Opinião
26 de agosto de 2026- Visualizações: 39
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Fé versus presunção e poder
Em um mundo caído e marcado pelo sofrimento, tenhamos menos sentenças sobre a dor dos outros, menos explicações apressadas e mais bons samaritanos
Por Carlos Henrique
“A internet pega fogo / e o celular vira martelo de juiz”, canta Midian Nascimento. A imagem é apropriada para as últimas semanas: terremotos na Colômbia, Espanha e Indonésia, e uma onda de calor recorde enfrentada na Inglaterra. E enquanto a Criação geme percebemos a fragilidade da nossa existência.
Mas a segunda parte da imagem talvez seja mais incômoda: o celular vira martelo de juiz. Quando a terra treme, as águas sobem ou o fogo ameaça uma cidade, começamos também a explicar por que aconteceu. Alguém encontra um pecado que justificaria a tragédia; outro identifica um comportamento daquela população que teria provocado a ira divina; outro recupera uma passagem bíblica sobre juízo. Em poucas horas, o desastre já tem culpados e sentença.
É curioso que acontecimentos que deveriam nos lembrar de nossa pequenez tantas vezes nos levem a uma posição de poder: diante da dor alheia, oferecemos explicações e levantamos o martelo. Buscar sentido para o sofrimento não é o problema; a Bíblia está cheia de gente perguntando “por quê?”. O problema começa quando deixamos de perguntar diante de Deus e passamos a responder em nome de Deus, sobretudo para explicar a dor dos outros.
Essa postura de juiz está longe de ser uma novidade dos nossos tempos. O próprio Jesus teve de lidar com ela, e é justamente por isso que sua resposta diante de duas tragédias de seu tempo continua tão necessária. Em Lucas 13, algumas pessoas lhe contam que Pilatos havia matado galileus enquanto ofereciam seus sacrifícios. Jesus, porém, percebe uma pergunta por trás da notícia: “Teriam eles sofrido daquela maneira porque eram mais pecadores que os demais?”. Sua resposta é direta: “Não” (Lc 13.2).
Então Jesus acrescenta outra tragédia: Dezoito pessoas morreram quando a torre de Siloé caiu. Seriam elas “mais culpadas do que todos os outros habitantes de Jerusalém?” (Lc 13.4). Novamente: “Não” (Lc 13.5). Nos dois casos, Jesus se recusa a usar a tragédia como termômetro da condição moral das vítimas.
Se Lucas 13 acontecesse hoje, talvez alguém publicasse: “Torre cai em Jerusalém e mata 18: entenda o significado espiritual da tragédia”. Mas Jesus se recusa a empunhar o martelo.
Nesse mesmo contexto temos os amigos de Jó que procuram na culpa dele uma explicação para seu sofrimento; em João 9, diante do homem cego, os discípulos perguntam: “Quem pecou?”. O problema não está nas verdades que conhecemos sobre Deus, mas na pretensão de usá-las para explicar causas do sofrimento que Deus não nos revelou.
Confessar que “Deus continua sendo Senhor mesmo na tragédia” é diferente de afirmar “Eu sei exatamente por que Deus permitiu isso”. A primeira declaração pode nascer da fé; a segunda, muitas vezes, da presunção.
Quando Jesus acrescenta “se não se arrependerem, todos vocês também perecerão” (Lc 13.3, 5), não autoriza seus ouvintes a investigar os pecados dos mortos. Ele desloca o olhar: em vez de “o que eles fizeram?”, a pergunta passa a ser “e vocês?”. A tragédia deixa de ser uma janela para investigar a culpa alheia e se torna um espelho diante do qual reconhecemos nossa própria finitude e necessidade de graça. Jesus tira o martelo de nossas mãos.

Lucas 13 também precisa ser lido ao lado de Lucas 10. Na parábola do bom samaritano, um homem é atacado, roubado e deixado quase morto. Não sabemos seu nome, religião ou porque viajava. Sabemos apenas o necessário: há um ser humano ferido à beira da estrada.
O samaritano não oferece uma explicação para o sofrimento. Oferece cuidado: aproxima-se, trata as feridas, leva o homem para um lugar seguro e paga suas despesas. Não apresenta uma teodiceia. Possui azeite, vinho, algum dinheiro e misericórdia. Era exatamente disso que o ferido precisava.
Isso não torna a teologia inútil diante do sofrimento. Precisamos de boa teologia para atravessá-lo sem perder Deus: da providência, para confessar que o caos não terá a palavra final; da cruz, para contemplar um Deus que entra na dor humana; da ressurreição, para saber que a morte não vencerá. Mas a boa teologia também sabe quando permanecer em silêncio. No centro da fé cristã, afinal, não há uma explicação abstrata para o sofrimento. Há uma cruz.
Por isso, uma igreja moldada pela cruz deveria ser conhecida menos pela rapidez de suas explicações e mais pela maneira como manifesta a misericórdia de Cristo em um mundo caído. Há perguntas legítimas sobre o sofrimento, mas existe outra que não pode esperar: Quem se fará próximo? Quem acolherá, ajudará a reconstruir, chorará com os que choram e permanecerá quando as câmeras forem embora?
Ao final da parábola, Jesus pergunta quem havia sido o próximo do homem ferido. “O que usou de misericórdia para com ele”. Jesus então diz: “Vá e faça o mesmo”.
Lucas 13 nos ensina a não transformar vítimas em culpados; Lucas 10, o que fazer diante de quem sofre. Isso significa também resistir às explicações apressadas (“parar de dar palco pra maluco”). O Rio Grande do Sul não alagou por causa das práticas de fé de sua população, a Colômbia não está debaixo de uma maldição porque a terra tremeu, tampouco a seca no Nordeste pode ser atribuída aos posicionamentos político-partidários de seu povo. Talvez não consigamos explicar todas as tragédias, mas sabemos o que Jesus espera de nós diante delas: solte o martelo, aproxime-se, use de misericórdia, vá e faça o mesmo. Oro para que, em um mundo caído e marcado pelo sofrimento, tenhamos menos sentenças sobre a dor dos outros, menos explicações apressadas e mais bons samaritanos.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Jesus e a Terra – A ética ambiental nos evangelhos, James Jones
» Muitas Andorinhas Fazem Verão, Cilas Fiuza Gavioli
» Assim na Terra como no Céu – Experiências socioambientais na igreja local, Gínia César Bontempo (org.)
» Box John Stott – O Cristão Contemporâneo
Por Carlos Henrique
“A internet pega fogo / e o celular vira martelo de juiz”, canta Midian Nascimento. A imagem é apropriada para as últimas semanas: terremotos na Colômbia, Espanha e Indonésia, e uma onda de calor recorde enfrentada na Inglaterra. E enquanto a Criação geme percebemos a fragilidade da nossa existência.Mas a segunda parte da imagem talvez seja mais incômoda: o celular vira martelo de juiz. Quando a terra treme, as águas sobem ou o fogo ameaça uma cidade, começamos também a explicar por que aconteceu. Alguém encontra um pecado que justificaria a tragédia; outro identifica um comportamento daquela população que teria provocado a ira divina; outro recupera uma passagem bíblica sobre juízo. Em poucas horas, o desastre já tem culpados e sentença.
É curioso que acontecimentos que deveriam nos lembrar de nossa pequenez tantas vezes nos levem a uma posição de poder: diante da dor alheia, oferecemos explicações e levantamos o martelo. Buscar sentido para o sofrimento não é o problema; a Bíblia está cheia de gente perguntando “por quê?”. O problema começa quando deixamos de perguntar diante de Deus e passamos a responder em nome de Deus, sobretudo para explicar a dor dos outros.
Essa postura de juiz está longe de ser uma novidade dos nossos tempos. O próprio Jesus teve de lidar com ela, e é justamente por isso que sua resposta diante de duas tragédias de seu tempo continua tão necessária. Em Lucas 13, algumas pessoas lhe contam que Pilatos havia matado galileus enquanto ofereciam seus sacrifícios. Jesus, porém, percebe uma pergunta por trás da notícia: “Teriam eles sofrido daquela maneira porque eram mais pecadores que os demais?”. Sua resposta é direta: “Não” (Lc 13.2).
Então Jesus acrescenta outra tragédia: Dezoito pessoas morreram quando a torre de Siloé caiu. Seriam elas “mais culpadas do que todos os outros habitantes de Jerusalém?” (Lc 13.4). Novamente: “Não” (Lc 13.5). Nos dois casos, Jesus se recusa a usar a tragédia como termômetro da condição moral das vítimas.
Se Lucas 13 acontecesse hoje, talvez alguém publicasse: “Torre cai em Jerusalém e mata 18: entenda o significado espiritual da tragédia”. Mas Jesus se recusa a empunhar o martelo.
Nesse mesmo contexto temos os amigos de Jó que procuram na culpa dele uma explicação para seu sofrimento; em João 9, diante do homem cego, os discípulos perguntam: “Quem pecou?”. O problema não está nas verdades que conhecemos sobre Deus, mas na pretensão de usá-las para explicar causas do sofrimento que Deus não nos revelou.
Confessar que “Deus continua sendo Senhor mesmo na tragédia” é diferente de afirmar “Eu sei exatamente por que Deus permitiu isso”. A primeira declaração pode nascer da fé; a segunda, muitas vezes, da presunção.
Quando Jesus acrescenta “se não se arrependerem, todos vocês também perecerão” (Lc 13.3, 5), não autoriza seus ouvintes a investigar os pecados dos mortos. Ele desloca o olhar: em vez de “o que eles fizeram?”, a pergunta passa a ser “e vocês?”. A tragédia deixa de ser uma janela para investigar a culpa alheia e se torna um espelho diante do qual reconhecemos nossa própria finitude e necessidade de graça. Jesus tira o martelo de nossas mãos.

Lucas 13 também precisa ser lido ao lado de Lucas 10. Na parábola do bom samaritano, um homem é atacado, roubado e deixado quase morto. Não sabemos seu nome, religião ou porque viajava. Sabemos apenas o necessário: há um ser humano ferido à beira da estrada.
O samaritano não oferece uma explicação para o sofrimento. Oferece cuidado: aproxima-se, trata as feridas, leva o homem para um lugar seguro e paga suas despesas. Não apresenta uma teodiceia. Possui azeite, vinho, algum dinheiro e misericórdia. Era exatamente disso que o ferido precisava.
Isso não torna a teologia inútil diante do sofrimento. Precisamos de boa teologia para atravessá-lo sem perder Deus: da providência, para confessar que o caos não terá a palavra final; da cruz, para contemplar um Deus que entra na dor humana; da ressurreição, para saber que a morte não vencerá. Mas a boa teologia também sabe quando permanecer em silêncio. No centro da fé cristã, afinal, não há uma explicação abstrata para o sofrimento. Há uma cruz.
Por isso, uma igreja moldada pela cruz deveria ser conhecida menos pela rapidez de suas explicações e mais pela maneira como manifesta a misericórdia de Cristo em um mundo caído. Há perguntas legítimas sobre o sofrimento, mas existe outra que não pode esperar: Quem se fará próximo? Quem acolherá, ajudará a reconstruir, chorará com os que choram e permanecerá quando as câmeras forem embora?
Ao final da parábola, Jesus pergunta quem havia sido o próximo do homem ferido. “O que usou de misericórdia para com ele”. Jesus então diz: “Vá e faça o mesmo”.
Lucas 13 nos ensina a não transformar vítimas em culpados; Lucas 10, o que fazer diante de quem sofre. Isso significa também resistir às explicações apressadas (“parar de dar palco pra maluco”). O Rio Grande do Sul não alagou por causa das práticas de fé de sua população, a Colômbia não está debaixo de uma maldição porque a terra tremeu, tampouco a seca no Nordeste pode ser atribuída aos posicionamentos político-partidários de seu povo. Talvez não consigamos explicar todas as tragédias, mas sabemos o que Jesus espera de nós diante delas: solte o martelo, aproxime-se, use de misericórdia, vá e faça o mesmo. Oro para que, em um mundo caído e marcado pelo sofrimento, tenhamos menos sentenças sobre a dor dos outros, menos explicações apressadas e mais bons samaritanos.
- Carlos Henrique é engenheiro florestal, especialista em educação e gestão ambiental e mestrando em conservação e desenvolvimento sustentável. Congrega na Igreja Presbiteriana e atua como coordenador de mobilização na Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI Brasil). @carloshenrique.ss.
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Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» Jesus e a Terra – A ética ambiental nos evangelhos, James Jones
» Muitas Andorinhas Fazem Verão, Cilas Fiuza Gavioli
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