Opinião
26 de agosto de 2026- Visualizações: 157
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171 anos depois - o que aprender com o casal Kalley?
Por Sergio Prates Lima
No dia 19 de agosto de 1855, em Petrópolis, RJ, uma mulher, Sarah Poulton Kalley dirigiu uma classe com 5 crianças, em alemão e em inglês. Deu a lição do profeta Jonas, dando início à Escola Dominical em caráter permanente no Brasil. Cerca de quinze dias depois, seu marido, Robert Reid Kalley, dirigiu uma classe de adultos com a presença de um homem negro entre os participantes, o que, para a época, num país escravocrata, era algo inconcebível. O casal, que havia chegado ao Rio de Janeiro em maio de 1855, havia se mudado para Petrópolis para fugir do calor da capital da corte.
No ano seguinte, Robert Kalley convidou três famílias de madeirenses que estavam morando nos Estados Unidos para virem ao Brasil ajudá-lo na evangelização dos brasileiros. Também em 1856, D. Sarah inicia as aulas da escola dominical em língua portuguesa.
Em 1858, é organizada no Rio de Janeiro, a Igreja Evangélica, posteriormente, Igreja Fluminense, com catorze pessoas, com apenas um brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade, que foi batizado e se tornou muito importante para o reconhecimento do casamento para os acatólicos, visto que não existia o registro civil àquela ocasião. Pedro Nolasco agiu junto às autoridades para que os acatólicos tivessem sua situação regularizada.
Em 1865, a Igreja Evangélica Fluminense toma a atitude de não aceitar em seu rol de membros donos de escravos. Dois de seus membros foram intimados pela igreja a alforriarem os seus. Um o fez. O que se recusou a fazê-lo no prazo estipulado pela igreja, foi excluído.
Em 1873, foi organizada a Igreja Evangélica Pernambucana.
Ao longo dos 21 anos permanência no Brasil, Robert Kalley se destacou em várias áreas. Preocupado com a saúde física dos brasileiros, agiu em várias frentes. Colaborou com as autoridades num surto de cólera, defendeu tese para revalidar seu diploma de médico justamente sobre a doença.
Junto com a esposa, em 1861 Kalley organizou o primeiro hinário evangélico, Salmos e Hinos, que se tornaria a base para todos os demais hinários surgidos, depois, no Brasil.

D. Sarah Kalley escreveu o livro A Alegria da Casa que, com dicas de saúde, economia doméstica e outros temas, foi adotado pelas escolas brasileiras.
Kalley sustentou debates com párocos católicos via imprensa, defendendo a liberdade de crença e de culto e combatendo a exclusividade católica para registro de nascimento, casamento e óbitos.
Em 1876, o casal retirou-se do Brasil para a Escócia, terra natal de Kalley. Antes, Kalley preparou uma síntese doutrinária ou confissão de fé, com 28 artigos (um deles sugerido por um membro da igreja) estudados por um longo período pela igreja e que se tornaram a Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo.
Após a morte do marido, D. Sarah Kalley recebeu em sua casa estudantes e os acolheu por muito tempo. Criou, com outros irmãos, a missão Help for Brasil, que tinha por objetivo evangelizar o Brasil. D. Sarah faleceu em 8 de agosto de 1907.
Neste 19 de agosto de 2026, comemoramos o início da Escola Dominical em caráter permanente no país. Não são 171 anos da denominação. Não foi a primeira escola dominical e nem foi em português. Os metodistas tinham iniciado a Escola Dominical em português anos antes, mas foram embora em 1841. A denominação foi organizada apenas em 1913, com treze igrejas, na Igreja Evangélica Fluminense, com dezesseis representantes das igrejas.
A data foi aprovada posteriormente como dia da denominação e aí começaram as confusões. Kalley não era congregacional. Era presbiteriano. Sua esposa era congregacional. Então eles fizeram uma simbiose, com aspectos congregacionais e presbiterianos. Kalley e Sarah não eram representantes de nenhuma junta de missões, como aconteceu com vários outros grupos evangélicos surgidos posteriormente. Não tinha intenção de criar uma denominação. Queria evangelizar, realizar cultos domésticos, sem as amarras denominacionais, valorizando dois segmentos, os leigos e mulheres.
Sarah ocupava um importante papel na igreja. Preparava sermões, orientava os professores da escola dominical, controlava a venda de material pelos colportores, dava aulas de música, realizava atividades com mulheres, estimulou a criação de uma escola para os membros da igreja. Foi uma mulher à frente do seu tempo. Kalley, por outro lado, dava aos oficiais da igreja a oportunidade de dirigirem atividades – eles pregavam e foram responsáveis pela condução da igreja por vários anos, visto que o casal Kalley morou em Petrópolis por apenas nove anos.
171 anos depois, precisamos aprender com o casal pioneiro. Valorizar o trabalho feminino, valorizar o trabalho dos leigos, ter preocupação com outros temas importantes além de evangelizar os descrentes, agir na sociedade e participar de discussões que afetam todos e todas.
Que Deus nos abençoe e que sejamos gratos e gratas pela atuação do casal Kalley.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Clique aqui e saiba mais.
Saiba mais:
» História da Evangelização no Brasil – Dos jesuítas aos pentecostais, Elben César
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – A religiosidade, o papel feminino, as denominações e suas pioneiras, Rute Salviano Almeida
No dia 19 de agosto de 1855, em Petrópolis, RJ, uma mulher, Sarah Poulton Kalley dirigiu uma classe com 5 crianças, em alemão e em inglês. Deu a lição do profeta Jonas, dando início à Escola Dominical em caráter permanente no Brasil. Cerca de quinze dias depois, seu marido, Robert Reid Kalley, dirigiu uma classe de adultos com a presença de um homem negro entre os participantes, o que, para a época, num país escravocrata, era algo inconcebível. O casal, que havia chegado ao Rio de Janeiro em maio de 1855, havia se mudado para Petrópolis para fugir do calor da capital da corte.No ano seguinte, Robert Kalley convidou três famílias de madeirenses que estavam morando nos Estados Unidos para virem ao Brasil ajudá-lo na evangelização dos brasileiros. Também em 1856, D. Sarah inicia as aulas da escola dominical em língua portuguesa.
Em 1858, é organizada no Rio de Janeiro, a Igreja Evangélica, posteriormente, Igreja Fluminense, com catorze pessoas, com apenas um brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade, que foi batizado e se tornou muito importante para o reconhecimento do casamento para os acatólicos, visto que não existia o registro civil àquela ocasião. Pedro Nolasco agiu junto às autoridades para que os acatólicos tivessem sua situação regularizada.
Em 1865, a Igreja Evangélica Fluminense toma a atitude de não aceitar em seu rol de membros donos de escravos. Dois de seus membros foram intimados pela igreja a alforriarem os seus. Um o fez. O que se recusou a fazê-lo no prazo estipulado pela igreja, foi excluído.
Em 1873, foi organizada a Igreja Evangélica Pernambucana.
Ao longo dos 21 anos permanência no Brasil, Robert Kalley se destacou em várias áreas. Preocupado com a saúde física dos brasileiros, agiu em várias frentes. Colaborou com as autoridades num surto de cólera, defendeu tese para revalidar seu diploma de médico justamente sobre a doença.
Junto com a esposa, em 1861 Kalley organizou o primeiro hinário evangélico, Salmos e Hinos, que se tornaria a base para todos os demais hinários surgidos, depois, no Brasil.

D. Sarah Kalley escreveu o livro A Alegria da Casa que, com dicas de saúde, economia doméstica e outros temas, foi adotado pelas escolas brasileiras.
Kalley sustentou debates com párocos católicos via imprensa, defendendo a liberdade de crença e de culto e combatendo a exclusividade católica para registro de nascimento, casamento e óbitos.
Em 1876, o casal retirou-se do Brasil para a Escócia, terra natal de Kalley. Antes, Kalley preparou uma síntese doutrinária ou confissão de fé, com 28 artigos (um deles sugerido por um membro da igreja) estudados por um longo período pela igreja e que se tornaram a Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo.
Após a morte do marido, D. Sarah Kalley recebeu em sua casa estudantes e os acolheu por muito tempo. Criou, com outros irmãos, a missão Help for Brasil, que tinha por objetivo evangelizar o Brasil. D. Sarah faleceu em 8 de agosto de 1907.
Neste 19 de agosto de 2026, comemoramos o início da Escola Dominical em caráter permanente no país. Não são 171 anos da denominação. Não foi a primeira escola dominical e nem foi em português. Os metodistas tinham iniciado a Escola Dominical em português anos antes, mas foram embora em 1841. A denominação foi organizada apenas em 1913, com treze igrejas, na Igreja Evangélica Fluminense, com dezesseis representantes das igrejas.
A data foi aprovada posteriormente como dia da denominação e aí começaram as confusões. Kalley não era congregacional. Era presbiteriano. Sua esposa era congregacional. Então eles fizeram uma simbiose, com aspectos congregacionais e presbiterianos. Kalley e Sarah não eram representantes de nenhuma junta de missões, como aconteceu com vários outros grupos evangélicos surgidos posteriormente. Não tinha intenção de criar uma denominação. Queria evangelizar, realizar cultos domésticos, sem as amarras denominacionais, valorizando dois segmentos, os leigos e mulheres.
Sarah ocupava um importante papel na igreja. Preparava sermões, orientava os professores da escola dominical, controlava a venda de material pelos colportores, dava aulas de música, realizava atividades com mulheres, estimulou a criação de uma escola para os membros da igreja. Foi uma mulher à frente do seu tempo. Kalley, por outro lado, dava aos oficiais da igreja a oportunidade de dirigirem atividades – eles pregavam e foram responsáveis pela condução da igreja por vários anos, visto que o casal Kalley morou em Petrópolis por apenas nove anos.
171 anos depois, precisamos aprender com o casal pioneiro. Valorizar o trabalho feminino, valorizar o trabalho dos leigos, ter preocupação com outros temas importantes além de evangelizar os descrentes, agir na sociedade e participar de discussões que afetam todos e todas.
Que Deus nos abençoe e que sejamos gratos e gratas pela atuação do casal Kalley.
- Sergio Prates Lima, presbítero da 2ª Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, Rio de Janeiro. Mestre em História e doutor em Ciências Sociais.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Clique aqui e saiba mais.
Saiba mais:
» História da Evangelização no Brasil – Dos jesuítas aos pentecostais, Elben César
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott e Tim Chester
» Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – A religiosidade, o papel feminino, as denominações e suas pioneiras, Rute Salviano Almeida
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