Data da impressão: 09 de fevereiro de 2010

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br
OPINIãO
 
  Uma arca abarrotada de ouro na curva do Rio Jordão
 
Derval Dasilio

Essa é a mensagem da bandeira do Estado de Israel na fachada da Catedral da IURD? Solidariedade explicita ao massacre sistemático de muçulmanos inocentes no Oriente Médio? O sionismo neoevangélico é uma boa caricatura do que acontece neste Brasil evangélico estranhamente solidário a Israel. Há uma febre judaizante. Restaria saber se os demais apóstolos (alguns, judeus palestinos) aceitariam o “evangelho” turístico neopentecostal. O grande sonho da elite evangélica é ir passear em Jerusalém: território que aponta para Sião, “nossa santa e bela cidade”, com pedrinhas de brilhantes “só pra ver Jesus passar”... Quem sabe não passa mesmo? Mas a escala em Paris e Veneza é obrigatória. Romance embalado com o gospel milionário e meloso no iPod (descubra as raízes da fé cristã: visite Yardenit, onde Jesus foi batizado por João Batista), como na novela sobre a Índia brasileira da Globo, para milionários, fundo musical em “jazz” de Frank Sinatra.

Daí se construiu toda uma ideologia idolátrica e romântica da Terra Santa: lá o batismo é mais santificado, a água é mais poderosa (embora a ideal, importada, seja mais cara que champanhe Don Pérignon Brut ou Vintage Rosé, 1996, mil reais a garrafa). Lá as pedras são sagradas, as folhas das árvores despoluídas espiritualmente. Faz um bem danado ao crente rebatizado! A água do Jordão, não a champanhe. Até o evangélico Bush foi lá, como bom fundamentalista, renascido, como carismáticos da Renascer em Cristo, dos famosos Hernandez e suas algemas eletrônicas, e do craque do Real Madri, Kaká, que pretende ser um de seus pastores ao aposentar-se do futebol. Tal e qual sua esposa, pastora Caroline Celico, que acaba de fundar uma comunidade/comodities em Madri (dinheiro é bom, principalmente na nossa mão...). A justiça norte-americana bloqueou bens do casal Hernandez, como a mansão em Boca Raton, avaliada em 495 mil dólares. Mas não alcança a fazenda em Mairinque, comprada por 1,8 milhões de reais. Meros sinais da teologia da prosperidade (deles)? Que água consomem ali, naquele paraíso? Aquela que passarinho não bebe?

Muita gente ganha dinheiro com esse comércio imoral e pagão (cf. Simão o mágico, At 8.9-24), vendendo porções de “terra santa” e garrafinhas de água do Rio Jordão com propriedades milagrosas, depois de pregações sionistas em templos evangélicos. Um subproduto desta bobagem é o "apoio incondicional a Israel" (palavras dos pastores). Afinal, foi dito a Abraão: "Abençoarei os que te abençoarem". “E não há nenhum esforço para ver qual a diferença entre Ariel Sharon e Abraão” (Gedeon Alencar). E mesmo para identificar islâmicos como ramos da mesma e abençoada árvore abraâmica.

Na realidade, há árabes cristãos, libaneses, drusos e judeus sefaradies que não assimilaram a cultura sionista apreciada por neoevangélicos. Por sua vez, o termo “israelita” é aplicado aos seguidores do culto, e o “israelense” aos cidadãos do Estado de Israel. Todos esqueceram que, desde Esdras e Neemias, o termo adequado seria “judeu”, exterminada a religião de Javé, com o exílio babilônico (e só profetas anteriores falam do “resto de Israel”) e na diáspora. Jesus, saudoso do “resto javista” original, combateu vigorosamente os resultados dos últimos trezentos anos sob gregos e romanos e seu “helenismo” introdutor do capitalismo imperial monetarista, opressor e escravagista, no mundo mediterrânico. Má geografia, péssima memória histórica, em competições de estupidez teológica.

De fato, hoje, entre judeus históricos e israelenses são mais de 80% o grupo nacional formado por ateus ou agnósticos. Há apenas cidadãos de um Estado e seguidores de uma cultura, mas não praticantes de uma religião bíblica. Israelenses islâmicos, cristãos e drusos, embora registrados como cidadãos e portadores do passaporte de Israel, vêm, a seguir, em ordem decrescente pirâmide abaixo, de patins: drusos, árabes-cristãos (grego-ortodoxos, sírio-ortodoxos, armênios, coptas, uniatas, latinos, protestantes). Mais recentemente, tem surgido, segundo Robinson Cavalcanti, uma reduzidíssima expressão: judeus messiânicos, evangélicos judeu-cristãos. Árabes-islâmicos (com suas clássicas divisões) compõem o cenário. Miríade pluralista que não perde para o cristianismo brasileiro.


• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com
   
 
Publicidade
   
 
Opinião do leitordeixe seu comentário
 
 
Daniel De Souza Benevides | Campo Grande - MS #1
Eu não tinha fé, esperança, nenhum amor. Fui resgatado, dizem que mudei radicalmente de vida, há 15 anos conheci "JC", fui e já comprei as passagens novamente. Sou muito feliz com minha esposa. Amo meu Jesus e amo Israel. Será que estou errado?
Postado em 12/09/2009 às 14:24:48
 
Eduardo Ribeiro Mundim | Belo Horizonte - MG #2
Daniel, você não entendeu a crítica do texto. A leitura atenta da epístola de Paulo aos Romanos corrobora muitos pontos do autor.
Postado em 14/09/2009 às 18:01:45
 
Derval Dasilio | Vitória - ES #3
Prezado Daniel:
A História de Israel é também a história
do povo bíblico. Teologicamente, a história de fé cristã, só faz sentido por centralizar Jesus Cristo e seu movimento em favor do reinado de Deus, com todas as implicações espirituais, sociais, éticas, inevitavelmente. Ler essa história implica em reconhecer-nos no universo inteiro como herdeiros da fé transmitida através
da Bíblia... uma longa e bela história. A história recente do Estado de Israel não confere com o que conhecemos na Bíblia. Maioria agnóstica, atéia, belicosa, agressiva, representa uma nação desconhecida biblicamente.
Postado em 15/09/2009 às 08:21:49
 
Claudimr De Morais | Curitiba - PR #4
Prezado irmão Derval:
Apreciei muito o seu texto. Aliás, achei bem oportuno.
Não sou neopentecostal nem sionista, ainda que tenha "sangue" de Abraão correndo em minhas veias. Mas algo me incomoda: a posição dos protestantes históricos quanto aos judeus e aí precisa-se lidar com a questão do atual Israel. Afinal de contas, aquilo que aconteceu em 1948 foi casualidade, manobra (lobby) sionista, ou o cumprimento de alguma profecia bíblica? Acho que essa questão precisa ser esclarecida pelos protestantes históricos.
Continua...
Postado em 18/09/2009 às 15:08:57
 
Claudimr De Morais | Curitiba - PR #5
Acho que deveria se abrir esse assunto e esclarecer a igreja de uma vez por todas (!). Enquanto há silêncio do lado protestante histórico (e espero, bíblico!), o lado neopentecostal (nada bíblico!) toma conta... Nisso tudo deve-se avaliar se realmente os protestantes estão livres de antisemitismo. Aliás, é difícil não ver essa tendência nalguns colunistas da Ultimato. Quero crer que seja apenas influência de sua vertente socialista. Mas suspeito que estes farão apologia para a vinda do famigerado Ahmedinejad ao Brasil.
Sugiro ao irmão que escreva algo a esse respeito. Continua.
Postado em 18/09/2009 às 15:17:07
 
Claudimr De Morais | Curitiba - PR #6
Afinal, há alguma promessa ainda a ser cumprida para com essa nação? Ou deveríamos apoiar o sonho do Hamas e do Hezbolah empurrando e lançando os judeus ao mar? Há o sério risco de sairmos do extremo praticado pelo neopentecostais e irmos ao outro, o do antisemitismo (aliás, culpa histórica de diversas vertentes protestantes).
Um abraço
Postado em 18/09/2009 às 15:22:21
 
Derval Dasilio | Vitória - ES #7
Claudimir De Morais:

Obrigado por seu comentário.

Aqui, o espaço é exíguo, e é impossível dizer muito. O povo bíblico, historiograficamente, começa sua história no êxodo (1250 a.C.?); prossegue com o governo tribal cooperativo, igualitário, até a primeira monarquia (1050 a.C.); dominado consecutivamente por egipcios, assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, experimenta o fim da monarquia (595 a.C.) e conhece a experiência da diáspora, jamais concluída. Nasce o Judaísmo, religião étnica. Biblicamente, o conflito criador do Cristianismo ocorre sob gregos e romanos, (cont.)
Postado em 19/09/2009 às 18:55:58
 
Derval Dasilio | Vitória - ES #8
o fim do sonho nacional de apresentar-se diante do mundo como ùnica nação eleita por Deus. A teologia é rica, em todas as crises, na perspectiva bíblica da universalização da promessa de Deus num povo que o represente.

O NT consagra a nova concepção da segunda aliança, destinada a todos os povos da terra. A promessa bíblica gera o que teólogos reconhecem como História da Salvação, algo que escapa da historiografia científica para um sentido amplo relativo às escolhas de Deus. O NT garante a salvação para todos os povos e raças, não só para judeus, islãmicos, cristãos. Como? Bem...
Postado em 19/09/2009 às 19:09:36
 
Derval Dasilio | Vitória - ES #9
a questão extrapola qualquer conceito da história das civilizações, desde os tempos sem memória, sem escrita, sem registros, até a abundância de informações nos dias de hoje.

Nossa discussão alcançaria (estou consciente da presunção!) verdades infinitas que se aplicariam à realidade concreta? Impossível responder. A distância entre a fé nas escolhas de Deus e as experiências históricas invadidas pela violência, pelo poder como concessão divina, são um problema permanente. Ser antijudeu, anti-islâmico, anticatólico romano, e todas as intolerâncias tradicionais, também não é bíblico ou cristão.
Postado em 19/09/2009 às 19:23:21
 
Claudimr De Morais | Curitiba - PR #10
Obrigado pelos comentários:

Sejamos simples: volto a insistir na necessidade de esclarecer essa "massa evangélica", no que se refere à nação de Israel atual. Tenho a impressão que pecamos por falta de conhecimento. Afinal de contas, ainda vivemos à sombra da teologia cristã da "substituição", que tanto mal fez aos judeus ao longo desses quase 1700 anos.

Sugiro ao irmão que conheça um trabalho sério que vem sendo realizado em Israel (Tel Aviv) com os judeus não-religiosos, os ateus e os agnósticos: www.maozisrael.com.br (escritório no Brasil).
Postado em 21/09/2009 às 16:49:32
 
Eduardo França De Oliveira | Feira De Santana - BA #11
Glória a Deus! Ainda bem que existem pessoas firmadas na Verdadeira e Santa Palavra de Deus! Realmente o que existe é um avassalador frenesi na busca pelos "apetrechos" vétero-testamentários e não um desejo por ser um adorador em espírito e em verdade (Jo 4:23-24). Há uma sacralização exacerbada à Israel sendo que a própria Bíblia diz que "nem todos os que são de Israel são israelitas" (Rm 9:6). Porque esse retorno ao Velho Testamento?
continua...
Postado em 05/10/2009 às 15:10:57
 
Eduardo França De Oliveira | Feira De Santana - BA #12
Continuação:
Sei e corroboro as palavras de Paulo: Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança. (Rm 15:4) e também que: Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. (I Co 10:11). Isso é verdade, mas o que estão fazendo é absurdo e antibíblico.

Voltemos à Palavra de Deus!

(Pentecostal, Fundamentalista e Apologista-Polemista)
Postado em 05/10/2009 às 15:32:52
 
Scarparoclaudio@hotmail.com | Ituiutaba - MG #13
A paz do Senhor Jesus para os irmãos.
Hoje há muitos fariseus, vestidos de crentes, que adoram o dinheiro. Falam mal de coisas e pessoas, que o amor cristão não permite falar. Israel é um país, que não adora ao seu Deus. A maioria é contra seu Filho Jesus. Há promessa de que eles virão a converter-se, mas ainda esse tempo não chegou. Tanto a eles como às outras religiões, principalmente a islâmica mencionada acima temos que ser mansagem viva de amor e misericórdia assim como voi Jesus. Jesus quer verdadeiros adoradores e não amantes de dinheiro e nem fariseus cheios de ódio para com os outros
Postado em 13/10/2009 às 21:19:29
   
Copyright © 2001 - 2010
Editora Ultimato Ltda
Reprodução permitida. Mencione a fonte.
Editora Ultimato - Caixa Postal 43 - 36570-000 - Viçosa-MG
Desenvolvido por - Processado em 0,101 segundos e 5 consulta(s).