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Opinião

A fé "cartólica"

Nestes últimos anos tenho sido impactado de modo intenso pela obra musical do grande Cartola. Há em suas canções sinais claros da graça de Deus, reflexos de amor, esperança e fé. A fé “cartólica” (o trocadilho foi inevitável) não é mero adereço da canção nem imposição de mercado. Aliás, esse poeta apenas tardiamente (aos 65 anos) pode registrar sua arte em forma de disco. A espiritualidade expressa em suas canções é profunda e consistente.
 
Entre os mais diversos temas presentes na obra de Cartola, o que mais se sobressai é o da esperança. Ela está nos títulos, nas letras e até mesmo nos ritmos e arranjos das canções. Títulos como “O sol nascerá”, “Alvorada”, “Corra e olhe o céu”, “A canção que chegou”, “Grande Deus”, “A cor da esperança” e “Alegria”, por exemplo, assinalam claramente um desejo de esperança, apesar das dores do mundo, apesar das frustrações da vida e dos desencontros todos.
 
Para Cartola, a esperança redime a vida de seu vazio, celebra o encontro e se concretiza como seu bem mais precioso: “Espero ainda que a festa do adeus seja a festa da vinda”. Por isso ele canta tão intensamente: “A tristeza vai transformar-se em alegria e o sol vai brilhar no céu de um novo dia”. É a esperança de que a tempestade ou a escuridão da noite terá um fim, de que o sol finalmente nascerá. Essa esperança nasce no morro junto com a alvorada e redime a humanidade de séculos de pobreza e abandono.
 
Em “A canção que chegou”, Cartola expressa de modo claro os traços da esperança: “Na manhã que nascia encontrei / O que na noite tardia desejei”. Há aqui inconfundíveis conexões com a canção do salmista quando afirma que “a tristeza pode durar uma noite inteira, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5). Mais adiante, o poeta testemunha que as lembranças do passado, os falsos amigos e as batalhas perdidas “quase [lhe] roubam a esperança e a fé”, mas é a presença redentora de Deus que transforma sua tristeza em alegria.
 
Não há segredo; a esperança da canção se apresenta como explicitamente cristã quando o poeta afirma que canta “a felicidade que Jesus mandou” e que se volta “contente cantando pra Deus que tanto [lhe] ajudou”. Em tempos sombrios de crises mundiais, conflitos sociais e tragédias pessoais, Cartola supera a tristeza pela força da esperança e transforma lamento em ação de graças.
 
Nota: artigo publicado na nova seção Literatura e Cultura, da revista Ultimato 340 (janeiro-fevereiro/2013). Assine a Ultimato por R$ 45,00. Só neste mês.
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Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).
 


 
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