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Opinião

Alma Jane C. Wright e a luta para mudar o protestantismo brasileiro

Derval Dasilio

Gestos heróicos se apagam neste tempo de extrema ênfase na religião de mercado. Verdadeiros missionários de Deus estão desaparecendo. Estiveram no Brasil num século de grandes tragédias. Estes, porém, nos remeteram a algo profundo e imprescindível: o evangelho de Jesus Cristo traz esperança para o oprimido e o excluído. Um mundo novo é possível. O falecimento da missionária Alma Wright (12/08/1923 – 17/04/2010), agente da esperança cristã, causa grande consternação e tristeza. Somos gratos pela vida e pelo testemunho dela no Brasil, entre igrejas irmãs e parceiras. Esta missionária presbiteriana teve cinco filhos, com Jaime Wright, o mais destacado brasileiro protestante na luta contra o regime militar desde 1964.

Esses missionários amavam o presbiterianismo e o ecumenismo proféticos. Encontraram abrigo na IPU, atuando diretamente no presbiterianismo brasileiro. Juntos, representam os vultos do protestantismo libertário no Brasil ainda na segunda metade do século 20. Começam com origem tradicional, na grande tradição da “Central Brazil Mission” (Missão Brasil Central) da igreja norte-americana no Brasil, em educação e evangelização, desde a larga trajetória deste esforço educativo nos passos de John Mackay e Richard Shaull.

Graças a eles, nunca se esquecerá que a Igreja Presbiteriana no Brasil compromete-se ecumenicamente no parto doloroso, que envolviam o protestantismo conservador, fundamentalista, e o autoritarismo militar. Foram capazes de questionar as velhas e carcomidas estruturas do protestantismo brasileiro e a própria sociedade religiosa. Mudava o protestantismo, mudava o catolicismo. Mudava o presbiterianismo na direção do ecumenismo comprometido, hoje expresso no CONIC. A palavra “ecumenismo”, ainda hoje, é pronunciada com cuidado ou escárnio no meio tradicional.

Escrevendo sobre o drama do protestantismo no Brasil, temos o dever de relatar fatos interessantes referentes à luta de Jaime Wright e Alma pela informação durante os “anos de chumbo” sob a ditadura militar. Alma, além de prover os cuidados domésticos da família, facilitando a atuação direta do marido, na “resistência teológica” contra o autoritarismo religioso, fundamentalista, e a ditadura militar, sustentava com sua força o gigante, que foi seu marido. Historiadores tímidos do presbiterianismo conservador referem-se a ele apenas como “ativista dos direitos humanos” (assunto recusado, até hoje, neste meio). Esqueceram-se que lideres cristãos da Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, Austrália, Alemanha, Suíça, França e outros países estavam envolvidos, nos anos de chumbo, na solidariedade com o Brasil e a América Latina oprimida. E Jaime Wright era seu “homem”, “missionário de Deus”, abaixo da linha do Equador. Assim, nos anos 70 e 80 muitas visitas foram organizadas nos países latinos e caribenhos, onde havia repressão ou autoritarismo.

Quando Jaime Wright coordenou o projeto Clamor, por justiça a perseguidos e refugiados políticos, e torturados, sendo este um grupo de resistência ao autoritarismo e à ditadura militar, Alma garantia a retaguarda. Filhos pequenos para cuidar, e da casa para o repouso, se bem que ocasional. Jaime viajava a Genebra, trazia dirigentes do CMI à realidade das ditaduras militares e civis desde a Nicarágua ao Brasil. Corria riscos incríveis em aeroportos internacionais, sujeito a detenções. Com ele vinham suprimentos financeiros para sustentar organizações e pessoas envolvidas com a resistência política, refugiados, torturados pelos regimes de exceção. Inclusive o Brasil.

Jaime abdicou da dupla cidadania que possuía, como dirigente da Missão Central do Brasil da PC-USA. Alma, cidadã norte-americana, permaneceu com seus direitos intactos, o que fez muito bem, para a proteção dos filhos, à mercê do autoritarismo impiedoso. Jaime, porém, arriscava-se e serviu à Igreja Presbiteriana Unida na qualidade de secretário geral. Moraram em Vitória, próximo da sede da IPU, depois que deixaram São Paulo.

Quem espera que o presbiterianismo renuncie à sua história, aos seus vultos fundantes, à sua teologia libertária, da qual emerge ecumênica, protestante original, encontrará nas biografias de Alma e Jaime Wright o espírito profundo de resistência, enraizado na fé cristã, em toda parte onde a memória libertária se manifesta, em quaisquer das igrejas protestantes brasileiras. Essa herança preciosa o protestantismo brasileiro cultiva. Com afinco e respeito à história do presbiterianismo no Brasil, Alma Wright, embora estrangeira, tem seu nome escrito no céu do país a quem serviu até morrer. Descansa em paz, cumprida a missão.


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É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).
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