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Opinião

Quem tem direito à felicidade?

Por Paulo Ribeiro

O direito de ser feliz na sociedade ocidental parece preceder até mesmo os direitos humanos.  É comum hoje, mesmo nas igrejas, encontrarmos pessoas no segundo ou terceiro casamento e a justificativa sempre aceita é que o relacionamento anterior “não deu certo”. Mas será isto verdade em todos os casos?  Aqui excluo os relacionamentos que foram quebrados por razões legítimas de infidelidade.   
 
O relativismo cultural está corroendo o caráter moral da sociedade. Essa cultura de moralidade dupla – você não pode enganar com dinheiro (pelo menos formalmente), mas pode ser infiel ao cônjuge – está criando uma geração moralmente confusa.
 
A moralidade dupla – você não pode enganar com dinheiro, mas pode ser infiel ao cônjuge – está criando uma geração moralmente confusa.

No ensaio “Não Temos o Direito de Ser Felizes”, C.S. Lewis é cirúrgico e vai direito ao ponto (a maioria dos conselheiros usam uma psicologia barata para enfrentar a realidade): 
 
“A obediência absoluta ao instinto de autopreservação é o que chamamos de covardia; ao impulso aquisitivo, avareza. Mas toda indelicadeza e quebra de promessa parece ser tolerada, desde que o objetivo seja "quatro pernas nuas em uma cama". É como ter uma moralidade na qual roubar frutas é considerado errado – a menos que você roube nectarinas. E se você protestar contra essa visão, você geralmente se depara com conversas sobre legitimidade, beleza e a santidade do "sexo", e é acusado de ser preconceituoso e puritano.” 
 
Lewis reconhece que os impulsos sexuais estão sendo colocados em uma posição de privilégio desproporcional. O comportamento sexual, com exceção do assédio ou pedofilia, é considerado normal e aceitável mesmo quando envolvam pessoas com compromissos. E ele aponta ainda outra razão para tanto:
 
“Faz parte da natureza da paixão erótica – distinta de um ajuste passageiro do apetite – pois ela faz promessas mais imponentes do que qualquer outra emoção. Sem dúvida, todos os nossos desejos fazem promessas, mas não tão chocantes. Estar apaixonado envolve a convicção quase irresistível de que a pessoa continuará apaixonada até morrer, e a posse da amada (ou amado) conferirá, não apenas êxtase frequente, mas felicidade estabelecida, frutífera, profundamente enraizada e vitalícia. Daí tudo parece estar em jogo. Se perdermos essa chance, teremos vivido em vão.”

Quando duas pessoas alcançam a felicidade duradoura, isso não acontece apenas porque são grandes amantes sexuais

Mas a realidade é bem outra:
 
“Sabemos que esses sentimentos às vezes duram – e às vezes não. E quando eles duram, isso não é porque os apaixonados prometeram no começo. Quando duas pessoas alcançam a felicidade duradoura, isso não acontece apenas porque são grandes amantes sexuais, mas porque também são – devo dizer de forma direta –pessoas boas; controladas, leais, justas e mutuamente adaptáveis. Se estabelecermos um "direito à felicidade (sexual)" que substitua todas as regras ordinárias do comportamento, nós o fazemos não por causa do que nossa paixão demonstra pela experiência, mas por causa do que professa ser enquanto estamos no controle.”   

Lewis vai além e pontua mais fortemente:
 
“Em nome da modernidade, o mau comportamento sexual foi racionalizado. Sei que alguns liberais podem dizer: ‘Aqui vem outro puritano. Tratemos o sexo como tratamos qualquer outro impulso’. Eles esquecem que as pessoas responsáveis sempre reconheceram a necessidade de autocontrole de todos os nossos instintos.  Atualmente, no entanto, se o assunto é comportamento sexual, toda transgressão possível é racionalizada e finalmente aceita. Só porque é feito atrás das portas, não se qualifica à isenção.”    

Finalmente, Lewis conclui com duas observações letais:
 
1 -  Uma sociedade em que a infidelidade conjugal é tolerada deve sempre ser, a longo prazo, uma sociedade hostil às mulheres. As mulheres, sejam quais forem as músicas e sátiras masculinas que digam o contrário, são mais naturalmente monogâmicas do que os homens. Onde a promiscuidade prevalece, elas sempre serão mais frequentemente vítimas do que os culpadas. E a qualidade pela qual elas seguram mais facilmente um homem – sua beleza –, diminui a cada ano depois de terem chegado à maturidade, mas isso não acontece com essas qualidades da personalidade. Assim, na implacável guerra da promiscuidade, as mulheres estão em desvantagem dupla. Elas jogam por apostas mais altas e também são mais propensas a perder. Não tenho simpatia por moralistas que desaprovam a crescente provocação feminina. Esses sinais de competição desesperada me enchem de pena. 

Como podemos exigir honestidade dos políticos quando a infidelidade sexual é não apenas admissível, mas prevalece tanto entre cidadãos comuns como entre líderes políticos e até religiosos?

2- Em segundo lugar, embora o "direito à felicidade" seja reivindicado principalmente pelo impulso sexual, parece-me impossível que o assunto permaneça ali. O princípio fatal, uma vez permitido naquele caso, deve, mais cedo ou mais tarde, atravessar por toda a nossa vida.
 
Como podemos exigir honestidade de políticos ou profissionais quando a infidelidade sexual é não apenas admissível mas prevalece tanto entre cidadãos comuns como entre líderes políticos e até religiosos?  Que autoridade e consistência moral podemos exigir de uma cultura e sociedade que ri e aceita um cantor com nome de “Safadão” mas ficada chocada com o abuso e assédio sexual?
 
Se não rejeitarmos esta inversão de valores e princípios morais universais, poderemos até desfrutar de prosperidade econômica por algum tempo, mas nossa sociedade terá morrido interiormente.
Doutor em engenharia elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, é pesquisador e professor na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e é torcedor do Santa Cruz.
  • Textos publicados: 14 [ver]

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