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Por Escrito

Ser velho

Por Thomas Hahn
 
“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” 1Co 2.9
 
Após duas cirurgias de coluna, tendo perdido a capacidade de andar mais do que alguns metros, dei, aos 76 anos, por encerrada minha carreira de corretor de seguros. Recolhi-me à aposentadoria, na companhia de Deus e da minha esposa.
 
Primeiro passo: dar um nome a esta nova etapa da vida. Terceira idade? Já não se usava mais, depois que se descobriu que não tem quarta. Melhor idade? Só para médicos, hospitais, laboratórios e indústrias farmacêuticas. Escolhi uma definição mais realista: 
 
Última idade
 
É, não há como tentar desconhecer, um período de perdas progressivas, no aguardo da morte. Perdas financeiras, afetivas e físicas. Os amigos vão embora sem pedir licença ou se despedirem, a pensão de aposentado mal dá para cobrir a lista de remédios que cresce a cada dia, e o corpo reserva surpresas desagradáveis  e constantes. Perda de relevância, já que não somos reconhecidos por nossa sabedoria por uma sociedade que cultua a juventude, o novo, o progresso.
 
Busquei a Deus para obter uma visão mais clara de como deveria viver este último período de vida. Minha maior certeza, desde minha conversão, era que a morte não era o fim: ao contrário, era o início da minha eternidade na presença de Deus. Mas faltava alguma coisa, e Deus proveu. Passei a sentir uma estranha saudade de algo que nunca tinha conhecido, de tal forma que posso dizer que anseio pelo momento da minha ressurreição, de uma forma positiva e concreta, antegozando o grande banquete das Bodas do Cordeiro.
 
Pedi, também, que Deus não permitisse que minha fé se enfraquecesse no processo de morrer. Confesso meu temor diante dos estragos que um sofrimento prolongado, sem falar do alemão, pode fazer às minhas certezas, minha fraqueza espiritual eventual diante dos estragos do corpo. Deus me respondeu, afirmando que nunca me deixará só, jamais me abandonará.
 
Por fim, pedi que me usasse como servo enquanto estivesse vivo. Já tinha testemunhado a vida de alguns anciãos que se rotularam como “aposentados de Deus”, e isto não me fazia nenhum sentido, já que não encontrara este personagem na Bíblia. Tenho sido abundantemente abençoado, muito mais do que poderia esperar. Gravei podcasts de estudos para pequenos grupos, audiovisuais sobre a Bíblia para crianças, escrevi uma introdução à Bíblia para os membros da minha igreja, preguei, aconselhei... E continuo casado com a mesma pessoa fantástica que me atura há 56 anos!
 
Descobri um novo passatempo: observar os milagres diários realizados pelo nosso grande Deus. Vidas transformadas, pessoas ocupadas doando seu tempo e talentos para a obra, recursos financeiros abundando para nossa igreja socorrer os necessitados durante a pandemia (sendo que nossa igreja é de porte médio, sem nenhum membro que se destaque financeiramente) – enfim, comecei a prestar atenção ao dia a dia de Deus, que nunca deixa de me surpreender! Deus é bom!
 
Sou velho. Mal posso esperar pelo dia em que nos encontraremos na Eternidade. Até lá, um forte abraço.
 
• Thomas Hahn, 84 anos, casado com Christine há 56, membro da Igreja Batista da Granja Viana, em Cotia, SP, e presbítero.

 

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