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Opinião

A História perde Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm atravessou o século 20 escrevendo parte da história que viu e que viveu. Morreu aos 95 anos tendo deixado um legado historiográfico como poucos de sua geração. Foi Heródoto, o “pai da história”, quem definiu história como a narrativa daquilo que se viu e que se testemunhou. Hobsbawm foi testemunha de parte da própria história que narrou.
 
Ele foi o principal historiador inglês marxista do século passado. Desenvolveu um estilo de escrita preciso, sintético, factual e interpretativo ao mesmo tempo, envolvente ao narrar e com a rara capacidade de contemplar a totalidade e o singular ao mesmo tempo. Sua pena conseguiu escrever o vivido humano em permanente relação entre o político, o social, o econômico e o cultural. Foi um intelectual de esquerda, militante, pesquisador e historiador, com uma visão incomum de conjunto acerca dos acontecimentos.
 
Seus escritos testemunharam isto. A sequência das “eras” (“A era da Revolução”, “A era dos Impérios”, “A era do Capital” e “A era dos Extremos”) traçou o percurso histórico do capitalismo ocidental, até alcançar a sua mundialização como sistema hegemônico. Por sua vez, “Nações e nacionalismos” discutiu o surgimento da ideia de nação na ordem moderna.
 
“Bandidos” e “Rebeldes primitivos” foram outras duas obras singulares tratando de movimentos e sujeitos sociais tidos como marginalizados na sociedade, a exemplo de Lampião no nosso Nordeste. “Sobre a história” discute o campo da teoria diante das novas tendências da historiografia contemporânea. E, em “A invenção das tradições”, apresenta uma leitura cultural das tradições inventadas por sociedades e o seu lugar no conflito com a modernidade. O delicioso “História social do jazz” descreve as implicações sociais do surgimento deste estilo musical norte-americano.
 
A atual geração de historiadores brasileiros foi profundamente marcada pelos escritos de Hobsbawm. Lembro que li em 1989, no primeiro ano da licenciatura em História, um dos capítulos do livro “Rebeldes primitivos” onde discorreu sobre os movimentos de protestos sociais ligados às igrejas metodistas e aos avivamentos wesleyanos de fins do século 18. Segundo sua visão, o movimento operário organizado no século seguinte surgiu desde as mobilizações políticas e sociais daqueles cristãos. No entanto, este processo sofreu uma secularização “necessária” para a formação da consciência de classe oprimida.
 
Surpreendi-me na época pelo fato de saber que comunidades metodistas foram espaços de organização de sindicatos e da luta de trabalhadores contra as atrocidades da revolução industrial inglesa. Por outro lado, inquietei-me pelo fato dos protestantes não conhecerem esta história no Brasil, a de que lutas sociais foram feitas por comunidades de cristãos engajados pela justiça.
 
Seus escritos foram responsáveis pela interpretação de um dos mais cruentos e complexos séculos da história humana. Em “A era dos Extremos: o breve século XX” afirmou que este “século” durou apenas 70 anos! Ou seja, compreendeu-o desde as duas guerras mundiais, o advento do “socialismo real” até o seu declínio em 1989, com a queda do muro de Berlim e o fim do antigo bloco soviético.
 
O autor cunhou a expressão “socialismo real” como a experiência histórica que negou seus próprios pressupostos e ideologia e sugeriu que as temporalidades na história não são lineares e cronologicamente estabelecidas. Enfim, toda a sua valiosa contribuição, a sua militância, seu pensamento e seus escritos ainda serão revistos e reavaliados, inclusive a sua autobiografia em “Tempos interessantes”.
 
Para os leitores que se interessam pela história dos trabalhadores, das contradições dos sistemas econômicos e do “breve” século 20, Hobsbawm é um interlocutor sem comparação. Há um compromisso ético com a verdade em sua historiografia. Seus escritos demonstram uma humanidade decaída e decadente, movida por interesses materialistas representados por grupos, elites e classes dominantes, responsáveis pela opressão e exploração do ser humano, reduzido à dimensão de objeto e de mera força de trabalho.
 
Não era isto que Deus queria para a humanidade.
 
Nota:
O historiador britânico Eric Hobsbawm morreu na madrugada de ontem (dia 01), após uma longa pneumonia que o manteve internado por meses em Londres.

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Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Faz parte da Fraternidade Teológica Latino-americana - Setor Brasil (FTL-Br).
  • Textos publicados: 35 [ver]

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