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Opinião

João Calvino e a ação missionária

Na primeira parte deste artigo falamos a respeito da contribuição de João Calvino para a reflexão teológica sobre a missão de Deus e a missão da igreja. Concluímos que ele poderia ser considerado o “pai da teologia de missão protestante”. Diante desta contribuição, não nos surpreendemos que além do seu empenho acadêmico e literário, João Calvino também teve uma ação missionária de grande impacto. Vejamos mais.
 
1. O missionário. Aos vinte e sete anos de idade, o próprio Calvino saiu do seu país nativo, a França, e foi como missionário para Genebra, na Suíça. 
 
2. A escola missionária. A partir de 1542, protestantes de toda a Europa refugiaram-se em Genebra e nos treze anos seguintes a população da cidade duplicou. Aos poucos, Genebra se tornou não só um centro de refúgio como também um centro de preparo missionário. João Knox, mais tarde, disse que esta era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. Lá, Calvino ensinava a teologia reformada, a evangelização e a plantação de igrejas e enviava os alunos para toda a Europa.
 
“Por meio da ida e vinda destes refugiados, e por meio dos escritos evangélicos da imprensa de Genebra, e tudo em latim, francês, inglês e holandês, a fé  reformada foi exportada vastamente, mesmo para a Polônia e a Hungria. Por correspondência, Calvino encorajou, guiou e dialogou com essa diáspora de cristãos evangélicos que testemunhavam sob perseguição”.1

3. O envio missionário. Em Genebra, Calvino estabeleceu uma escola para abrigar refugiados protestantes de toda a Europa. Por exemplo, em 1561, enviou mais que 140 como missionários para a França, o norte da Itália, a Holanda, a Escócia, a Inglaterra e até a Polônia. Além destes, Calvino enviou os primeiros dois missionários protestantes na história para um outro continente. Ele os enviou em 1566 para o Brasil, mais que 233 anos antes do envio missionário de William Carey, tido como “pai das missões modernas”. 
 
Qual foi o impacto deste esforço? Consideremos a França, país onde Calvino começou a enviar missionários em 1553. Dois anos depois, em 1555, cinco igrejas reformadas foram estabelecidas. Mais quatro anos depois, já eram quase mil e em 1562 havia 2150 igrejas com uma membresia total de três milhões, 17% de toda a população da França!2 Tudo isto pelo esforço de pouco mais de 140 missionários, enviados por Calvino de uma cidade de 20 mil habitantes em período tão curto. Foi um projeto monumental!
 
Mas o impacto dos missionários de Genebra não se limitava à França. O movimento se espalhou muito mais do que isto, passando a ter grande influência também na Holanda, na Inglaterra, na Escócia, na Alemanha, na Polônia e na Hungria, e até no Brasil.


 
4. Os métodos missionários. Já mencionamos a importância da pregação da Palavra de Deus para a prática missionária. Este era o método missionário de Calvino por excelência. Não deve ser abusado de tal forma a manipular as pessoas. Pois a igreja deve apresentar argumentos persuasivos, mas com mansidão, a fim de atrair os curiosos para que estes venham livremente (comentários de Miqueias 4.3 e Filemom 10). Calvino também insistia que os cristãos jamais devem usar a força física ou o poder militar para impôr a fé aos incrédulos (comentário de Miqueias 4.3). 
 
Em segundo lugar, e seguindo o exemplo de Cristo em Marcos 9.38, ele enfatizava que a igreja deveria orar pedindo que Deus envie trabalhadores para a colheita.
 
Terceiro, a igreja deveria também “recrutar a sua força e dirigi-los eficazmente, para que o seu labor não fosse em vão” (comentário sobre Isaías 49.17).
 
Em quarto lugar, os crentes devem liderar pelo exemplo e viver de modo coerente com a sua fé (comentário de Isaías 2.3).
 
E finalmente, segundo Calvino, os cristãos, sendo ricamente abençoados, devem entusiasmadamente compartilhar as suas riquezas com os outros (comentário de 2 Coríntios 1.4). Isto inclui a oração pelos perdidos (comentário de 1 Timóteo 2.4). 
 
Conclusão
Numa época em que “missão” era a linguagem para descrever o relacionamento da trindade e a doutrina católica da sucessão apostólica impedia a reforma da igreja, não nos surpreendemos com o fato de que João Calvino, de modo semelhante aos outros reformadores, não falasse de “missões” e pouco aproveitasse da “Grande Comissão” para encorajar o avanço da igreja pela Europa e além. Entretanto, é erro grosseiro concluir que ele não possuía um senso agudo da necessidade “missionária”. E não só possuía como também o advogava intensamente, primeiro, pelo exemplo da sua própria pessoa ao assumir o desafio de liderar o movimento protestante de Genebra em direção a outro país; segundo, por meio do preparo e envio missionário de outros por toda a Europa e até ao Novo Mundo; e, acima de tudo, por meio dos seus escritos onde expunha a chegada do reino de Cristo e a necessidade consequente da pregação da Palavra de Deus pela igreja, como principal instrumento de Deus para a salvação dos eleitos. 
 
Assim, não é exagero afirmar, que a medida que a teologia bíblica que enfatiza o “missio Dei” por meio do “regnum et missio Christi” forma o ponto de partida para a melhor missiologia contemporânea, João Calvino pode facilmente receber a distinção de ser o “pai da missiologia contemporânea protestante”.
 
Notas:
1. LAMAN, Gordon D. “The Origin of Protestant Missions,” 59.
2. LAMAN, Gordon D. “The Origin of Protestant Missions,” Reformed Review 43 (1989): 59; KINGDON, Robert M. Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France (Genève: Libraire E. Droz, 1956), 79.
 
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teólogo, missionário da Igreja Presbiteriana Independente, capelão d’A Rocha Brasil e surfista nas horas vagas. Pela Editora Ultimato, é autor de O Propósito de Deus e a Nossa VocaçãoA Visão Missionária na Bíblia e Trabalho, Descanso e Dinheiro. É blogueiro da Ultimato.
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