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Opinião

Mulheres que conciliaram trabalho e pregação, contemplação e caridade

Por Rute Salviano

“[As beguinas] foram viver sua experiência do Sagrado junto aos pobres, a quem se dedicaram, solidárias, em serviços múltiplos, junto aos excluídos da época, junto às ‘ovelhas sem pastor’: os enfermos, os idosos, os órfãos, as mulheres abandonadas pelos maridos, as concubinas, as vítimas da prostituição [...]” (CALADO, Aldo Julio Ferreira. O novo no velho e o velho no novo).

No século 12, surgiu na Europa um grupo de mulheres que se uniu para sobrevivência própria e para auxílio dos desamparados. Muitas passavam necessidades, sem a proteção de homens e sem condições financeiras de se tornarem freiras, já que as taxas de entrada nos conventos eram muito elevadas.

Então, começaram a se reunir, a se ajudar mutuamente, e formaram as beguinarias: casas onde oravam, trabalhavam, educavam as crianças, cuidavam de doentes, pobres, idosos etc. Nessas comunidades com promessa (e não voto) de pobreza, obediência e castidade, encontraram seu espaço, pois estavam inseridas num contexto social urbano e podiam viver do próprio trabalho: tecelagem, bordado, costura, aulas para crianças etc.

O nome beguinas pode ter se originado de beghen, do flamengo antigo, que significava pedir, porque havia beguinas errantes que mendigavam; pode se referir ao tecido rústico de suas vestes, ou até mesmo a Lambert le Bègue, frade de Liége que foi considerado o fundador de uma casa para mulheres sem votos monásticos.

As beguinas viviam em liberdade e podiam participar do movimento sendo casadas, solteiras ou viúvas; mesmo mulheres com filhos eram aceitas. Também podiam sair quando quisessem. Podiam entrar sendo casadas e podiam sair para casar. A finalidade era o autossustento econômico e o exercício da vocação religiosa sem se retirar do mundo.

Elas não pronunciaram votos, deslocavam-se livremente e podiam voltar à vida secular a qualquer momento. Por isso, aos olhos de muitos clérigos, o estado de beguino, fundado sobre um compromisso temporário e revogável, não constituía uma verdadeira forma de vida religiosa, apesar dos laços estreitos que uniam as beguinas aos seus confessores.

Além de trabalharem com as próprias mãos para sustentarem-se a si mesmas e ajudarem os necessitados, também buscavam comunhão com Deus e ensinavam aqueles ao seu redor, dando às pessoas simples não só o alimento físico, mas também o espiritual.

As beguinas estavam no “mundo” para serem sal e luz, e essa liberdade de leigas concedeu-lhes a oportunidade de associarem a vida contemplativa com a caridade, e o trabalho com a pregação. Elas não almejavam o ideal puramente ascético de perfeição cristã; não queriam ficar fechadas dentro das paredes de um mosteiro voltadas para Deus e para sua própria vida espiritual. Para elas, mais importante que a contemplação do mestre era seguir seu exemplo.

Naquela época, prostitutas e leprosos constituíam dois símbolos sociais do pecado. O pensamento era de que uma das principais formas de contágio da lepra era a relação sexual, principalmente com prostitutas, portanto as duas classes estavam ligadas e eram discriminadas pela sociedade medieval.

As beguinas, zelando pelo bem-estar físico e espiritual dessas almas, contribuíram para a diminuição dos riscos de contaminação ao manterem os leprosos nas beguinarias. Os leprosos eram segregados devido ao temor do contágio. Eles não podiam andar descalços; tirar água dos poços; tocar em alimentos nas feiras, nem vestir roupas comuns. Suas roupas eram diferentes e deviam recorrer a sinos para anunciar sua aproximação.

A assistência das beguinas para com as prostitutas, além do cuidado espiritual, foi também a de alojá-las e lhes dar trabalho e, assim, meios de sobrevivência. As comunidades das beguinas chegaram até mesmo a conseguir recursos para pagamento do dote exigido para o casamento de suas protegidas.

A ação social e a pregação do evangelho dessas mestras da vida e artesãs das almas testemunharam sua espiritualidade e sua solidariedade aos excluídos. Porém, em protesto contra os desmandos e o monopólio clerical da pregação, ousaram pregar publicamente e essa foi sua “grande heresia”: falar em voz alta, pregar e escrever ao povo e, principalmente, em sua língua, quando somente o latim era a linguagem sagrada.

Perseguidas pela Inquisição, condenadas à fogueira, a comunidade daquelas que só fizeram o bem foi extinta. Foram condenadas no Concílio de Viena, em 1312, que decretou que seu modo de vida deve ser proibido definitivamente e excluído da Igreja de Deus.

Uma voz masculina daquela época serve de conclusão: “Embora vivessem no mundo com roupagem secular entre pessoas seculares, frequentemente ultrapassavam em caridade aquelas que viviam em clausura. No meio de pessoas mundanas elas eram espirituais, no meio de caçadores de prazer elas eram puras, e no meio do barulho e da confusão elas viviam uma vida serena e eremítica” (Cesário de Heisterbach:1180-1240).

Nota: Informações extraídas de "Uma voz feminina calada pela Inquisição", de Rute Salviano, Editora Hagnos, 2012.

• Rute Salviano é licenciada em Estudos Sociais, bacharel em Teologia (especialização em Educação Cristã), mestre em Teologia (concentração em História Eclesiástica), pós-graduada em História do Cristianismo pela UNIMEP e autora de Uma Voz Feminina na Reforma, Uma Voz Feminina Calada Pela Inquisição e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, publicados pela Editora Hagnos.

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