Opinião
05 de novembro de 2026- Visualizações: 28
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O ordinário a serviço da glória de Deus
A redenção não elimina o trabalho, mas lhe devolve o sentido
Por Cláudio Marra
Em dezembro de 1967, o cardiologista sul-africano Christiaan Barnard (1922-2001) realizou o primeiro transplante de coração da história. O feito rendeu reconhecimento internacional e abriu caminho para salvar milhares de vidas. Realizações assim ganham manchetes e admiração. O mundo celebra o extraordinário e exalta o ser humano, embora a vida inclua tarefas comuns, repetitivas e discretas que a ninguém dão destaque.
Mas ninguém fica livre delas. Todos precisamos colocar o lixo para fora, fazer compras, cumprir horários, repetir rotinas. A pergunta, então, não é se viveremos o ordinário, mas com qual propósito. E sobre isso a Reforma do século 16 contribuiu resgatando o valor e o sentido do trabalho.
Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, conferindo-lhe valor antes mesmo de lhe dar o que fazer (Gn 1.26-27). Somos quem somos antes de fazer o que fazemos. Nossa identidade não é definida por nossa profissão. Mesmo quando o trabalho é simples, quem o realiza é um portador da imagem do Criador, vocacionado por ele para sua função. Lutero ensinou que todas as vocações legítimas são chamados divinos. Nas suas Institutas, João Calvino escreve: “O Senhor ordena que cada um de nós, em todas as ações da vida, considere a sua vocação. […] Ele designou deveres particulares a cada um […]” (Inst. III.10.6). Essa vocação pessoal integra o propósito original de Deus para toda a humanidade. Ao cessar sua obra criadora, o Senhor confiou ao ser humano o cuidado de sua criação (Gn 2.15). Somos chamados a cultivar, preservar e desenvolver o mundo que Deus fez. Criamos cultura, organizamos a vida e servimos ao próximo por meio do nosso trabalho.
A Queda, porém, distorceu essa vocação. Entraram o cansaço, a frustração e motivações corrompidas. Aquilo que deveria ser expressão da glória de Deus passou, muitas vezes, a ser instrumento de autopromoção. O episódio da torre de Babel ilustra bem essa inversão: em vez de espalhar-se pela terra para difundir a glória do Criador, a humanidade decidiu construir um monumento “para tornar célebre o próprio nome” (Gn 11.4). O mesmo espírito aparece na arrogância de Nabucodonosor, ao se vangloriar da grande Babilônia que edificara para a glória de sua majestade (Dn 4.30).
Ao longo da história, esse impulso jamais cessou. A construção da imponente catedral de Santa Maria del Fiore (1296), em Florença, teve entre seus objetivos superar o Panteão de Roma (125 d.C.) e exaltar a grandeza da cidade. No outro extremo, o trabalhador comum cai em distorção semelhante ao relacionar seu trabalho apenas à necessidade de “pagar as contas”, esvaziando-o do sentido original. Perde-se de vista o propósito maior: fomos chamados a encher a terra com a glória de Deus, levando seu caráter e cuidado a tudo o que fazemos, seja extraordinário, seja comum.

A Redenção, porém, traz restauração. Jesus realizou a obra que o Pai lhe confiara e, assim, glorificou a Deus na terra (Jo 17.4). Pela fé nele, redimidos, somos capacitados a cumprir o mesmo propósito. Paulo resume essa vocação: “Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). A Redenção não elimina o trabalho, mas lhe devolve o sentido. Mesmo quando nosso esforço passa despercebido aos olhos humanos, ele pode glorificar a Deus.
Não é o reconhecimento social ou a remuneração que atribuem a uma tarefa seu valor final, mas o propósito para o qual ela é realizada. O que conta não é se a tarefa recebe aplausos, mas se é realizada com integridade para a glória de Deus. O bem que resulta disso alcança o próximo e honra o Senhor.
A vida redimida se manifesta também nos relacionamentos, em misericórdia e graça. Trabalharemos honestamente para ter com que socorrer o necessitado (Ef 4.28). A antiga lei da rebusca, que determinava deixar parte da colheita para os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos (Lv 19; Dt 24), revela o trabalho ligado ao cuidado com os vulneráveis. Hoje, isso se traduz em responsabilidade social, generosidade e gestos simples: um ouvido atento, uma palavra oportuna, um serviço prestado sem alarde.
Tudo em nome de Jesus. Carregamos o nome de Cristo e o representamos em palavras e ações, sejam elas públicas ou silenciosas (Cl 3.17). A fidelidade no trabalho sem plateia é um testemunho discreto, mas poderoso.
Por fim, a Bíblia nos ensina a olhar para o trabalho à luz da Consumação. No juízo final, os justos serão surpreendidos ao saber que, ao servir os famintos, os enfermos, os estrangeiros e os presos, estavam servindo ao próprio Cristo (Mt 25.34-40). Atos corriqueiros e piedosos, realizados pelos redimidos sem pretensão de grandeza, serão valorizados pelo Rei eterno.
Como herdeiros da Reforma, cremos que nossas ocupações diárias são significativas não por renderem aplausos, mas porque, nelas, participamos da missão divina de glorificar a Deus e servir ao próximo. Na função que recebe reconhecimento e naquela que passa sem nota, no cargo de prestígio e no trabalho sem plateia, Deus estende sua glória por meio de cristãos fiéis que o honram naquilo que fazem.
A maior “curtida” que alguém pode receber não virá das redes sociais, mas do Senhor dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco; sobre o muito te colocarei. Entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21). Com essa confiança, vivamos o ordinário no nosso trabalho, para a glória de Deus.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A VOCAÇÃO NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE
Além de serem alvos da mesma graça, idosos e jovens são chamados a frutificar. Juntos. Os jovens podem aprender com os mais velhos sobre fidelidade e resiliência. Podem ser despertados a dizer não a uma cultura pragmática e tecnocrata que empurra a sabedoria para fora. Os velhos podem ser contagiados pelo ânimo e energia dos mais jovens e ser agraciados com vínculos de amizade. Eles podem encontrar uma vocação, ou um propósito, ao servirem como pontes de amadurecimento e como mentores dos mais jovens. Ambos os grupos vivem entre “o já e o ainda não”. E isso molda a sua esperança.
Este é o assunto da capa da edição 422 de Ultimato. Conheça aqui.
Saiba mais:
» A Reforma – O que você precisa saber e por quê, Michael Reeves e John Stott
» A Reforma – Por que é importante lembrar?, edição 366 de Ultimato
» Para Que Serve a Teologia? – Sabedoria, significado e beleza, Alister McGrath
Por Cláudio Marra
Em dezembro de 1967, o cardiologista sul-africano Christiaan Barnard (1922-2001) realizou o primeiro transplante de coração da história. O feito rendeu reconhecimento internacional e abriu caminho para salvar milhares de vidas. Realizações assim ganham manchetes e admiração. O mundo celebra o extraordinário e exalta o ser humano, embora a vida inclua tarefas comuns, repetitivas e discretas que a ninguém dão destaque.Mas ninguém fica livre delas. Todos precisamos colocar o lixo para fora, fazer compras, cumprir horários, repetir rotinas. A pergunta, então, não é se viveremos o ordinário, mas com qual propósito. E sobre isso a Reforma do século 16 contribuiu resgatando o valor e o sentido do trabalho.
Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, conferindo-lhe valor antes mesmo de lhe dar o que fazer (Gn 1.26-27). Somos quem somos antes de fazer o que fazemos. Nossa identidade não é definida por nossa profissão. Mesmo quando o trabalho é simples, quem o realiza é um portador da imagem do Criador, vocacionado por ele para sua função. Lutero ensinou que todas as vocações legítimas são chamados divinos. Nas suas Institutas, João Calvino escreve: “O Senhor ordena que cada um de nós, em todas as ações da vida, considere a sua vocação. […] Ele designou deveres particulares a cada um […]” (Inst. III.10.6). Essa vocação pessoal integra o propósito original de Deus para toda a humanidade. Ao cessar sua obra criadora, o Senhor confiou ao ser humano o cuidado de sua criação (Gn 2.15). Somos chamados a cultivar, preservar e desenvolver o mundo que Deus fez. Criamos cultura, organizamos a vida e servimos ao próximo por meio do nosso trabalho.
A Queda, porém, distorceu essa vocação. Entraram o cansaço, a frustração e motivações corrompidas. Aquilo que deveria ser expressão da glória de Deus passou, muitas vezes, a ser instrumento de autopromoção. O episódio da torre de Babel ilustra bem essa inversão: em vez de espalhar-se pela terra para difundir a glória do Criador, a humanidade decidiu construir um monumento “para tornar célebre o próprio nome” (Gn 11.4). O mesmo espírito aparece na arrogância de Nabucodonosor, ao se vangloriar da grande Babilônia que edificara para a glória de sua majestade (Dn 4.30).
Ao longo da história, esse impulso jamais cessou. A construção da imponente catedral de Santa Maria del Fiore (1296), em Florença, teve entre seus objetivos superar o Panteão de Roma (125 d.C.) e exaltar a grandeza da cidade. No outro extremo, o trabalhador comum cai em distorção semelhante ao relacionar seu trabalho apenas à necessidade de “pagar as contas”, esvaziando-o do sentido original. Perde-se de vista o propósito maior: fomos chamados a encher a terra com a glória de Deus, levando seu caráter e cuidado a tudo o que fazemos, seja extraordinário, seja comum.

A Redenção, porém, traz restauração. Jesus realizou a obra que o Pai lhe confiara e, assim, glorificou a Deus na terra (Jo 17.4). Pela fé nele, redimidos, somos capacitados a cumprir o mesmo propósito. Paulo resume essa vocação: “Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). A Redenção não elimina o trabalho, mas lhe devolve o sentido. Mesmo quando nosso esforço passa despercebido aos olhos humanos, ele pode glorificar a Deus.
Não é o reconhecimento social ou a remuneração que atribuem a uma tarefa seu valor final, mas o propósito para o qual ela é realizada. O que conta não é se a tarefa recebe aplausos, mas se é realizada com integridade para a glória de Deus. O bem que resulta disso alcança o próximo e honra o Senhor.
A vida redimida se manifesta também nos relacionamentos, em misericórdia e graça. Trabalharemos honestamente para ter com que socorrer o necessitado (Ef 4.28). A antiga lei da rebusca, que determinava deixar parte da colheita para os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos (Lv 19; Dt 24), revela o trabalho ligado ao cuidado com os vulneráveis. Hoje, isso se traduz em responsabilidade social, generosidade e gestos simples: um ouvido atento, uma palavra oportuna, um serviço prestado sem alarde.
Tudo em nome de Jesus. Carregamos o nome de Cristo e o representamos em palavras e ações, sejam elas públicas ou silenciosas (Cl 3.17). A fidelidade no trabalho sem plateia é um testemunho discreto, mas poderoso.
Por fim, a Bíblia nos ensina a olhar para o trabalho à luz da Consumação. No juízo final, os justos serão surpreendidos ao saber que, ao servir os famintos, os enfermos, os estrangeiros e os presos, estavam servindo ao próprio Cristo (Mt 25.34-40). Atos corriqueiros e piedosos, realizados pelos redimidos sem pretensão de grandeza, serão valorizados pelo Rei eterno.
Como herdeiros da Reforma, cremos que nossas ocupações diárias são significativas não por renderem aplausos, mas porque, nelas, participamos da missão divina de glorificar a Deus e servir ao próximo. Na função que recebe reconhecimento e naquela que passa sem nota, no cargo de prestígio e no trabalho sem plateia, Deus estende sua glória por meio de cristãos fiéis que o honram naquilo que fazem.
A maior “curtida” que alguém pode receber não virá das redes sociais, mas do Senhor dizendo: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco; sobre o muito te colocarei. Entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25.21). Com essa confiança, vivamos o ordinário no nosso trabalho, para a glória de Deus.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A VOCAÇÃO NÃO TEM PRAZO DE VALIDADEAlém de serem alvos da mesma graça, idosos e jovens são chamados a frutificar. Juntos. Os jovens podem aprender com os mais velhos sobre fidelidade e resiliência. Podem ser despertados a dizer não a uma cultura pragmática e tecnocrata que empurra a sabedoria para fora. Os velhos podem ser contagiados pelo ânimo e energia dos mais jovens e ser agraciados com vínculos de amizade. Eles podem encontrar uma vocação, ou um propósito, ao servirem como pontes de amadurecimento e como mentores dos mais jovens. Ambos os grupos vivem entre “o já e o ainda não”. E isso molda a sua esperança.
Este é o assunto da capa da edição 422 de Ultimato. Conheça aqui.
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Casado com Sandra, é jornalista, pastor presbiteriano e editor da Cultura Cristã.
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