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Opinião

Por que estamos doando menos?

Dinheiro, desigualdade e a crise da solidariedade

Por Cassiano Luz

Alguns dias atrás, a revista The Economist publicou uma reportagem que chamou atenção para um fenômeno inquietante: o número de pessoas que doam recursos para causas sociais nos Estados Unidos caiu pelo quinto ano consecutivo (The Economist, 2025). A queda atinge não apenas a classe média, mas também famílias de alta renda, tradicionalmente vistas como pilares da filantropia no país.

O dado é perturbador porque surge em um mundo cada vez mais rico, produtivo e tecnologicamente avançado. Nunca se produziu tanto, nunca houve tanta circulação de dinheiro – e, ainda assim, cresce a sensação de que a solidariedade está encolhendo.

Este artigo adota uma cosmovisão bíblica-cristã como referência ética e analítica, articulada à experiência prática do autor na captação de recursos para o atendimento de populações em situação de vulnerabilidade, com foco em eficiência, responsabilidade e transparência. Não se trata apenas de analisar números ou sistemas econômicos, mas de questionar valores, escolhas morais e o tipo de sociedade que estamos construindo. A crise da doação, nesse sentido, não é apenas econômica ou institucional: ela é também espiritual, ética e cultural.

Polarização político-ideológica
Qualquer discussão contemporânea sobre desigualdade acaba esbarrando, mais cedo ou mais tarde, em uma disputa que ganhou ainda mais força nos últimos anos de polarização político-ideológica, porque toca em algo essencial: como uma sociedade deve lidar com riqueza, pobreza e responsabilidade coletiva.

Segundo dados da Oxfam,1 1% da população mundial concentra mais riqueza do que os outros 99% somados (OXFAM, 2023).

Onde os sistemas econômicos mostram seus limites, a discussão sobre doação, generosidade e solidariedade se torna decisiva.

Os dados apresentados pela The Economist mostram que, em 2025, o número de doadores nos Estados Unidos caiu cerca de 3% apenas nos nove primeiros meses do ano. Mesmo entre famílias com patrimônio superior a um milhão de dólares, a proporção de doadores caiu de 91%, em 2015, para 81%, em 2024.

Fatores como inflação, aumento do custo de vida e declínio da religiosidade institucional ajudam a explicar parte do fenômeno. Há também elementos políticos: determinadas causas passaram a ser rotuladas como “antipatrióticas” em anos recentes, o que intimidou organizações da sociedade civil (The Economist, 2025). Ainda assim, o enfraquecimento da cultura da doação antecede essas disputas, indicando causas mais profundas.

No Brasil, os números contam uma história diferente, mas igualmente preocupante. Segundo o Brasil Giving Report 2023, do IDIS,2 apenas 37% dos brasileiros doaram dinheiro em 2022, embora cerca de 70% tenham realizado algum tipo de doação material (IDIS, 2023).

O Monitor de Doações Brasil 2023, da ABCR,3 mostra que mais de 50% das doações ocorreram via PIX (ABCR, 2023). A tecnologia facilita o ato de doar, mas não resolve, por si só, a ausência de uma cultura sólida de contribuição recorrente e consciente.



O fracasso moral da abundância
A desigualdade se torna ainda mais escandalosa quando confrontada com a fome. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU)4 indicam que cerca de 828 milhões de pessoas passam fome diariamente, enquanto aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de alimentos é desperdiçado todos os anos (ONU, 2022).

Segundo a própria ONU, pouco mais de 10% desse desperdício seria suficiente para erradicar a fome global. O problema, portanto, não é a falta de recursos, mas a ausência de critérios éticos claros para lidar com eles.

Do ponto de vista cristão, esse cenário revela um fracasso moral da abundância: produzimos muito, acumulamos muito, mas repartimos pouco.

Generosidade: uma resposta bíblica a um problema estrutural

A Bíblia trata a generosidade não como caridade ocasional, mas como responsabilidade diante de Deus e do próximo. Em 1 Timóteo 6, o apóstolo Paulo associa a verdadeira riqueza ao contentamento, lembrando que nada se traz ao mundo e nada dele se leva.

Provérbios afirma que quem cuida do pobre empresta ao próprio Deus (Pv 19.17), deslocando a doação do campo da bondade opcional para o da justiça. Em 2 Coríntios 9, Paulo insiste que a doação deve ser voluntária e alegre – não forçada, nem motivada por culpa.

Essa visão bíblica propõe um caminho que os sistemas políticos não conseguem oferecer sozinhos: a correção ética da desigualdade por meio da generosidade consciente.

Olhando para o futuro: propostas práticas

Diante da necessidade urgente de mudança, eis algumas propostas práticas para fortalecer a cultura da doação:
Educação para a generosidade, promovendo, desde a infância, uma visão de responsabilidade social e espiritual relacionada ao uso do dinheiro, sobretudo em nossas igrejas.
• Investimento em projetos sociais administrados por organizações sérias, que alcancem o maior impacto com menor custo possível, com transparência na prestação de contas.
• Uso estratégico de ferramentas digitais para estimular doações recorrentes, não apenas emergenciais.
• Combate efetivo à corrupção, sem o qual qualquer redistribuição perde impacto e legitimidade.
• Aprimoramento dos incentivos fiscais, especialmente no Brasil, tornando a doação individual mais simples e acessível.
• Maior responsabilidade do poder público e dos “super-ricos”, incentivando investimentos contínuos em causas estruturantes como educação, saúde e segurança alimentar.

Conclusão

Vivemos em um mundo de abundância material e escassez moral. A crise da doação revela os limites dos sistemas econômicos, mas também aponta para uma solução que nenhum deles consegue impor: a escolha voluntária pela generosidade.

A partir da cosmovisão cristã, doar não é um gesto heroico, mas uma resposta coerente a um mundo marcado, simultaneamente, por excessos e carências. Como lembram as palavras do próprio Senhor Jesus, “há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20.35).

Talvez o futuro da justiça social dependa menos de novos sistemas – e mais de corações dispostos a repartir.


Notas:
1. Oxfam – Confederação internacional de organizações dedicada ao combate à pobreza e à desigualdade, reconhecida pela produção de relatórios globais sobre concentração de renda e riqueza.
2. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social: organização brasileira sem fins lucrativos voltada ao fortalecimento da filantropia estratégica e da cultura de doação no Brasil.
3. ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos: entidade que representa e capacita profissionais de captação de recursos no Brasil, produzindo pesquisas e dados sobre o setor.
4. ONU – Organização das Nações Unidas: organismo internacional voltado à promoção da paz, dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável.

Referências
ABCR – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CAPTADORES DE RECURSOS. Monitor de Doações Brasil 2023. São Paulo: ABCR, 2023.
IDIS – INSTITUTO PARA O DESENVOLVIMENTO DO INVESTIMENTO SOCIAL. Brasil Giving Report 2023. São Paulo: IDIS, 2023.
OXFAM. Relatório sobre desigualdade global 2023. Oxford: Oxfam International, 2023. THE ECONOMIST. Why Americans are giving less to charity. Londres, 23 dez. 2025.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Food Waste Index Report. Nova York: ONU, 2022.


  • Cassiano Luz é diretor executivo da SEPAL, e da Aliança Evangélica Brasileira, onde tem se dedicado ao desenvolvimento do Aliança pela Vida, um programa de respostas em desastres e emergências humanas. Teólogo e antropólogo, é membro da igreja Calvary Campo, casado com Eugênia Rosa, pai de Rebeca, Linda, Isaac e Clara Luz.

Versão ampliada do artigo Por que estamos doando menos?, publicado na
edição 418 de Ultimato.

Imagem: Aliança Evangélica Brasileira.


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