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Palavra do leitor

O inferno te inquieta?

"Até que ponto, escutar a palavra virou um passatempo dominical, em nossas vidas?"

Texto de Marcos 1.15

O tema inferno, em nossos tempos, por muitos púlpitos, se apresenta mais como uma figura de retórica, usado como um clichê voltado para atender os interesses de uma fé modernizada, por um discurso de triunfalismo a qual esconde um culto ao egocentrismo, com uma leitura do Deus da tradição hebraica e cristã, sem ir além das conceituações de bem e de mal, um Deus para as formalidades e conveniências, como um pano de fundo ou nos bastidores ou escondido da realidade humana. Não pode ser obliterado ou deixado desaparecer, o contraponto das abordagens sobre esse lugar destinado para os infiéis, com anjos caídos, com a tortura indelével ou perpétua de almas condenadas por sua rebelião e incredulidade se espraiou através de sermões, durante muito tempo, mas, agora, tudo isso parece não ser mais matéria de cunho a ser considerado.

Vamos adiante: quem sabe os eventos das experiências de aberrações cometidas pelos homens, com campos de concentração, com as chagas da escravização de vidas humanas, com a bestialidade de embates bélicos, tão somente, como pontuações iniciais, retratam o quanto as tragédias e as atrocidades são mosaicos de uma versão do inferno que torna as descrições religiosas burlescas ou ridículas. Qual a consequência disso tudo? O Deus da tradição judaico-cristã parece ter perdido toda a credibilidade de sua capacidade, em definitivo, para transformar essa realidade. Dou uma pinçada de o quanto os meandros narrativos sobre o inferno, sobre certo dualismo, como se o Criador de tudo e de todos dependesse dos demônios para ser o fundamento último, com a presença de demônios em todos os cantos e recantos, com as pessoas subjugadas pelo medo de dar um passo em prol da vida e da liberdade são expostos, em nossos dias. Sinceramente, o quanto seria mais benéfico, mais salutar, mais expressivo e decente, caso fossemos levados a viver o amor ao Deus Ser Humano Jesus Cristo, não por causa do medo de haver um inferno para me importar com essa Maravilhosa Graça, em suma, grosso modo, presumidamente, mesmo se não houvesse um inferno e muito menos um céu.

Eis o mandamento imperativo das palavras proferidas por Jesus de Nazaré: "Convertei-vos – transformai-vos o vosso pensamento". Ora, será que refuto o inferno? Sem delongas, ao mencionar sobre o inferno, categoricamente, destaco ser uma espécie de mistério abismal e não o considerar, indiscutivelmente, equivaler-se-ia a adotar a versão alternativa de um progresso irrefreável e intenso para implantação de um novo oikos, por aqui mesmo. Nessa linha de exposição sobre se o inferno me inquieta, adentro na questão de que a liberdade se compõe na mais plena e efetiva dádiva conferida a todo o ser humano e, por tal modo, o ato da salvação, a remoção de todo o fardo da culpa, através do perdão, e o estender da misericórdia para nos reconciliar não ocorre por coação ou compensação para que venhamos aceitar. Quantos deliberam por uma direção de devassidão, de perversidade, de destruição, de alienação duradoura e irreversível. É bem verdade, ainda assim, não me foi outorgado para afirmar que este ou aquele já foram selados com esse desfecho abismal trágico de vazio e sem significado. Então, o inferno me inquieta? Ouso afirmar que as aparições de experiências particulares ou de revelações distintas e vivenciadas por uns, como se dotados de uma ordem para descrever os mistérios escatológicos não me inquietam do que a veemente honestidade para haver um despir, um desvencilhar-se, um desfazer-se de todas essas roupagens de projeções fantasiosas e não capazes de acarretar uma conversão para um novo ser e com a abertura voltado a sermos entrançados com a esperança, com uma fé alforriada de grilhões de culpas e de condenações, de nos levar a amar o Criador de tudo e de todos, independentemente de haver um inferno ou um céu, mas por, simplesmente, amá-lo.
São Paulo - SP
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