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Opinião

Alvin Plantinga e a evolução

Por Bráulia Ribeiro

Para muitos cristãos a teoria da evolução é como um abismo enorme que apareceu no meio da estrada do conhecimento humano. Muitos veem a teoria em si como um obstáculo à fé em Deus e se sentem compelidos a combatê-la, tentando provar com os mesmos meios teorias como o design inteligente, para tentar criar uma ponte para atravessar o abismo. A evolução foi, sem dúvida, uma boa ferramenta para disseminar uma cosmovisão que já rondava as trevas do anticristianismo, o materialismo. Para os materialistas, o homem não tem alma nem espírito e nada existe além da matéria. Toda a vida humana não passa de reações orgânicas e tudo se explica pela ciência. O ataque ao cristianismo é claro. Devemos, portanto, respaldar iniciativas para impedir esse ensino nas escolas? 

O filósofo americano Alvin Plantinga pensou diferente. Em vez de declarar guerra contra a teoria da evolução em si, ganhou em 2017 o prêmio da Templeton Foundation por argumentar que a cosmovisão naturalista/materialista contradiz a própria teoria. Plantinga desenvolve a ideia em alguns passos. Para o naturalista o comportamento humano é apenas produto de reações químicas, ações hormonais e condicionamentos genéticos. O comportamento é adaptado gradualmente às condições do ambiente para permitir a sobrevivência e a multiplicação das espécies, que é a famosa “seleção natural”. Acontece que os conceitos e crenças sustentados pelos indivíduos são também produto dessas reações químicas e orgânicas. A seleção natural não se ocupa do desenvolvimento de crenças e subjetividades racionais, mas do comportamento. As crenças não precisam ser verdadeiras, é o comportamento que assegura a sobrevivência. Nesse caso, nossas percepções sobre o universo são um mero produto de reações naturais e não devem ser consideradas. 
 
O argumento de Plantinga que segue o formalismo da filosofia analítica é mais sofisticado do que o que estou demonstrando. Usa vários passos e algoritmos para chegar à conclusão final. Entretanto, basicamente é isto: para se levar a sério, crer em suas habilidades cognitivas e em suas descobertas o cientista tem de obrigatoriamente sustentar que existe alguma coisa além do céu e da terra. Num mundo sem alguma espécie de divindade e de realidade metafísica, não se pode sustentar a validade da racionalidade abstrata. Não se faz ciência sem pressuposições básicas. Se a cognição não é confiável, essas crenças não são confiáveis; logo, a ciência não é confiável. Se não existe Deus, toda a ciência não passa de ilusão temporária; todo o conjunto do conhecimento humano não passa de um produto das reações químicas e orgânicas e do comportamento aprendido. 

O feito de Plantinga deve nos interessar porque ele usa a própria lógica, geralmente posta numa categoria separada da fé, para demonstrar a necessidade da fé. Mas o que ele não faz e que nós também não deveríamos fazer é se engajar numa guerra contra a ciência. A fé que se ergue contra o conhecimento não é fé de verdade. Fé é produto de um coração humilde. Guerra contra o conhecimento é jactância, produto da vaidade. A Bíblia aponta na direção da humildade. Não vemos em lugar algum Deus preocupado em provar a si mesmo. A fé permanece porque ela é o mais firme pilar da existência humana e sustenta até mesmo a ciência que a ataca. 

 
Trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?
Para saber mais, acesse: braulia.com.br
  • Textos publicados: 17 [ver]

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