o desenvolvimento da Comissão de Missões. Tratava-se de fortalecer as iniciativas missionárias nos tradicionais “campos missionários” que, em base ao forte crescimento das Igrejas Evangélicas, estavam se envolvendo na evangelização global. Um dos principais movimentos apoiados pela comissão foi o COMIBAM com o congresso em São Paulo em 1987. “De campo missionário a força missionária” resumia bem a nova realidade nas missões transculturais. Hoje, pelo menos 65% da força missionária no mundo vem dos movimentos emergentes no denominado Mundo Majoritário.

Ao longo das últimas décadas a comissão tem proporcionado um lugar seguro para as lideranças de missões ao redor do mundo, construído pontes entre os diversos movimentos missionários, enfatizando a necessidade de cooperação e parcerias “norte-sul”. Tem também promovido a reflexão missiológica com produção de livros com participação global, e material para o treinamento missionário. Um dos livros foi publicado em português pela Editora Ultimato em 2014: Sangue, Sofrimento E Fé – A missão cristã em contexto de perseguição. Missiologicamente, a Comissão de Missões tem estado alinhada ao Movimento de Lausanne, com frutífera cooperação entre as lideranças.

Destaco também a Comissão de Teologia, liderada por vários anos pela brasileira Rosalee Velloso Ewell que contribuiu com uma nova ênfase de teologia latino-americana e de diálogo com reflexão teológica do Mundo Majoritário. A Comissão de Liberdade Religiosa tem sido igualmente importante, inclusive numa colaboração com o Concílio Mundial de Igrejas e com o Vaticano, na defesa das minorias perseguidas e dos direitos humanos.

Conclusão e desafios
O sonho morreu A oração de Jesus de unidade é apenas uma utopia

Certamente que não, mas em alguns casos tornou-se um “pesadelo”. A falta de unidade entre os cristãos tem sido uma das maiores barreiras para um testemunho convincente e eficaz ao redor do mundo. As inúmeras denominações e igrejas avulsas têm, em muitos casos, criado graves problemas devido à competição e a falta de respeito umas pelas outras. Em vários países onde o Evangelho já encontra dificuldades, a entrada de novas igrejas tem causado divisões e enfraquecido o movimento cristão nacional. Outro fator que tem afetado a WEA é o surgimento de novas redes e alianças que, via de regra, reúnem igrejas da mesma linha denominacional ou doutrinária e nem sempre promovem uma participação mais ampla. Ao mesmo tempo, a WEA a nível global e as alianças nacionais, têm ajudado a quebrar preconceitos e obstáculos fortalecendo a voz evangélica em muitos países. Participei de reuniões com lideranças políticas e religiosas em vários países e vi resultados concretos, alguns duradouros.

A relação com a Concílio Mundial de Igrejas tem melhorado nos últimos anos. Várias Igrejas são membros de ambas as organizações e têm servido de ponte entre os evangélicos e os ecumênicos. A relação com o Vaticano também tem crescido na busca de áreas de cooperação e de interesse em comum, como por exemplo, o apoio aos cristãos perseguidos, a liberdade religiosa e desenvolvimento comunitário. Uma dificuldade em anos mais recentes é o uso do termo Evangelical pelos movimentos de extrema direita dos Estados Unidos. Inclusive, dentro da WEA têm-se discutido a viabilidade de mudar o nome devido à associação feita com o fundamentalismo de certos setores ao redor do mundo. A conclusão, no entanto, tem sido de que é preferível que a WEA defina o conceito de Evangelical de acordo com um entendimento equilibrado e bíblico que tem caracterizado sua história e confissão de fé.

Ao celebrar 180 anos de existência, a WEA continua com o propósito de promover a unidade, sendo uma voz que representa os evangélicos e que proporciona este espaço de encontro, diálogo e cooperação a partir de bases comuns do Evangelicalismo clássico que não se presta a ideologias políticas ou a dogmatismos teológicos ou eclesiásticos. A abrangência da Aliança varia grandemente de país para país, mas de forma geral cobre as Igrejas históricas de Reforma, as denominações Evangélicas e os movimentos pentecostais. Um grande desafio é envolver uma geração jovem que não está interessada em estruturas centenárias mas em possibilidades de conexão, comunhão e parcerias flexíveis. A Aliança Cristã Evangélica do Brasil tem estabelecido um modelo inovador de cooperação entre as redes das igrejas e das organizações evangélicas que tem trazido um novo dinamismo à atuação dos Evangélicos na sociedade e na missão.

Bibliografia
Ewing, John W., Goodly Fellowship – A Centenary Tribute to the Life and Work of the World’s Evangelical Alliance 1846-1946 (London: Marshall, Morgan & Smith, Ltd, 1946).
Fuller, W. Harold, People of the Mandate- The story of the World Evangelical Fellowship (Grand Rapids: WEF and Baker Book House, 1996).
Howard, David M., The Dream that would not die (Exeter: Paternoster Press, 1986).
Stiller, Brian, Todd Johnson, Karen Stiller & Mark Hutchinson (eds.). Evangelicals Around the World. (Nashville, TE: Thomas Nelson & World Evangelical Alliance, 2015).
WEA's 180th anniversary: Leaders, volunteers, and supporters come together to celebrate.
  • Bertil Ekström é pastor batista, professor de teologia e de missiologia, e autor de Missões em Toda a Bíblia – Teologia, reflexão e prática.

Imagem:
WEA
REVISTA ULTIMATO – A VOCAÇÃO NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE
Além de serem alvos da mesma graça, idosos e jovens são chamados a frutificar. Juntos. Os jovens podem aprender com os mais velhos sobre fidelidade e resiliência. Podem ser despertados a dizer não a uma cultura pragmática e tecnocrata que empurra a sabedoria para fora. Os velhos podem ser contagiados pelo ânimo e energia dos mais jovens e ser agraciados com vínculos de amizade. Eles podem encontrar uma vocação, ou um propósito, ao servirem como pontes de amadurecimento e como mentores dos mais jovens. Ambos os grupos vivem entre “o já e o ainda não”. E isso molda a sua esperança.
Este é o assunto da capa da edição 422 de Ultimato. Conheça
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Saiba mais:
» A Missão Cristã no Mundo Moderno, John Stott
» Sangue, Sofrimento e Fé – A missão cristã em contexto de perseguição, William D. Taylor, Antonia Leonora van der Meer, Reg Reimer (org.)
» O Compromisso da Cidade do Cabo – Uma declaração de fé e uma chamado para agir, Movimento Lausanne
» Cristo, Nosso Reconciliador – Evangelho, Igreja, Mundo, Terceiro Congresso Lausanne
» Para que todos sejam um, edição 397 de Ultimato
» A unidade da igreja como mandato de Jesus, por Valdir Steuernagel

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