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Opinião

Vozes femininas da Reforma no berço do catolicismo

Por Rute Salviano

Houve reforma protestante na Itália, o berço do catolicismo? E mulheres participaram do movimento? E uma delas foi a própria nora de Lucrécia Bórgia, filha do papa Alexandre VI?

Sim, houve focos de protestantismo em alguns lugares da Itália, porém com pouca duração, pois a terrível Inquisição esmagou os brotos logo que romperam.

Um desses lugares foi Ferrara, norte da Itália, onde nascera Girolamo Savonarola (1452-1498), frei dominicano conhecido como precursor da Reforma que, no século 15, despertara Florença com seus sermões de ataque à corrupção da igreja e suas profecias de uma grande tribulação.

Renata, ou Renée de France (1510-1574)

Filha do rei Luís XII e de Ana, duquesa da Bretanha, ficou noiva do futuro imperador Carlos V, e foi pedida em casamento por Henrique VIII, da Inglaterra. Mas, casou-se, em 1528, com Ércole d’Este, o duque de Ferrara. E a corte deles foi considerada uma das mais brilhantes da Renascença.

Renata abraçou a fé protestante e foi discípula de Lefèvre d’Etaples, o tradutor da Bíblia em francês. Como filha de um rei, teve liberdade para nomear reformados como tutores de seus filhos e mestres na Universidade de Ferrara. Também protegeu “hereges” e hospedou cismáticos no seu palácio. Entre eles, o próprio Calvino, que foi seu mentor espiritual e correspondente fiel, escrevendo para ela sua última carta.

Seu esposo, no entanto, temendo a intervenção do papa, expulsou os protestantes e convocou o Tribunal da Inquisição. Enquanto ele enchia os calabouços com os reformados presos, ela os visitava e consolava. Seu compromisso com a Reforma foi tal que a Inquisição de Ferrara quis interrogá-la, mas seu marido a confinou ao palácio.

Em 1554, ele obteve a condenação e a detenção da própria esposa, que se recusara a receber os sacramentos da igreja. Libertada, Renata continuou reformada e quando faleceu o marido, seu filho Afonso II, deu-lhe a opção de se tornar católica ou deixar a Itália. Ela, escolhendo a última opção, retirou-se para Montargis, onde apoiou o partido protestante nas guerras religiosas. Seu antigo castelo se transformou em um asilo para centenas de huguenotes perseguidos e foi chamado de “Hotel Dieu” ou Hotel do Senhor.

Quando o duque de Guise, seu genro e líder do partido católico, deu ordens para a destruição daquele “ninho de hereges”, ela respondeu ao general:
Tomai cuidado no que fazei; sabei que a não ser o rei, ninguém poderá ditar a minha vontade; se executares as vossas ameaças, serei a primeira a aparecer na brecha e verei se serás demasiado ousado para matar a filha de um rei, cuja morte o céu e a terra vingariam em vós e nos vossos descendentes.

O general se retirou e pouco tempo depois o duque de Guise foi assassinado. Desse modo, Renata pode permanecer em Montargis até sua morte aos 65 anos de idade. Em sua lápide estão esculpidos os lírios da França e um vison de pelagem branca, sem mancha, símbolo de pureza de caráter e também de suas vestes que agora estão “lavadas e purificadas no sangue do Cordeiro”.

Olympia Morata (1526-1555)

Nascida em Ferrara, foi uma erudita cristã e um fruto da Reforma. Filha de Fulvio Morato, tutor dos filhos de Ércole d’Este, aprendeu latim e grego quando criança e, aos doze anos, sua fama já era divulgada fora de seu país como a mulher mais culta da Europa.

Foi Olympia a escolhida para tutora da filha da duquesa Renata e, em sua corte, teve contato com a mensagem da Reforma. Além disso, seu pai se tornara protestante e ao cuidar dele quando às portas da morte, contemplou seu belo testemunho por Cristo. Então, de humanista, tornou-se protestante.

Ela que declarara: “Eu não tinha gosto nenhum pelas coisas divinas. A leitura do Antigo e do Novo Testamento só me inspiravam repugnância”, e: “Eu tinha caído no erro de pensar que tudo acontecera por acaso e de acreditar 'que não havia Deus que cuidava de coisas mortais', tão grande era a escuridão que tinha esmagado minha alma", agora era impactada com a mensagem viva do Evangelho e aquele Deus que considerava distante, tornou-se pessoal.

Em 1549, Olympia casou-se com Andreas Grunthler na pequena igreja reformada de Ferrara e compôs um hino para a ocasião:

Oh, todo-poderoso Deus, Rei dos Reis, Criador do homem e da mulher!
Tu que deste ao primeiro homem uma companheira para que a raça dos mortais não perecesse;
Tu que desejaste que a alma proveniente da humanidade venha a ser a mística noiva do Teu próprio Filho,
e que fizeste com que Teu divino Filho desse Sua vida por ela;
Oh, derrama paz e bênçãos sobre estes dois que agora se unem diante de Ti.
A Tua lei é o leito nupcial e o hímen desse eterno amor.

As únicas duas opções para os protestantes italianos àquele tempo eram a morte ou a fuga. O jovem casal escolheu a segunda. Sendo alemão, Andreas poderia levar sua esposa de volta ao seu país, onde esperava encontrar um emprego.

Durante sua estadia na Alemanha, Olympia compôs um saltério grego, entre outras obras. Ela passou por muitas aflições e até mesmo por uma guerra que destruiu a cidade de Schweinfurt, onde morava. Provavelmente, uma tuberculose a levou a morte. Mas, foi na resignação à enfermidade e à proximidade do fim que demonstrou a firmeza de sua convicção.

Durante seus últimos meses, escreveu muitas cartas para seus amigos e familiares na Itália, incentivando-os a confiar na força de Deus. Olympia morreu com apenas vinte e nove anos, mas completamente transformada. De uma jovem tímida, absorvida por seus estudos e desejo de agradar aos outros, a uma mulher forte no Senhor, que desenvolveu - através da rejeição, sofrimento, exílio, doença e todos os horrores da guerra - uma fé inabalável, uma profunda preocupação pelo próximo e um desejo irresistível pelo céu.

• Rute Salviano é licenciada em Estudos Sociais, bacharel em Teologia (especialização em Educação Cristã), mestre em Teologia (concentração em História Eclesiástica), pós-graduada em História do Cristianismo pela UNIMEP e autora de Uma Voz Feminina na Reforma, Uma Voz Feminina Calada Pela Inquisição e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, publicados pela Editora Hagnos.

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