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Opinião

Servindo a Deus a partir da plenitude e não do esgotamento

Corremos o risco de termos uma identidade baseada no desempenho pessoal e não em nossa filiação como filhos amados do Pai.

Por Elayne Manzano

Esgotamento tem sido um lugar comum no Cuidado Missionário. Encontramos missionários e famílias cansadas, esgotadas e adoecidas, nos mais diferentes contextos do ministério.

Muito do que enfrentamos está diretamente ligado ao mundo em que vivemos: o ritmo acelerado da vida, a hiperconectividade, a velocidade das mudanças, o ativismo, a grande oferta de eventos, a alta expectativa sobre nós.

Corremos o risco de termos uma identidade baseada no desempenho pessoal e não em nossa filiação como filhos amados do Pai. Na correria da vida e do ministério, nos falta tempo de quietude e contemplação, de descanso e renovação, de escuta tanto de Deus quanto do próprio coração, de reflexão e amadurecimento das muitas experiências vividas. Mal acabamos de vivenciar uma situação e logo estamos inseridos em outra, em uma sobreposição de eventos.

Podemos apresentar um alto desempenho, mas sem conexão com a Fonte da vida. A Bíblia pode deixar de ser pessoal e passar a ser instrumento de trabalho, que alcança outros, mas não alimenta nosso próprio coração.

Neste cenário, o esgotamento acontece como consequência direta da sobrecarga física, emocional e espiritual. Olhando com atenção, podemos perceber que, muitas vezes, o esgotamento é um ato de amor de Deus. Como não conseguimos parar, Deus nos para, com o objetivo de nos restaurar e trazer de volta aos valores essenciais da fé e da vida.

O esgotamento é um processo gradativo, que se desenvolve ao longo de anos. A restauração também é um processo lento, de desconstrução e reconstrução dos conceitos e práticas que levaram ao esgotamento.

Plenitude é uma palavra preciosa na realidade do esgotamento, que pode orientar a longa jornada pela frente, trazendo esperança a quem está esgotado; é como oferecer água a quem está no deserto.

Plenitude define a realidade de quem Deus é: inesgotável, suficiente, transbordante. Uma realidade que confronta nossa mentalidade de escassez e nos convida a contemplar verdades profundas e eternas.

A vida do profeta Elias é um convite para conhecermos a abundância de Deus no cuidado dos seus servos. Tiago diz que “Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos...” (Tg5.18). Ao olhar para sua história, encontramos um homem que experimentou diferentes estações, do entusiasmo e da frutificação ao medo e à necessidade de cuidado. Sua história também nos ajuda a perceber como Deus permanece presente e cuidadoso em cada uma das estações da vida (1Re17 a 19).

Primavera é tempo de alegria, crescimento, vitalidade, novidades e esperança. A primavera de Elias aconteceu quando recebeu o chamado para servir ao Senhor. Sua primeira missão foi confrontar o rei Acabe! Em seguida Deus o mandou se esconder no ribeiro de Querite, onde foi alimentado por corvos. A seca, resposta à sua própria oração, atingiu o riacho de onde bebia e Deus o enviou para Sarepta, para ser sustentado por uma viúva estrangeira.

Na primavera dizemos com entusiasmo: “Deus me chamou! Ele me deu uma missão! Ele cuida de mim e me sustenta, inclusive através de corvos e viúvas, através de meios improváveis!”

Verão é tempo de energia abundante, disposição, frutificação exuberante, realização. Elias experimentou o verão no encontro com Acabe, onde com coragem respondeu: não sou eu quem perturba Israel, mas você!

O ponto alto foi o desafio no Monte Carmelo, com os 450 profetas de Baal e 400 profetisas da deusa Asera, onde Elias disse: “Até quando vocês ficarão pulando de um lado para o outro? Se o SENHOR é Deus, sigam-no; se é Baal, sigam-no”(1Re18.21). O povo, povo de Deus, ficou em silêncio, sem conseguir se posicionar. Até que caiu fogo do céu e reconheceram: “O SENHOR é Deus! Só o SENHOR é Deus!” (v.39).

Que alegria para um servo de Deus testemunhar a adoração a Deus! Isso é verão no ministério! E para completar, ainda teve a pequena nuvem, prenúncio da chuva na terra seca, quando Elias correu à frente da carruagem de Acabe.

Gostaríamos de ficar com a primavera e o verão, não é mesmo? Mas na vida cristã também temos outono e inverno. Outono é tempo de transição, reflexão, introspecção; é quando o mundo interior fica mais audível; é tempo de desapego, de avaliar e deixar os acúmulos.

Podemos identificar dois momentos de outono na vida de Elias. O primeiro foi quando o filho da viúva de Sarepta morreu. Com o menino nos braços, Elias orou: “Ó SENHOR, meu Deus, porque afligiste também esta viúva com quem me hospedo, matando o filho dela?” (1Re17.20). Percebe o questionamento, a reflexão, a inquietude do coração?

Quando a ameaça de Jezabel chegou aos ouvidos de Elias, ele teve medo e fugiu, sem a ordem de Deus. Em sua fuga, caminhou um dia no deserto, acrescentando mais esforço físico após a batalha no Monte Carmelo e a corrida intensa na ocasião da chuva.

Elias então experimentou o inverno. Inverno pode ser descrito como tempo de profunda introspeção, isolamento, silêncio, tristeza, frustração, desânimo, esgotamento, necessidade urgente de descanso e de cuidado. No inverno, “Elias sentiu vontade de morrer, e orou: Basta, SENHOR! Tira a minha vida...” (1Re19.4).

Em Elias vemos um caso clássico do esgotamento. Conseguimos entender Elias e nos identificamos com ele. Mas o que chama nossa atenção, não é Elias, mas o Deus de Elias e como Ele cuidou do seu esgotado servo no inverno da vida.

Você percebeu o que ele fez quando teve vontade de morrer? Elias orou! Ele derramou o coração na presença do Senhor, se entregando em suas mãos! E depois dormiu sob o pé de zimbro. Sabemos que comer e dormir são necessidades urgentes no esgotamento. Mas quem providenciaria comida no deserto para Elias?

O cuidado desta vez veio através de um Anjo ‘cozinheiro’, que tocou em Elias dizendo para levantar e comer. Na cabeceira de Elias, logo ao alcance das mãos, o anjo colocou pão assado sobre pedras em brasas e um jarro de água. Não é encantador perceber o amor de Deus, seu cuidado tão atencioso, preciso e necessário? Deus cuidou primeiro do corpo cansado do seu servo!

Elias comeu e voltou a dormir. O Anjo do Senhor o tocou novamente e desta vez acrescentou que a viagem seria longa. O cuidado também inclui lidar com a verdade. A caminhada é longa e precisamos estar fortalecidos para prosseguir. Depois de cuidar do corpo, era tempo de cuidar da alma.

Jesus nos ensinou que “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt4.4). A imagem do pão e água na cabeceira de Elias nos lembra da palavra de Deus que nos alimenta e que também pode estar em nossas cabeceiras, bem ao alcance das mãos!

Elias, fortalecido pelo sono e pelas refeições caminhou quarenta dias até Horebe, o Monte de Deus. A longa jornada tinha como destino o encontro com Deus. O Monte Horebe ou Sinai, simbolizavam a presença de Deus no AT, o lugar da aliança. Hoje não precisamos ir ao Horebe fisicamente para encontrar com Deus. Podemos fechar a porta do quarto e falar com o Deus que nos vê em secreto, com o Deus que nos conhece, nos ouve e fala ao nosso coração.

No Horebe, Elias, que viu cair fogo do céu no Monte Carmelo, percebeu que Deus não estava no vento forte que quebrava as rochas, nem no terremoto e nem no fogo. Foi no som de um suave sussurro que Elias ouviu Deus. Seus ouvidos estavam agora treinados para discernir a voz do Senhor na quietude.

Por duas vezes, Deus perguntou: “O que você está fazendo aqui Elias?” As perguntas de Deus, longe de serem óbvias, são oportunidades de profunda reflexão; oportunidades para reavaliar e reordenar a caminhada.

Em sua resposta, Elias falou do seu zelo pelo Senhor, do abandono da aliança pelo povo, da morte dos profetas de Deus, da sua solidão e da ameaça à sua vida: “Só fiquei eu, e eles estão querendo tirar-me a vida”(1Re19.14). Elias pôde expressar o que tinha no coração em lugar seguro.

Reconhecer a solidão pode ser um desafio em meio ao esgotamento. Fomos criados viver relacionamentos próximos e profundos, com Deus e entre nós. A solidão nos fere e nos adoece. Em sua fala, Deus deu a Elias uma maravilhosa notícia: havia mais sete mil servos fiéis que não se dobraram à idolatria!

As boas notícias de Deus alegram o coração, renovam o ânimo e trazem uma nova perspectiva para a caminhada. Há cura nas palavras do Senhor para nós!

Deus estava presente em todas as estações da vida de Elias. Ouvir a voz do Senhor permitiu a Elias viver a plenitude; e no momento de fuga, de esgotamento, de inverno, foi com Deus que Elias falou.

A abundância na vida cristã e no ministério, não vem das circunstâncias favoráveis, das tarefas realizadas ou da ausência de lutas e desafios. Nossa suficiência está em Cristo, na identidade que temos nele, como filhos amados. Uma e outra vez ele vai nos atrair para o Horebe, nos chamando a um relacionamento próximo com ele, revelando a si mesmo como Senhor e Pai amoroso que é.

Leia as palavras do salmista: “Sirvam ao Senhor com alegria, apresentem-se diante dele com cântico. Saibam que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio” (Sl100.2,3).

Somos dele, seus filhos e seu povo, e ele cuida de nós! Isso é plenitude!

Este artigo foi escrito a partir do Encontro Nacional de Obreiros do Betel Brasileiro, que aconteceu nos dias 24 e 25 de julho, em João Pessoa (PB), em parceria com o CIM Brasil (Cuidado Integral do Missionário, da AMTB – Associação de Missões Transculturais Brasileiras). Cerca de 200 obreiros participaram do encontro, que teve como objetivo encorajar os servos do Senhor ao autocuidado de forma preventiva.
  • Elayne Manzano é Enfermeira (UFSCar), com formação em Ministério Transcultural (CEM), e pós-graduação em Aconselhamento Cristão (SETECEB). Missionária em Asas de Socorro desde 1995. Atua no aconselhamento de missionários, pastores e suas famílias desde 2014. É membro da equipe de coordenação do CIM Brasil (Cuidado Integral do Missionário, da AMTB), onde atua como líder facilitadora da Mesa de Saúde Integral do Missionário.É casada com Marco e mãe de Giovana, Samuel e André. Tem ainda um genro, Luan, uma nora, Laura, e dois netos, Pedro e Raquel.

Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez
a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais
aqui.
Saiba mais:
» O Caminho do Coração – Meditações Diárias, Ricardo Barbosa de Sousa
» Conhecendo a Deus ao Longo do Ano – Meditações Diárias, J. I. Packer
» A Missão da Igreja Hoje – A Bíblia, a história e as questões contemporâneas, Michael W. Goheen

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