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06 de maio de 2026- Visualizações: 132
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Testemunho: filho de prostituta e genro de rei – Ben-Abinadabe
Por Elben César
Sou filho de uma prostituta. Nasci num bordel em Jerusalém. Mamãe nunca soube com certeza quem era o meu pai. Ela me deu um nome de Ben-Abinadabe – filho de Abinadabe – em homenagem a três Abinadabes famosos: aquele Abinadabe em cuja casa ficou a Arca do Concerto por longos anos; o príncipe Abinadabe, filho do rei Saul, que foi morto pelos filisteus; e Abinadabe, irmão mais velho do rei Davi.
Minha origem é humilde e marginalizante. Lamento muito o transtorno que levou minha mãe ao meretrício e a sua permanência nesse tipo de vida por longos anos. Mas mamãe não se embruteceu a ponto de perder por completo a sensibilidade e a capacidade de amar. Ela me amou profundamente. Fico, às vezes, a pensar se vale a pena ser filho de uma mulher rica e comportada que não saiba amar…
Recolhendo tributos
Apesar da origem modesta, sou hoje um dos doze intendentes do rei Salomão, que é também meu sogro. Tenho sob minha administração toda a cordilheira de Dor, o quarto distrito do reino, entre Cesareia e o Monte Carmelo, na faixa litorânea. Minha esposa chama-se Tafate, filha do rei. Cada um de nós, intendentes, temos a responsabilidade de suprir de mantimento a casa do rei durante o mês inteiro. A mim me cabe o quarto mês, que chamamos de Tamuz. Até que foi uma boa escolha, pois é a época própria da colheita e de trabalhos agrícolas. O tempo é bom e seco, livre das chuvas e do frio, que começam no sétimo mês de nosso calendário. Porque muitos comem da mesa do rei – talvez umas cinco mil pessoas entre parentes e o alto escalão do governo – o consumo de mantimento é enorme. Minha quota mensal prevê 5.850 barris de farinha de primeira, 11.700 barris de farinha de cereais, 300 bois trazidos dos pastos de engorda, 600 bois de pasto comum, 3 mil ovelhas e, de tempos em tempos, veados, gazelas, corços e aves cevadas. Forneço também grande quantidade de cevada e palha para os 40 mil cavalos dos carros de Salomão. Este suprimento todo sai do povo – são os impostos devidos à coroa. De vez em quando, ouve-se a reclamação de que o tributo está pesando demais sobre as finanças familiares. Todavia o carisma de Salomão, a sua sabedoria e projeção internacional, o progresso geral da nação, a paz interna e externa, as grandes obras em Jerusalém, especialmente o belíssimo Templo, as cidades-armazéns para depósito de cereais, a construção de navios e instrumentos musicais e a importação de mais de 25.200 quilos de ouro – têm acalmado os queixosos.

Escapando da espada
Talvez o leitor deste testemunho queira saber por que cheguei a ser genro de Salomão e um de seus oficiais. É o que passo a narrar.
Minha mãe morava com outra prostituta. Ambas estavam para dar à luz. Três dias depois de meu nascimento, nasceu também o filho da outra. O nenezinho nascido por último viveu apenas algumas horas, porque, de noite, a mãe descuidada e cansada deitou-se sobre o filho e o sufocou. À meia-noite, ela percebeu o que havia feito e, de mansinho, foi à cama de mamãe e trocou os meninos. Eu fui para o seu lado e a criança morta, para o lado de minha mãe, que dormia.
De madrugada, mamãe se levantou para me dar o peito e levou um susto enorme: ao lado do dela estava um corpinho inerte, frio, enrijecido, horrível! Que teria acontecido? Esperou a luz da aurora e percebeu sem a menor sombra de dúvida – pois já havia gravado a minha fisionomia – que aquele não era o seu filho. No colo da outra, bem vivo, estava eu. Mamãe esbravejou: “Esse menino é meu”. Mas a outra respondeu: “Não, é meu”. Então elas foram parar na presença do rei.
Salomão ouviu a versão de ambas as mulheres. Era evidente que uma das duas estava mentindo. Qual delas? O rei havia pedido a Deus coração compreensivo para julgar o povo e para discernir prudentemente entre o bem e o mal. Veio-lhe a ideia de me dividir em duas partes: uma metade para cada mãe. O teste revelou logo a mentira daquela que não era mãe do garoto e o entranhável amor materno da verdadeira mãe. Sem perceber a sutileza de Salomão, aquela que desde o início demonstrou ser mulher desnaturada concordou com o veredito do rei, alegando com raiva, para a outra: “Nem meu nem teu; seja dividido”. Mamãe preferiu perder o direito do filho a ver-me morto. Daí Salomão ordenou que eu fosse entregue a minha mãe.
Esse julgamento entrou para a história e projetou a figura do rei. Provocou também em mamãe uma reviravolta profunda. Ela largou o bordel e foi trabalhar como arrumadeira no palácio. E eu fui criado ali, entre os filhos do rei. Sou eternamente grato à minha mãe por seu amor e ao meu sogro por sua sabedoria e proteção.
Artigo publicado originalmente na edição 163, de abril de 1985 de Ultimato.
Imagem: A sabedoria de Salomão. James Jacques Joseph Tissot (1836-1902). Wikimedia commons.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?
Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, visite a loja Ultimato aqui.
Saiba mais:
» O Que Você Quer? – Desejo, ambição e fé cristã, Jen Pollock Michel
» A Missão da Mulher, Paul Tournier
» A fé que aprendi com minha mãe, por Medson Barreto
Sou filho de uma prostituta. Nasci num bordel em Jerusalém. Mamãe nunca soube com certeza quem era o meu pai. Ela me deu um nome de Ben-Abinadabe – filho de Abinadabe – em homenagem a três Abinadabes famosos: aquele Abinadabe em cuja casa ficou a Arca do Concerto por longos anos; o príncipe Abinadabe, filho do rei Saul, que foi morto pelos filisteus; e Abinadabe, irmão mais velho do rei Davi. Minha origem é humilde e marginalizante. Lamento muito o transtorno que levou minha mãe ao meretrício e a sua permanência nesse tipo de vida por longos anos. Mas mamãe não se embruteceu a ponto de perder por completo a sensibilidade e a capacidade de amar. Ela me amou profundamente. Fico, às vezes, a pensar se vale a pena ser filho de uma mulher rica e comportada que não saiba amar…
Recolhendo tributos
Apesar da origem modesta, sou hoje um dos doze intendentes do rei Salomão, que é também meu sogro. Tenho sob minha administração toda a cordilheira de Dor, o quarto distrito do reino, entre Cesareia e o Monte Carmelo, na faixa litorânea. Minha esposa chama-se Tafate, filha do rei. Cada um de nós, intendentes, temos a responsabilidade de suprir de mantimento a casa do rei durante o mês inteiro. A mim me cabe o quarto mês, que chamamos de Tamuz. Até que foi uma boa escolha, pois é a época própria da colheita e de trabalhos agrícolas. O tempo é bom e seco, livre das chuvas e do frio, que começam no sétimo mês de nosso calendário. Porque muitos comem da mesa do rei – talvez umas cinco mil pessoas entre parentes e o alto escalão do governo – o consumo de mantimento é enorme. Minha quota mensal prevê 5.850 barris de farinha de primeira, 11.700 barris de farinha de cereais, 300 bois trazidos dos pastos de engorda, 600 bois de pasto comum, 3 mil ovelhas e, de tempos em tempos, veados, gazelas, corços e aves cevadas. Forneço também grande quantidade de cevada e palha para os 40 mil cavalos dos carros de Salomão. Este suprimento todo sai do povo – são os impostos devidos à coroa. De vez em quando, ouve-se a reclamação de que o tributo está pesando demais sobre as finanças familiares. Todavia o carisma de Salomão, a sua sabedoria e projeção internacional, o progresso geral da nação, a paz interna e externa, as grandes obras em Jerusalém, especialmente o belíssimo Templo, as cidades-armazéns para depósito de cereais, a construção de navios e instrumentos musicais e a importação de mais de 25.200 quilos de ouro – têm acalmado os queixosos.

Escapando da espada
Talvez o leitor deste testemunho queira saber por que cheguei a ser genro de Salomão e um de seus oficiais. É o que passo a narrar.
Minha mãe morava com outra prostituta. Ambas estavam para dar à luz. Três dias depois de meu nascimento, nasceu também o filho da outra. O nenezinho nascido por último viveu apenas algumas horas, porque, de noite, a mãe descuidada e cansada deitou-se sobre o filho e o sufocou. À meia-noite, ela percebeu o que havia feito e, de mansinho, foi à cama de mamãe e trocou os meninos. Eu fui para o seu lado e a criança morta, para o lado de minha mãe, que dormia.
De madrugada, mamãe se levantou para me dar o peito e levou um susto enorme: ao lado do dela estava um corpinho inerte, frio, enrijecido, horrível! Que teria acontecido? Esperou a luz da aurora e percebeu sem a menor sombra de dúvida – pois já havia gravado a minha fisionomia – que aquele não era o seu filho. No colo da outra, bem vivo, estava eu. Mamãe esbravejou: “Esse menino é meu”. Mas a outra respondeu: “Não, é meu”. Então elas foram parar na presença do rei.
Salomão ouviu a versão de ambas as mulheres. Era evidente que uma das duas estava mentindo. Qual delas? O rei havia pedido a Deus coração compreensivo para julgar o povo e para discernir prudentemente entre o bem e o mal. Veio-lhe a ideia de me dividir em duas partes: uma metade para cada mãe. O teste revelou logo a mentira daquela que não era mãe do garoto e o entranhável amor materno da verdadeira mãe. Sem perceber a sutileza de Salomão, aquela que desde o início demonstrou ser mulher desnaturada concordou com o veredito do rei, alegando com raiva, para a outra: “Nem meu nem teu; seja dividido”. Mamãe preferiu perder o direito do filho a ver-me morto. Daí Salomão ordenou que eu fosse entregue a minha mãe.
Esse julgamento entrou para a história e projetou a figura do rei. Provocou também em mamãe uma reviravolta profunda. Ela largou o bordel e foi trabalhar como arrumadeira no palácio. E eu fui criado ali, entre os filhos do rei. Sou eternamente grato à minha mãe por seu amor e ao meu sogro por sua sabedoria e proteção.
Artigo publicado originalmente na edição 163, de abril de 1985 de Ultimato.
Imagem: A sabedoria de Salomão. James Jacques Joseph Tissot (1836-1902). Wikimedia commons.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
Clique aqui e saiba mais. Para assinar, visite a loja Ultimato aqui.
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Elben Magalhães Lenz César foi o fundador da Editora Ultimato e redator da revista Ultimato até a sua morte, em outubro de 2016. Fundador do Centro Evangélico de Missões e pastor emérito da Igreja Presbiteriana de Viçosa (IPV), é autor de, entre outros, Por Que (Sempre) Faço o Que Não Quero?, Refeições Diárias com Jesus, Mochila nas Costas e Diário na Mão, Para (Melhor) Enfrentar o Sofrimento, Conversas com Lutero, Refeições Diárias com os Profetas Menores, A Pessoa Mais Importante do Mundo, História da Evangelização do Brasil e Práticas Devocionais. Foi casado por sessenta anos com Djanira Momesso César, com quem teve cinco filhas, dez netos e quatro bisnetos.
- Textos publicados: 120 [ver]
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