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Opinião

Por que a obsessão pela inovação?

Por Paulo Ribeiro

Não há um vestígio de criatividade real em nós. Apenas recombinamos elementos feitos pelo Criador
 
 Se quisermos criar uma sociedade inteligente e sustentável, talvez seja a hora de chegar a um acordo com a realidade da obsessão pela “inovação” e parar de descuidar e negligenciar outros elementos do desenvolvimento.
 
2 – Existe uma ideia predominante, particularmente entre aqueles que trabalham com tecnologia, de que a inovação é inerentemente superior à manutenção ou ao simples melhoramento de ferramentas e infraestruturas de sustentação da vida.  
 
3 – A inovação tem o poder de mudar nossas vidas para melhor, tornando as coisas mais convenientes e econômicas. Alguns dos dispositivos que vimos surgir fruto de inovação, como a internet e smartphones, parecem confirmar isto.
 
4 – Talvez uma das maiores atrações para a inovação em uma sociedade capitalista seja a possibilidade de seus criadores se tornarem ricos. E como tendemos a igualar dinheiro a valor real, pensamos nos inovadores como mais valiosos para a sociedade do que outras pessoas. Mas a atração vai mais além do que a riqueza: a excitação da conquista contaminada com orgulho egoísta e sentido de auto importância, são as características mais danosas e fatais.
 
5 – Há perigos em priorizar a inovação acima de tudo e é importante destacá-los. Educamos gerações de engenheiros acreditando que sua melhor aposta para uma carreira é inventar algo novo, criar ou iniciar seu próprio negócio. No entanto, isso pode ser destrutivo, considerando a alta taxa de falha das startups. Como se isso não bastasse, também temos gerações de pessoas que desprezam trabalhos que não exigem criatividade ou inovação.  
 
6 – Nossa obsessão pela inovação nos leva a desvalorizar a manutenção, que é necessária para manter o mundo funcionando. É muito mais atraente investir dinheiro em uma startup de tecnologia do que investir em consertar uma ponte ou em saneamento básico. 
 
7 – Claro, há muitos motivos pelos quais nossa infraestrutura está tão ruim, mas nossa priorização da inovação, em vez do melhoramento e manutenção da infraestrutura existente, desempenha um papel significativo nisto.
 
8 – Nossa demanda inexorável por inovação também incentiva o desenvolvimento de fenômenos econômicos que nem sempre funcionam a nosso favor. Por exemplo, considere a obsolescência planejada, a ideia de que as empresas de tecnologia projetam especificamente seus produtos para expirar ou se tornarem menos valiosos com o surgimento de uma versão mais nova.
 
9 – Podemos argumentar que isto pode acontecer de qualquer maneira; afinal, espera-se que as empresas se comportem de forma a maximizar seus próprios interesses e vender novos produtos. No entanto, é nossa demanda contínua por novos produtos que permite que este ciclo vicioso continue inabalável e recorrente.
 
10 – Estamos vendo o lançamento de incontáveis "invenções" que são cópias inferiores de tecnologias já existentes ou combinações de tecnologias desnecessárias. Muitos estão inovando apenas por causa das inovações, em vez de gastarem seu tempo desenvolvendo uma tecnologia verdadeiramente imprescindível.  
 
11 – Não importa onde você se enquadre no espectro político, é provável que você reconheça que a desigualdade social está piorando. Um CEO de grande empresa ganha muitas vezes mais em um único dia do que o trabalhador ganha em um ano. 
 
12 – Uma pessoa que inventa um aplicativo que permite às pessoas comprar e vender serviços pode ganhar milhões de reais, enquanto as pessoas que compram e vendem na plataforma lutam para sobreviver.  
 
13 – Não sou contra a inovação, mas acredito que está na hora de repensarmos este incentivo, quase que desequilibrado, sem identificarmos quais as áreas que realmente necessitam de inovação, priorizando projetos que mantenham os ativos que já possuímos.
 
14 – Finalmente, com relação à natureza de nossa tarefa como desenvolvedores de novas tecnologias, precisamos evitar o orgulho fatal que normalmente acompanha nosso chamado como especialistas. Fico um pouco desconfortável quando afirmamos ser uma classe especial de “criadores e inventores”. É a abdicação de nossa criatividade e originalidade que trará a verdadeira criatividade e originalidade em nós, como reflexos do Criador do Universo. Como disse certo autor inglês: “Não há um vestígio de criatividade real em nós. Tentemos imaginar uma nova cor primária, uma quarta dimensão, ou mesmo um monstro que não consiste em pedaços e partes de animais existentes grudados. Nada acontece. E certamente é por isso que nossas obras nunca significam para os outros exatamente o que pretendíamos: porque estamos recombinando elementos feitos pelo Criador, que já contêm seus significados”. E parece fazer sentido, pois como está dito em Eclesiastes 1:9: “O que foi voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra vez; não existe nada de novo debaixo do sol”.

Nota do editor: O professor Paulo Fernando Ribeiro, do Instituto de Sistemas Elétricos e Energia (ISEE), da Universidade Federal de Itajubá, está na lista dos cientistas mais influentes no mundo, segundo pesquisa conduzida pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, divulgada em outubro. O estudo completo pode ser acessado aqui.

Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi Professor em Universidades nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, e Pesquisador em Centros de Pesquisa (EPRI, NASA). Atualmente é Professor Titular Livre na Universidade Federal de Itajubá, MG. É originário do Vale do Pajeú e torcedor do Santa Cruz.
>> http://lattes.cnpq.br/2049448948386214
>> https://scholar.google.com/citations?user=38c88BoAAAAJ&hl=en&oi=ao

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