Opinião
20 de maio de 2026- Visualizações: 58
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O Pentecostes e o nascimento de uma comunidade de iguais
Talvez o Pentecostes nos desafie mais do que imaginamos
Por Cynthia Muniz Soares
Um dos pontos altos da narrativa bíblica, descrito no livro de Atos dos Apóstolos, é o evento que conhecemos como Pentecostes. Em igrejas que seguem o calendário litúrgico, há um domingo específico para celebrar esse dia, que, historicamente, ocorre cinquenta dias após a Páscoa. Trata-se de uma festa muito antiga no calendário cristão, com raízes no Antigo Testamento. Mas raramente refletimos sobre o dia de Pentecostes e suas implicações para a igreja. Talvez porque ele nos desafie mais do que imaginamos. O que, então, o Pentecostes significa para nós hoje e, principalmente, para a maneira como vivemos como família de Deus?
No primeiro capítulo de Atos, temos a promessa de Jesus antes de sua ascensão: “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em toda parte”. Como nos lembra Emílio Alvarez, o Pentecostes é sobre poder.¹ Mas de que poder estamos falando? Certamente não do tipo de poder que normalmente as pessoas desejam: o econômico, político ou militar, aquele que busca dominar e subjugar. Antes, o poder que vem do Espírito Santo nos capacita para continuarmos a missão de Jesus e vivermos uma comunidade que subverte as noções humanas de poder e de relacionamentos.
De volta ao texto de Atos, onde os discípulos e discípulas de Jesus estavam reunidos, algo decisivo acontece. O Espírito de Deus, presente e atuante desde a criação do mundo, vem sobre aquelas pessoas, inaugurando um novo tempo. Como explica Carmen Joy Imes, “no dia de Pentecostes, o Espírito encheu os crentes que estavam reunidos em oração, esperando a ação de Deus, formando um novo templo multilíngue e multicultural para a glória de Deus”.2
Naquele dia, pessoas de várias nações puderam entender a mensagem do evangelho pregada por Pedro com intrepidez. Aquilo que em Babel um dia havia sido separado começa agora a ser reunido pelo poder do Espírito. A explicação de Pedro para os eventos que deixaram todos perplexos estava nas Escrituras. Deus havia cumprido uma promessa presente no livro do profeta Joel: “Nos últimos dias, disse Deus, derramarei meu Espírito sobre todo tipo de pessoa. Seus filhos e suas filhas profetizarão; os jovens terão visões, e os velhos terão sonhos. Naqueles dias, derramarei meu Espírito até mesmo sobre servos e servas, e eles profetizarão” (At 2.17-18).

Um novo tempo começou; uma revolução teve início. Deus estava formando uma comunidade de iguais. Uma família em que todos possuem o mesmo valor e todos se tornam habitação do Espírito de Deus – um novo templo. Todos recebem do mesmo Espírito, e Deus não faz distinção: homens e mulheres, jovens e idosos. As diferenças que regem a nossa sociedade não ditam as regras da igreja. Nas palavras de Justo González, “Esse Espírito Santo, primeiro fruto da nova ordem, manifesta-se como um poder nivelador que destrói privilégios”.3
Em tempos de polarização política e guerras de narrativas, a igreja precisa ser uma voz dissonante. Se o Pentecostes nos revela o tipo de comunidade que Deus está formando, então não podemos permitir que o povo do Espírito viva conforme o espírito do nosso tempo. Entre nós, cristãos, aqueles que portam e representam o nome de Deus no mundo, deve prevalecer uma ética do reino que é intrinsecamente missional. Uma ética na qual não há lugar para discriminação, abusos, violência, corrupção nem mentiras. Que tais coisas nem sequer sejam nomeadas entre nós! Mas que abracemos sem reservas a nossa vocação: acolhendo, servindo e amando. Sendo uma comunidade de pessoas tão diferentes, mas ligadas umas às outras no amor de Deus.
Notas
1. Alvarez, Emilio. Pentecost: A Day of Power for All People. IVP, 2023. p. 4.
2. Imes, Carmen Joy. Becoming God’s Family: Why the Church Still Matters. IVP, 2025. p. 167.
3. González, Justo. Atos, o Evangelho do Espírito Santo. Hagnos, 2011. p. 66.
Artigo publicado originalmente na edição 419 de Ultimato.
Imagem: Unsplash
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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Saiba mais:
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Conhecendo a Deus ao Longo do Ano – Meditações diárias, J. I. Packer
» Pentecostes cristão: uma nova linguagem que todos podem falar, por Christian Gillis
» O Espírito Santo em Movimento, edição 340 de Ultimato
» Saudades do Pentecostes, edição 388 de Ultimato
Por Cynthia Muniz Soares
Um dos pontos altos da narrativa bíblica, descrito no livro de Atos dos Apóstolos, é o evento que conhecemos como Pentecostes. Em igrejas que seguem o calendário litúrgico, há um domingo específico para celebrar esse dia, que, historicamente, ocorre cinquenta dias após a Páscoa. Trata-se de uma festa muito antiga no calendário cristão, com raízes no Antigo Testamento. Mas raramente refletimos sobre o dia de Pentecostes e suas implicações para a igreja. Talvez porque ele nos desafie mais do que imaginamos. O que, então, o Pentecostes significa para nós hoje e, principalmente, para a maneira como vivemos como família de Deus?No primeiro capítulo de Atos, temos a promessa de Jesus antes de sua ascensão: “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em toda parte”. Como nos lembra Emílio Alvarez, o Pentecostes é sobre poder.¹ Mas de que poder estamos falando? Certamente não do tipo de poder que normalmente as pessoas desejam: o econômico, político ou militar, aquele que busca dominar e subjugar. Antes, o poder que vem do Espírito Santo nos capacita para continuarmos a missão de Jesus e vivermos uma comunidade que subverte as noções humanas de poder e de relacionamentos.
De volta ao texto de Atos, onde os discípulos e discípulas de Jesus estavam reunidos, algo decisivo acontece. O Espírito de Deus, presente e atuante desde a criação do mundo, vem sobre aquelas pessoas, inaugurando um novo tempo. Como explica Carmen Joy Imes, “no dia de Pentecostes, o Espírito encheu os crentes que estavam reunidos em oração, esperando a ação de Deus, formando um novo templo multilíngue e multicultural para a glória de Deus”.2
Naquele dia, pessoas de várias nações puderam entender a mensagem do evangelho pregada por Pedro com intrepidez. Aquilo que em Babel um dia havia sido separado começa agora a ser reunido pelo poder do Espírito. A explicação de Pedro para os eventos que deixaram todos perplexos estava nas Escrituras. Deus havia cumprido uma promessa presente no livro do profeta Joel: “Nos últimos dias, disse Deus, derramarei meu Espírito sobre todo tipo de pessoa. Seus filhos e suas filhas profetizarão; os jovens terão visões, e os velhos terão sonhos. Naqueles dias, derramarei meu Espírito até mesmo sobre servos e servas, e eles profetizarão” (At 2.17-18).

Um novo tempo começou; uma revolução teve início. Deus estava formando uma comunidade de iguais. Uma família em que todos possuem o mesmo valor e todos se tornam habitação do Espírito de Deus – um novo templo. Todos recebem do mesmo Espírito, e Deus não faz distinção: homens e mulheres, jovens e idosos. As diferenças que regem a nossa sociedade não ditam as regras da igreja. Nas palavras de Justo González, “Esse Espírito Santo, primeiro fruto da nova ordem, manifesta-se como um poder nivelador que destrói privilégios”.3
Em tempos de polarização política e guerras de narrativas, a igreja precisa ser uma voz dissonante. Se o Pentecostes nos revela o tipo de comunidade que Deus está formando, então não podemos permitir que o povo do Espírito viva conforme o espírito do nosso tempo. Entre nós, cristãos, aqueles que portam e representam o nome de Deus no mundo, deve prevalecer uma ética do reino que é intrinsecamente missional. Uma ética na qual não há lugar para discriminação, abusos, violência, corrupção nem mentiras. Que tais coisas nem sequer sejam nomeadas entre nós! Mas que abracemos sem reservas a nossa vocação: acolhendo, servindo e amando. Sendo uma comunidade de pessoas tão diferentes, mas ligadas umas às outras no amor de Deus.
Notas
1. Alvarez, Emilio. Pentecost: A Day of Power for All People. IVP, 2023. p. 4.
2. Imes, Carmen Joy. Becoming God’s Family: Why the Church Still Matters. IVP, 2025. p. 167.
3. González, Justo. Atos, o Evangelho do Espírito Santo. Hagnos, 2011. p. 66.
- Cynthia Muniz Soares é bióloga, mestre em saúde pública, teóloga, especialista em teologia do Novo Testamento e pastora anglicana. Atualmente, é mestranda em estudos do Novo Testamento. @cynthilant
Artigo publicado originalmente na edição 419 de Ultimato.
Imagem: Unsplash
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