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Opinião

Hereges e heresias

Ricardo Gondim 


Com quantos argumentos se estabelece uma questão? Os nazistas souberam demonizar os judeus, já os comunistas habilidosamente desmontaram a lógica de Hitler. Os americanos organizaram uma estrutura filosófica que justificou o bombardeio sobre o Iraque. 

Richard Dawkins escreveu um livro em que criteriosamente procura desmascarar os evangélicos ocidentais. Mas já existem vários livros que denunciam a fragilidade dos argumentos desse ateu belicoso. 

E assim se alongam as controvérsias. 

Um debate de idéias, quando serve a propósitos escusos, tem vida longa e é, na verdade, interminável. Os polemistas assumem, muitas vezes, o perfil do torturador num interrogatório; ele não espanca porque busca extrair a verdade, mas para destruir a pessoa. 

O que seria uma heresia? A negação de uma moldura teológica bem assumida por um grupo? Uma hegemonia dogmática? Uma outra interpretação que não se alinha à que pretende ser a melhor e mais autêntica? 

Ouso redefinir o conceito de heresia. 

Heresia para mim é falta de reverência pela vida. Todo sistema que não defenda os mais frágeis, os menos competentes, os mais indignos, é herética, por mais coerente que se mostre. 

Heresia para mim é falta de consideração. As instituições, escolas teológicas e igrejas que descartam as pessoas com suas biografias e seu legado em nome de uma retidão conceitual são heréticas, mesmo que consigam repetir dogmas e catecismos. 

Heresia para mim é falta de mansidão. Se a defesa de verdades complexas e excelentes, que extrapolam a capacidade humana, gerar pessoas soberbas, arrogantes e inclementes, isso é apostasia, mesmo que ninguém consiga discordar de seus pressupostos acadêmicos. 

Heresia para mim é falta de integridade. Cada dia mais me convenço de que a linguagem religiosa camufla e dissimula a condição humana inadequada e pecaminosa. Não suporto ler tratados sobre santidade quando não percebo um mínimo de sinceridade em quem escreve de admitir suas próprias falhas. 

Heresia para mim é falta de honestidade. Algumas pessoas falam de Sartre, Gustavo Gutierrez, Marx, Freud, sem nunca terem lido nem uma linha sequer do que escreveram. Tenho pena de quem não consegue comer peixe por ter medo de se engasgar com as espinhas. Esses, a priori, jogam pedra e preconceituosamente só se interessam em ler quem já criticou aquela idéia. 

A tolerância nasce da admissão de que pode, sim, vir coisa boa de Nazaré, das mulheres, dos pentecostais e dos negros. Ouvir é uma arte, e quem não se dispõe ao diálogo amoroso, para mim, é um herege, mesmo que esteja coberto de razão. 

O que Deus requer das pessoas? Que sejam misericordiosas, que façam justiça e que andem humildemente com ele. 

Esse tipo de vida não tem muito espaço para a heresia; é assim que desejo caminhar. 

Soli Deo Gloria.


Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, O Que os Evangélicos (Não) Falam e Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br

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