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Palavra do leitor

Pedras nas mãos, espelhos no coração

Fui profundamente impactado por uma notícia do meio evangélico neste início de janeiro de 2026. Ao navegar pelos vídeos do YouTube, deparei-me com o título: "Famoso escritor cristão confessa adultério e abandona ministério". Tratava-se de um vídeo no qual o pastor Augustus Nicodemus comentava a confissão pública do renomado escritor cristão Philip Yancey, que admitiu manter, por cerca de oito anos, um relacionamento extraconjugal com uma mulher casada. O maior impacto, entretanto, não foi apenas a queda de nosso irmão — ainda que o fato seja gravíssimo e traga consequências dolorosas para sua família, para a igreja e para o testemunho cristão —, mas a avalanche de comentários carregados de críticas severas, julgamentos e sentenças morais. Estimo que mais de 90% das opiniões expressavam condenação imediata, muitas vezes sem qualquer sinal de graça, temor ou autoexame.

Quase que automaticamente, fui remetido ao episódio da mulher surpreendida em adultério, narrado em João 8:1-11. Diante de uma multidão armada de pedras e amparada pela Lei de Moisés, Jesus declara: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela." O texto mostra que, confrontados pela santidade e pela verdade de Cristo, os acusadores se retiram um a um, conscientes de sua própria culpa. Ao final, Jesus não relativiza o pecado, mas oferece perdão acompanhado de um chamado à transformação: "Vai-te e não peques mais."

É importante afirmar que não se trata de equiparar os dois casos. A mulher surpreendida em adultério ainda não havia experimentado a graça salvadora de Cristo, enquanto o escritor evangélico construiu sua trajetória pública ensinando sobre fé, graça e compromisso cristão. Há, portanto, maior responsabilidade, conforme ensina a Escritura (cf. Tiago 3:1), e é justamente por isso que a disciplina da igreja local se faz necessária - não como instrumento de vingança ou exposição pública, mas como meio bíblico de correção, arrependimento e, se Deus permitir, restauração. Contudo, a lição central permanece: as pedras que simbolizavam a condenação pela Lei, no Novo Testamento, revelam-se inúteis quando confrontadas pela graça e pela verdade de Jesus. Ainda assim, essas mesmas "pedras" continuam sendo lançadas hoje, muitas vezes por aqueles que se esquecem de que também são pecadores e que elas podem, inevitavelmente, voltar-se contra si mesmos.

As pedras tornam-se inúteis quando somos levados a reconhecer nossa própria culpa diante de Deus. O Evangelho ressalta que Jesus não anulou a Lei, mas expôs a hipocrisia de um julgamento que não nasce do arrependimento, e sim da autojustiça. Como ensina o apóstolo Paulo: "Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia" (1Co 10.12). Esse alerta não é um convite à complacência com o pecado, mas à humildade, à vigilância espiritual e ao reconhecimento de que ninguém está imune à queda.

Diante de situações como essa, a igreja é chamada a um caminho mais excelente: o da verdade aliada à graça. O pecado precisa ser tratado com seriedade, disciplina e arrependimento genuíno, mas jamais com prazer no escândalo ou espírito de condenação. O episódio nos convida ao autoexame, à intercessão e à restauração, lembrando que todos permanecemos de pé unicamente pela misericórdia de Deus. Antes de recolher pedras com as mãos, somos chamados a encarar o espelho do coração.
Sao Paulo - SP
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