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Opinião

Surpreendido por C. S. Lewis

Por Paulo F. Ribeiro

O ano era 1973 e a minha vida era uma roda-viva — como a música de Chico Buarque, de 1968 – quando um pequeno ato produziu um efeito que se estende até hoje: Meu amigo Márcio Freire me deu um recorte de jornal com um artigo sobre religião e ficção cientifica, no qual o autor mencionava a trilogia interplanetária de C. S. Lewis.

Era uma época turbulenta – vivíamos sob a ditadura militar, quando provei na pele a maldade de forma desumana. Estava no terceiro ano de Engenharia Elétrica, na Federal em Recife e terminando o estágio de Oficial R2 do Exército. Mas aquele artigo me levou a ler os primeiros livros de C.S. Lewis, mais conhecido entre os amigos como Jack. Naquele mesmo ano, o Santa Cruz era pentacampeão Pernambucano e um dos grandes clubes brasileiros. Logo depois conheci o amor da minha vida que até hoje enche meu coração de alegria – e é sem dúvida o maior presente que recebi dos céus.

Mas, em Nárnia, “não existem acidentes — pois Aslan é nosso guia”. Dez anos depois, como estudante de doutorado na Inglaterra, visitei a universidade de Oxford — base de Jack por mais de 40 anos e, em seguida, passei por uma cirurgia dolorosa de reconstrução de ligamentos. Durante a recuperação li, para aliviar a aflição, O Problema do Sofrimento:
“Quando a dor chega, um pouco de coragem nos ajuda mais do que muito conhecimento, um pouco de simpatia humana mais do que muita coragem, e um pouco da tintura do amor de Deus mais do que tudo.”

A honestidade, criatividade e consistência com que Lewis escreve produziram um interesse que não diminuiu até hoje, e tem sido uma das grandes alegrias e estímulo intelectual, profissional e espiritual. Clareza, veracidade, humildade, alegria, intelecto militante, razoabilidade, tolerância, equidade são alguns dos traços marcantes dos escritos do autor das Crônicas de Nárnia.

Owen Barfield, amigo muito próximo de Jack, descrevendo o estilo e atratividade da maneira de escrever de Lewis, disse:
"... De alguma forma o que ele pensava sobre tudo estava secretamente presente no que ele dizia sobre qualquer coisa".

Ano após ano, livro após livro e até hoje, depois de ter lido tudo, não canso de ler C. S. Lewis. Em Surpreendido pela Alegria (uma autobiografia que me ajudou a entender sua formação educacional, religiosa, perda de sua mãe extraordinária, quando ele tinha apenas 9 anos, desilusão e ateísmo) lemos:
“Toda a Alegria lembra algo. Nunca é uma posse, sempre é um desejo por algo remoto no tempo ou no espaço, ou ainda "prestes a vir a ser"”.

Cristianismo Puro e Simples foi essencial na minha preparação apologética:
“[O Cristianismo] explica como as exigências desta lei [moral], que você e eu não podemos cumprir, foram cumpridas em nosso nome, como o próprio Deus se torna um homem para salvar o homem da desaprovação de Deus.”

Em Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, a vida cristã vista da perspectiva demoníaca, lemos:
“De fato, o caminho mais seguro para o Inferno é o gradual – o declive suave, suave sob os pés, sem reviravoltas súbitas, sem marcos, sem sinalização”.

Em Os Quatro Amores, essencial para entender melhor a dinâmica dos amores naturais e sua insuficiência sem o amor divino – Ágape:
“Se a afeição [a amizade ou o eros] é feito o soberano absoluto de uma vida humana, as sementes germinarão. O amor, tendo se tornado um deus, se torna um demônio”.

Em Milagres, lemos:
“Somente supernaturalistas realmente vêem a Natureza de forma correta. Você deve se afastar um pouco dela, depois virar-se e olhar para trás. Então, finalmente, a verdadeira paisagem se tornará visível. ... Saia, olhe para trás, e então você verá ... esta catarata surpreendente de ursos, bebês e bananas: este dilúvio imoderado de átomos, orquídeas, laranjas, cânceres, canários, pulgas, gases, tornados e sapos. Como você poderia imaginar que essa era a realidade suprema? Como você poderia ter pensado que era apenas um cenário para o drama moral de homens e mulheres? Ela é ela mesma. Ofereça-lhe nem adoração nem desprezo... Ela será curada em caráter: não domada, nem esterilizada...”

Lendo os Salmos, é um aprofundamento teológico:
“A coisa mais valiosa que os salmos me trazem é a expressão desse mesmo prazer em Deus que fez Davi dançar".

Depois vieram as Crônicas de Nárnia que li juntamente com minha esposa e quatro filhas e, de repente, nosso lar foi batizado de Nárnia até hoje. Em seguida veio O Regresso do Peregrino, fantasia semi-autobiográfica do retorno de Lewis ao Cristianismo, que se tornou leitura regular após as refeições durante o período em que as crianças cresciam e passavam pelo período de adolescência:
“Para esse fim criei os seus sentidos e para isso criei a sua imaginação, para que você possa ver Minha face e viver”.

Uma fase diferente de leitura teve início quando comecei a ensinar no Calvin College, em Grand Rapids, Michigan, e minha atenção se voltou aos livros de cunho mais literário, como: Literatura Inglesa no Século Dezesseis. O capitulo de Introdução é meu favorito – Nova Aprendizagem e Nova Ignorância –, onde parte da literatura do desenvolvimento da igreja Protestante e Reformada é abordada. Falando sobre Calvino, Lewis escreve:
“Com a adesão de Elizabeth o protestantismo inglês entra em uma nova fase. Os refugiados que fugiram para o continente da perseguição de Maria agora começam a retornar para uma Inglaterra amargurada por essa perseguição. Opinião agora é cada vez mais dominada por ideias completas, consistentes e contidas... Muitos se renderam, todos foram influenciados pela figura deslumbrante de Calvino - um homem nascido para ser o ídolo dos intelectuais revolucionários - implacável e eficiente em colocar sua doutrina em prática”.

Em Experimento em Criticismo, relacionado a crítica literária e boa leitura, Lewis nos delicia com passagens de profunda reflexão:
“O homem que está contente em ser apenas ele mesmo e, portanto, menos um eu, está na prisão. Meus próprios olhos não são suficientes para mim, vou ver através dos outros. A realidade, mesmo vista pelos olhos de muitos, não é suficiente. Eu vou ver o que os outros inventaram. Até os olhos de toda a humanidade não são suficientes. Lamento que os brutamontes não escrevam livros. De bom grado eu aprenderia o que as coisas se apresentam para um rato ou uma abelha; mais feliz ainda eu perceberia o mundo olfativo carregado de toda a informação e emoção que carrega um cão. A experiência literária cura a ferida, sem prejudicar o privilégio, a individualidade [...]. Ao ler uma grande literatura, eu me tornei mil homens e ainda sou eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo com uma miríade de olhos, mas ainda sou eu que vejo. Aqui, como na adoração, no amor, na ação moral e no conhecimento, eu transcendo a mim mesmo; e nunca sou mais eu do que quando faço”.

Em A Imagem Descartada, uma introdução à literatura e modelo medieval e renascentista – que até hoje uso em minhas aulas de filosofia do desenvolvimento tecnológico – muita sabedoria:
“Nenhum modelo é um catálogo de realidades últimas, e nenhum é uma mera fantasia. Cada um é uma tentativa séria de entender os fenômenos conhecidos em um dado período, e cada um consegue. Mas também, não menos seguramente, cada um reflete a psicologia predominante de uma época quase tanto quanto reflete o estado do conhecimento daquele período. Dificilmente qualquer bateria de novos fatos poderia ter persuadido um grego de que o universo tinha um atributo tão repugnante para ele quanto o infinito; dificilmente qualquer bateria desse tipo poderia persuadir um moderno de que o universo é hierárquico”.

Prefacio ao Paraiso Perdido, uma introdução ao clássico de Milton, é de um discernimento fenomenal:
“Admirar Satanás é dar o voto para um mundo de miséria e um mundo de mentiras e propaganda, pensamentos desejosos e autobiografia incessante. No entanto, a escolha é possível e dificilmente um dia se passa sem um leve movimento em direção a ela em cada um de nós. É isso que faz de Paraiso Perdido um poema tão sério. A coisa é possível, e a exposição disso é ressentida”.

Ensaios Literários, coleção de ensaios no qual saliento a aula inaugural de Lewis em Cambridge – “De Descriptione Temporum” –, na qual ele termina dizendo:
“Dessa forma, onde eu falho como crítico, eu ainda posso ser útil como um exemplo de antiguidade. Eu até me atreveria a ir mais longe. Falando não só de mim mas também de todos os outros homens ocidentais antigos que você pode conhecer, eu diria, usem seus velhos professores enquanto puderem. Não haverá muito mais dinossauros na universidade”.

Estudo em Palavras, estudo fantástico da evolução de sete palavras inglesas e como criticar os outros:
“Fique de guarda quando criticar. Se honestamente acreditarmos que um artigo é muito ruim e dificilmente podemos ajudar, cuidado em como expressar a nossa extrema antipatia, lembre-se que a função do revisor é sair do caminho e deixar a lógica falar; não descarregar ódio, mas expor os motivos; não para expor as falhas, mas diagnosticá-las e exibi-las.”

O Grande Abismo, uma viagem fantástica ao inferno e ao céu:
“É isso que os mortais não entendem. Dizem de algum sofredor temporal: "Nenhuma felicidade futura pode compensar isso", não sabendo que o Céu, uma vez atingido, irá trabalhar para trás e transformar até mesmo aquela agonia em uma glória”.

Até que tenhamos Rostos, talvez o livro mais complexo e belo que Lewis escreveu – uma releitura de Cupido e Psique –, foi seu último romance, o qual ele considerou o mais maduro, e possivelmente influenciado pela esposa. A primeira parte do livro é escrita da perspectiva da irmã mais velha de Psique, Orual, como uma acusação contra os deuses:
“Encerrei meu primeiro livro com as palavras “sem resposta”. Agora sei, Senhor, por que não respondes. Tu és a resposta. Diante de Tua face as questões morrem. Que outra resposta seria suficiente? Apenas palavras, palavras; para serem levadas a lutar contra outras palavras”.

A Abolição do Homem, uma afirmação da lei moral e valores verdadeiros: um ataque contra as falsas cosmovisões – as “fake News” não era nada novas para Lewis, mesmo em 1943:
“Nós fazemos homens sem corações e esperamos deles virtude e empreendimento. Rimos da honra e ficamos chocados ao encontrar traidores em nosso meio”.

Poemas e Poemas Narrativos, mais de cem poemas escritos em períodos diferentes de sua vida – alguns são de uma profundidade ímpar, como a oração noturna do apologista:
“De todas as minhas derrotas coxas e oh! muito mais
De todas as vitórias que eu parecia marcar;
Da inteligência disparada em Teu nome
Na qual, enquanto os anjos choram, a plateia ri;
De todas as minhas provas da Tua divindade,
Tu, que não dás sinal, me livra.
. . . . . .
Senhor da porta estreita e do olho da agulha,
Tire de mim todo o meu lixo para que eu não morra.”


Imagens da Vida por Spencer, notas de aula sobre curso que ministrava sobre o grande escritor Spencer, sobre imagens do bem e do mal; A Anatomia de Uma Dor, sobre a morte de sua esposa, livro de uma honestidade brutal no processo de lamento; Trilogia Espacial, ficção cientifica: Além do Planeta Silencioso, a história começa seguindo um pedestre fazendo um passeio a pé pelo interior da Inglaterra; Perelandra, uma viagem a Vênus, planeta coberto por um oceano de agua doce; e, Uma Força Medonha, cujo os eventos seguem os de Além do Planeta Silencioso e Perelandra, no entanto, a história se passa na Terra e envolve um instituto científico para controle da população.

A vida que parecia monótona como professor em Oxford era permeada com tribulações caseiras e diárias como sua mãe adotada e um irmão alcoólatra.

Lewis sentiu e expressou profundamente a dor da morte de seu melhor amigo Charles Williams:
“A morte de Williams não fez nada à minha ideia dele, mas ele fez à minha ideia de morte. Tornou o próximo mundo muito mais real e palpável”.

Quanto a morte de sua esposa Joy Davidman Lewis:
“Deus não tem tentado uma experiência com minha fé ou amor para descobrir alguma qualidade. Ele já sabia disso. Eu é que não sabia. Neste julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. Sua única maneira de me fazer perceber tal fato era derrubá-lo”.

Um curso que ministrei juntamente com minha esposa no Calvin College por vários anos com o título de "Desenvolvendo uma Mente Cristã com a Ajuda de C.S. Lewis" nos ajudou integrar e reconhecer de forma mais completa a contribuição deste autor de tanto talento a serviço do Eterno.

No final de sua vida, Lewis preferia escrever alegoria ao invés de teologia – e o resultado é ainda mais profundo e impactante que suas primeiras obras.

As Cartas para Malcolm são algumas das pérolas que vieram no período final de sua vida. Lewis sabia que a fé cristã não era algo para se desenvolver através de argumentos apologéticos:
“Gratidão exclama ... "Que bom que Deus me dê isso". A adoração diz: "Qual deve ser a qualidade desse Ser cujas coruscações [chamas] passageiras e momentâneas são assim?" A mente corre de volta até o sol”.

Quando pensei que tinha lido tudo sobre o Lewis, em 2005, foi publicada uma coleção de cartas, a maioria não inéditas, em 3 volumes – cada um como mais de 1600 páginas. O material dessas cartas pessoais é de extrema valia. Um dia compartilharei algumas de suas pérolas. Mais recentemente, em 2014, um grupo de 40 revisões não reimpressas foi publicada com o título Imagem e Imaginação. Parecia um sonho.

Não espero que outros documentos inéditos apareçam – pois tenho muito para reler. Às vezes imagino que uma dia, no novo céu e nova terra, terei a chance de sentar com Jack e ouvir mais de algumas de suas histórias – mas ele provavelmente me dirá rapidamente: “Quieto rapaz: estou ouvindo o Mestre”.

Muito mais poderia dizer de Lewis como Tutor, Professor, Educador, Poeta; sobre seu grupo de amigos “Inklings”, sua insatisfação e discriminação em Oxford, devido ao seu testemunho explicitamente cristão, etc..; e como Jack me ajudou e tem ajudado a amadurecer, mas este testemunho está ficando um sermão – e Jack não o aprovaria.

Quarenta anos se passaram. O Santa Cruz (na Série C) hoje não me dá mais alegrias, mas o encontro com C. S. Lewis não tem falhado e continua a me surpreender, iluminar e ver a vida como uma dádiva do Pai das Luzes e de forma não dualista.

Dia 29 de Novembro celebramos os 120 anos do seu nascimento. Dia 22 de Novembro, 55 anos de sua morte, e Jack continua sendo um guia fiel para os que buscam orientação para esta vida e para vida eterna.

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George Sayer descrevendo o funeral do Lewis comentou: “Ficamos (amigos mais próximos) ao redor do caixão quando o mesmo estava sendo baixado a sepultura. Era um dia como Jack gostava, frio e ensolarado. Estava tudo muito quieto. Uma vela foi colocada sobre o caixão e sua chama permanecia estável. Para mais que um de nós, a chama daquela vela parecia simbolizar Jack. Ele tinha sido a luz de nossas vidas, e sempre com sua amizade inabalável. Mas ainda, a vela simbolizava sua busca incansável pela luz eterna.”

No final de A Última Batalha Aslan diz suavemente:
"Houve um acidente de trem – Seu pai e mãe e todos vocês estão, como você costumava chamar nas Terras das Sombras, mortos. Acabaram-se as aulas: chegaram as férias! Acabou-se o sonho: rompeu a manhã!
E, à medida que Ele falava, já não lhes parecia mais um leão. E as coisas que começaram a acontecer a partir daquele momento eram tão lindas e grandiosas que não consigo descrevê-las. Para nós, este é o fim de todas as histórias, e podemos dizer, com absoluta certeza, que todos viveram felizes para sempre. Para eles, porém, este foi apenas o começo da verdadeira história. Toda a vida deles neste mundo e todas as suas aventuras em Nárnia haviam sido apenas a capa e a primeira página do livro. Agora, finalmente, estavam começando o Capítulo Um da Grande História que ninguém na terra jamais leu: a história que continua eternamente e na qual cada capítulo é muito melhor do que o anterior."


Quando finalmente ouviremos as palavras do Leão Real, do Leão de Judá: “Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, muito confiarei em tuas mãos para administrar. Entra e participa da alegria do teu senhor!” (Mt 25.21)

• CONHEÇA TAMBÉM:
> Um Ano com C. S. Lewis – Leituras diárias de suas obras clássicas
> Leituras Diárias das Crônicas de Nárnia – Um Ano com Aslam
Doutor em engenharia elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, é pesquisador e professor na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e é torcedor do Santa Cruz.

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