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Palavra do leitor

O chamado bíblico e o antissistema

O chamado bíblico, em sua essência, não nasce da necessidade de acomodação às estruturas estabelecidas, tampouco da busca por reconhecimento, influência ou ascensão dentro de um sistema religioso. A Escritura apresenta, repetidamente, homens chamados por Deus que, precisamente por sua fidelidade, entram em tensão com as expectativas, interesses e estruturas de seu tempo. João Batista constitui um dos exemplos mais contundentes dessa realidade. Sua vocação não consistia em conquistar espaço dentro da religião estabelecida, mas em preparar o caminho para aquele que haveria de vir: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt 3.3). Sua existência, portanto, não estava orientada pela manutenção de um status quo, mas pela proclamação de uma novidade que exigia arrependimento.

João aparece no deserto, fora dos centros de poder religioso, vestido de maneira simples e alimentando-se de forma igualmente austera (Mt 3.1-4). Sua autoridade não procedia de uma posição institucional, de uma estratégia política ou da aprovação das elites religiosas. Ao contrário, sua pregação confrontava diretamente tanto o pecado dos indivíduos quanto a falsa segurança produzida pela religiosidade. Aos fariseus e saduceus, João não oferece uma plataforma de negociação, mas uma palavra de juízo: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?" (Mt 3.7). A questão central não era preservar determinada estrutura religiosa, mas submeter-se à realidade do Reino que se aproximava.

Nesse sentido, existe uma diferença fundamental entre servir ao chamado de Deus e utilizar o chamado para disputar espaço dentro de um sistema. Quando a vocação é substituída pela busca de influência, a missão gradualmente deixa de ser determinada pela fidelidade à Palavra e passa a ser condicionada pelas relações, alianças e conveniências humanas. A politicagem religiosa surge justamente quando o poder passa a ser tratado como instrumento de realização ministerial. O indivíduo já não pergunta prioritariamente: "O que Deus requer de mim?", mas: "Qual posição preciso ocupar para produzir a mudança que desejo?". O resultado é paradoxal: na tentativa de transformar o sistema, o indivíduo pode tornar-se progressivamente dependente das mesmas estruturas que pretendia combater.

João Batista, entretanto, não demonstra interesse em ocupar o lugar de Cristo. Quando seus próprios discípulos percebem que Jesus começa a reunir mais seguidores, João não reage com competição ou ressentimento. Pelo contrário, declara: "É necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.30). Essa afirmação desmonta uma das tentações mais recorrentes da liderança religiosa: transformar o ministério em extensão do próprio nome. João compreende que seu chamado é preparatório e que sua grandeza está precisamente em desaparecer diante daquele para quem aponta. Sua autoridade não se mede pela quantidade de poder acumulado, mas pela fidelidade com que cumpre sua função.

É nesse ponto que a imagem utilizada por Jesus sobre o remendo e o odre velho se torna particularmente significativa. "Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha" e "nem se põe vinho novo em odres velhos" (Mt 9.16-17). A questão não é simplesmente substituir uma estrutura por outra, como se o problema estivesse apenas na administração do sistema. A novidade do Reino não pode ser reduzida a uma reforma estética das antigas formas de poder. O vinho novo exige odres novos. O problema, portanto, não está apenas em quem ocupa determinadas posições, mas na lógica que transforma a obra de Deus em território de disputa humana.

A competição por espaço religioso pode, assim, ofuscar o verdadeiro chamado. Homens e mulheres podem começar desejando servir, mas progressivamente passar a desejar reconhecimento; podem desejar corrigir distorções legítimas, mas terminar buscando controle; podem denunciar estruturas inadequadas e, posteriormente, reproduzir as mesmas práticas quando alcançam a posição que antes criticavam. A Escritura apresenta uma alternativa radical a essa lógica: "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3). O chamado bíblico, portanto, não deve ser confundido com a vocação para conquistar posições dentro de uma estrutura religiosa. João Batista não foi chamado para administrar o antigo sistema, mas para anunciar que o Rei havia chegado. Sua mensagem não acomodava o poder; confrontava-o. Não buscava preservar privilégios; exigia arrependimento. Não procurava construir uma plataforma pessoal; apontava para Cristo.

A verdadeira novidade, consequentemente, não consiste simplesmente em substituir pessoas, cargos ou grupos. Ela começa quando o centro deixa de ser o homem e volta a ser Cristo. "Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas" (Rm 11.36). Quando a vocação é novamente subordinada à Palavra, a disputa por poder perde sua centralidade e Cristo volta a ser o alfa e o ômega e motivo único de louvor.
Osasco - SP
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