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Opinião

A morte da morte


Na calada da noite
Enquanto todos dormem
A morte chega bem perto
Põe uma escada e
Sobe pelas janelas do palácio

Lá dentro, de capa preta
A morte entra no quarto das meninas
E mata Débora, Maria e Joana
Entra no quarto dos meninos
E enfia a espada no peito de Carlos e João

Com as mãos ensopadas de sangue
A morte entra no quarto do casal
E corta a cabeça de Ana e Mário
O sangue escorre da cama
Então a morte vai embora

Mais na frente
Há um bando de crianças pobres
Dormindo debaixo da ponte
E a morte com a foice na mão
Mata todas as vinte

Alguns passos mais adiante
A morte vê um grupo alegre
São rapazes e moças que voltam
Depois de uma festa muito animada
E mata todos os trinta

Enquanto todos choram
A morte vai para casa
Desce até o abismo dos mortos
Onde todos estão pegados no sono
A morte estende o lençol e dorme

A morte sonha os sonhos de toda noite
Sangue por toda parte
Corpos de crianças e jovens
Corpos de adultos e velhos
Em toda a extensão da terra

Na manhã seguinte bem cedo
A morte pega a foice
E sai outra vez
Para o mundo dos vivos
Ela caminha e canta:

“Eu sou o rei dos terrores
Com o lábio inferior eu toco a terra
Com o lábio superior eu toco o céu
Minha boca está sempre escancarada
Para engolir todos os vivos”

A morte finge não saber
Que ela não reina sozinha
Se há um rei dos terrores
Há também um Rei da glória
Se há uma foice, há também um cetro

A morte não quer ouvir
Mas chega até ela a voz do Rei da glória
“Eu sou o criador da vida
Eu sou a vida
E também a ressurreição”

“Eu trago de volta da terra o corpo
Eu trago de volta do céu o espírito
Eu coloco um ao lado do outro
Eu sopro sobre eles o meu ânimo
E eles voltam a viver!”

“Tudo está espatifado
Mas eu reacendo a lamparina apagada
Mas eu conserto a corrente quebrada
Mas eu renovo o vaso de barro partido
Mas eu emendo a corda do poço rompida”

“Eu não sou Deus de mortos,
Eu sou Deus de vivos!
O Deus de Débora, Maria e Joana
O Deus de Carlos e João
O Deus de Ana e Mário!”

A morte vai ser vencida
A morte vai morrer
A morte vai acabar
A morte será lançada no lago de fogo
Para sempre, sim, para sempre!

O abismo dos mortos dará os seus mortos
A terra dará os seus mortos
O mar dará os seus mortos
Os necrotérios darão os seus mortos
As necrópoles darão os seus mortos

Todos os exércitos dos céus
Todos os mortos ressuscitados
Todos os vivos glorificados
Todos os salvos e não salvos
Darão sepultura à morte

O cortejo fúnebre da morte será...
O mais comprido
O mais musical
O mais alegre
O mais demorado

Então um homem simples
À vista de todo o mundo
Pergunta à morte:
“Onde está, ó morte, a sua vitória?
Onde está, ó morte, o seu aguilhão?”

Nota:
Este poema está firmado nas seguintes passagens bíblicas entre outras: Jó 9.21; Salmo 2.4-9; Eclesiastes 12.6-7; Jeremias 9.21; Mateus 22.23; João 11.25; 1 Coríntios 15.54-55; 1 Tessalonicenses 4.15-17; Apocalipse 20.22.

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Elben Magalhães Lenz César foi o fundador da Editora Ultimato e redator da revista Ultimato até a sua morte, em outubro de 2016. Fundador do Centro Evangélico de Missões e pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa (IPV), é autor de, entre outros, Por Que (Sempre) Faço o Que Não Quero?, Refeições Diárias com Jesus, Mochila nas Costas e Diário na Mão, Para (Melhor) Enfrentar o Sofrimento, Conversas com Lutero, Refeições Diárias com os Profetas Menores, A Pessoa Mais Importante do Mundo, História da Evangelização do Brasil e Práticas Devocionais. Foi casado por sessenta anos com Djanira Momesso César, com quem teve cinco filhas, dez netos e quatro bisnetos.
  • Textos publicados: 105 [ver]

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