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Opinião

O Lobo do mar e a vitória do amor

O que resta do homem quando Deus, a moral e a eternidade são descartados?

Por Mariana Furst Viza

Há livros que começamos por dever e terminamos por assombro. Foi assim com O Lobo do Mar, de Jack London (Zahar). Peguei o romance para avaliá-lo antes de passar para meu filho mais velho ler. Porém, logo percebi que, aos 10 anos, ele ainda não estava pronto para aquela travessia: há violência, tensão psicológica e questões filosóficas demais para sua idade. Mas eu já estava a bordo – e não consegui abandonar o navio.

O romance não é apenas uma aventura marítima, embora tenha mar, naufrágio, tempestade, perigo e sobrevivência em abundância. Sua força está no confronto entre duas visões de mundo. De um lado, Wolf Larsen, capitão do Ghost: brutal, culto, autodidata, leitor de filosofia e literatura, mas fechado numa compreensão materialista e desumana da existência. Para ele, a vida se resume à luta para não morrer; os homens são seres que se devoram, e não há moral, eternidade ou valor intrínseco que limite a força. Essa é a lei de Larsen – e, por extensão, a lei de seu navio.

Do outro lado está Humphrey van Weyden, um intelectual salvo de um naufrágio e lançado, contra a vontade, na dureza da vida marítima. Chamado com desprezo de Hump, ele é obrigado a trabalhar, apanhar, resistir e aprender. Larsen o “forja” pela violência, mas não consegue moldar sua alma à própria imagem. Mesmo ferido física e moralmente, Humphrey se recusa a aceitar que a brutalidade seja a verdade última sobre o homem. Há nele uma resistência silenciosa: a convicção de que justiça, dignidade e misericórdia não são ilusões frágeis, mas realidades pelas quais vale a pena sofrer.

É nesse ponto que a leitura se torna especialmente rica para nós, cristãos. London não escreve um romance devocional, e seria um erro lê-lo como se fosse. Mas sua narrativa expõe, com rara força literária, o abismo de uma vida sem transcendência. Wolf Larsen é fascinante justamente porque não é um vilão simplório: é inteligente, corajoso e articulado. Seu drama é usar a inteligência para justificar a crueldade. Em contraste, Humphrey amadurece não quando aprende a revidar, mas quando se recusa a ser governado pelo ódio. Como Davi diante de Saul, ele tem ocasião de eliminar o inimigo, mas não o faz.

A entrada de Maud Brewster, escritora e crítica literária também resgatada pelo Ghost, acrescenta à trama uma dimensão decisiva. O amor não aparece como sentimentalismo, mas como chamado ao sacrifício. Humphrey forma-se como homem não por dominar os outros, mas por colocar a própria vida a serviço de alguém. Diante da filosofia de Larsen – sobreviver, vencer, devorar – o amor surge como outra forma de força: uma força que preserva, protege e dá vida.

Acompanhar a transformação de Van Weyden é perceber que a alma humana não se explica apenas pela luta pela sobrevivência. O Lobo do Mar prende o leitor pelo fôlego da aventura, mas permanece na memória pelos dilemas que levanta: o que resta do homem quando Deus, a moral e a eternidade são descartados? E que tipo de vitória ainda é possível quando o mal parece comandar o navio? London nos conduz por águas escuras, frias e violentas, mas deixa entrever, depois da noite, uma luz que aquece. Não a vitória da força bruta, mas a vitória da dignidade, da justiça e do amor.

Livro: London, Jack. O lobo do mar, trad. Daniel Galera, 1a ed., Rio de Janeiro: Zahar, 2015. 454 p.

  • Mariana Furst Viza é casada com Isaque Viza e mãe de Samuel, Lucas, Joana e Elisa, ainda à espera. É formada em Jornalismo e Letras e doutora em Literatura Francesa. Ensina integralmente os filhos em casa e, vez ou outra, escreve sobre vida em família, literatura e ensino domiciliar no Instagram: @marianafurst.viza.

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