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Palavra do leitor

O desabafo da jumenta

Sinceramente! Se eu ganhasse um punhado de cevada para cada vez que um humano acha que é o bicho mais esperto da terra, eu estaria farta demais para carregar qualquer profeta.
Eu conheço o Balaão há anos. Conheço o jeito que ele senta na sela, o peso da sua indecisão e aquele cheiro de quem está tentando negociar com o divino enquanto olha para o ouro dos homens.

Naquela manhã, o clima estava pesado. Ele selou minhas costas com uma pressa estranha, os olhos brilhando com as promessas de honra e ouro do rei Balaque. Mal sabia ele que o caminho de um homem ganancioso é cheio de curvas cegas.

Íamos pelo caminho quando, de repente, o ar congelou. Eu vi bem na nossa frente, no meio da estrada, um Anjo do Senhor. E não era um anjinho fofinho não, viu? Era um guerreiro com uma espada vingadora desembainhada que reluzia mais que o sol do deserto. Tremi as pernas!

Minha reação foi instintiva: desviei para o campo. Eu não sou doida! Mas e o Balaão é! Cego por moedas, não viu nada. Me deu a primeira surra. (Aí! Aí! Aí!...)

Depois, o caminho apertou entre dois muros de vinhas. Lá estava o Anjão guerreiro de novo. Tentei passar de lado, apertei o pé do Balaão contra o muro — para ver se ele acordava — e levei a segunda surra. (Ui! Ui! Ui!...)

Por fim, num lugar tão estreito que não dava nem para abanar o rabo, o Anjo espadachim bloqueou tudo. Minhas pernas fraquejaram e eu simplesmente me deitei. Empaquei, mas não era teimosia, era medo mesmo!

Aí o Balão perdeu a estribeiras. Começou a me espancar com o bordão. (mais uns "ais!" e "uis!")

Foi quando o Senhor Criador decidiu que chega de silêncio. Ele abriu a minha boca, e eu senti as palavras vibrando na minha garganta:
— Que te fiz eu, que me espancaste já três vezes?
Balaão estava tão fora de si que nem achou estranho uma jumenta falar e argumentar com ele.
— Porque zombaste de mim; se eu tivesse uma espada na mão, agora te mataria.
Eu olhei bem naqueles olhos cheios de fúria e fiz um desabafo jumental:
— Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste até hoje? Acaso, tem sido o meu costume fazer algo assim contigo?
— Não.— respondeu com secura.
Ele teve que admitir a injustiça. Foi aí que o véu caiu. O Senhor Criador abriu os olhos dele, e ele finalmente viu o que eu estava vendo o tempo todo. O coitado do Balaão caiu de cara no chão, tremendo mais que vara verde. O Anjo foi bem claro e começou a repreensão pelas surras que tomei (gostei disso!):
— Porque já três vezes espancaste a jumenta? Eis que eu saí como teu adversário, porque teu caminho é perverso diante de mim. A jumenta me viu três vezes e se desviou de mim. Na verdade, se não fosse por ela eu já te teria matado e ela ficaria com vida.
— Pequei, porque nao soube que estavas neste caminho para se opores a mim!
No fim das contas, ele seguiu viagem para encontrar Balaque, mas o estrago já estava feito. Ele aprendeu que, às vezes, um bicho de carga tem mais visão espiritual que o próprio profeta.

Depois que tudo passou e ele voltou a montar em silêncio, e eu quase tive vontade de virar o pescoço e dizer:
— Balaão, rapaz, quando um burro fala o outro murcha a orelha! Prestenssão, homem! Se eu não fosse um animal, eu diria que tu é que és o jumento dessa história!

Era tanta indignação jumental que no caminho ainda me ocorreu uma dúvida engraçada: Balaão me entendeu porque falei a língua dos homens ou porque falei a língua dos jumentos?

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(referência: Livro de Números, cap. 22)
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