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Palavra do leitor

Sentido em meio à despedida (trecho do livro "Cartas do Atlântico")

Após alguns instantes de silêncio, a jovem Strauss olhou fixamente os olhos grandes e atentos de seu amado e contou.

– Certo dia, – começou Ruth em voz compassada fixando seu olhar na linha do horizonte que dividia mar e céu – pouco antes da sua chegada para nos salvar, eu havia pensado em tirar minha própria vida. Achava que não suportaria mais ver meus pais e irmã sendo tratados como animais naquele matadouro infernal. Foi quando, ao caminhar por um beco entre os galpões, próximo ao meio-dia, passei por um homem que apresentava o número "119 104" na sua gandola.

– Ruth fez uma parada e respirou profundamente.

– Aquele número, – prosseguiu – nunca mais sairia da minha cabeça.

Ao perceber meu estado de total tristeza e desesperança, o homem, que aparentava não ter mais de quarenta anos e parecia não comer há dias, fraco e com uma voz meio distorcida, roupas sujas e um rosto quase desfigurado, se aproximou de mim e me falou as únicas palavras que, penso eu, poderiam me trazer algum alento e esperança de que a vida ainda valia a pena. Depois de contar que havia perdido toda sua família, incluindo a esposa grávida, vítimas do tratamento desumano dos nazistas nos três campos de concentração pelos quais passaram, olhando firmemente nos meus olhos, declarou com poder em suas palavras:

"Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se."

– Caio, – continuou já com lágrimas caindo sobre seu delicado rosto, aquelas palavras foram como uma dinamite para meu coração. Uma onda de otimismo invadiu meu ser e a imagem de nossa libertação daquele lugar, embora algo quase impossível, passou a fazer parte do meu imaginário durante todos os demais dias. Aquele homem havia, de uma certa forma, me salvado. Seu nome, descobriria alguns anos depois, era Viktor Frankl. Antes de se despedir daquele prisioneiro solitário, dei-lhe um forte abraço quando pude sentir como que uma energia saindo de seu corpo despejando graça sobre mim. Ele, com um sorriso meigo, dirigiu-me ainda estas últimas palavras:

"Nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós".

Tony Oliveira
Autor de "Pingos da Graça" e "Cartas do Atlântico".
Contato: faos.ead@gmail.com
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