Opinião
25 de junho de 2026- Visualizações: 15
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Paz social: uma perspectiva bíblica para a dupla cidadania do cristão em sua jornada neste mundo
Não somos capazes de construir o paraíso na terra, mas podemos viver de tal forma que apontemos para ele
Por Paulo Teixeira
A sede de paz no mundo e no coração
Sede de paz. Esta expressão resumiria bem o difícil momento que a humanidade atravessa em nossos dias. Momento, aliás, não traduz bem a situação que já vem de longe. Desde que a paz foi abalada pela primeira vez, ainda no Éden. E desde lá, a vida humana é precária.
Há um embate constante diante de nós: cultura de vida versus cultura de morte, cultura de reconciliação versus cultura de conflito. Esse cenário se manifesta nas tensões políticas, nas crises sociais, nas 7 guerras e nos cerca de 120 conflitos armados em curso no mundo e, de modo mais íntimo, nas rupturas familiares e nas inquietações do coração humano.
É nesse contexto que somos chamados a refletir sobre paz social — não como um ideal conceitual e metafísico, mas como uma realidade que brota da fé cristã e se expressa na vida concreta. O cristão não é alguém que foge do mundo, mas alguém que nele vive como embaixador do céu.
Nossa reflexão se desenvolverá a partir de três movimentos:
. a paz que vem de Deus como fundamento teológico;
. a paz que transforma o indivíduo em sua dimensão existencial;
. a paz que se encarna na sociedade como dimensão pública e cidadã.
Ao longo desse percurso, mergulharemos na Bíblia e dialogaremos especialmente com três gigantes da fé cristã: Agostinho de Hipona, Martinho Lutero e Dietrich Bonhoeffer.
Antes, porém, de iniciar essa jornada, é preciso compreender que a paz que o mundo oferece é tão frágil quanto um precário cessar-fogo, que tão logo é firmado já começa a ser rompido. Já a paz que Deus oferece é profunda como uma raiz. E é dessa raiz firmada em Deus que brotará tudo o que diremos.
“Paz na terra” – a paz que vem de Deus
O anúncio dos anjos em Lucas 2.14 ecoa como fundamento de toda a teologia da paz:
“Glória a Deus nas alturas
e paz na terra
entre os homens a quem ele quer bem.”
Essa paz não nasce da organização humana, nem da engenharia política. Ela nasce do ato redentor de Deus em Cristo. O menino da manjedoura é o mesmo que carregará a cruz. Como expressa Lutero ao tratar da obra substitutiva de Cristo, nossa redenção culmina na "morte da morte", sendo a cruz e o túmulo aberto o meio, o momento e o terreno no qual Deus derrota o próprio mal em nosso lugar (cf. Da Liberdade Cristã e sermões cristológicos).
O profeta Isaías já antecipava isso ao dizer:
“O castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Isaías 53.5).
Portanto, na perspectiva bíblica, a paz começa na reconciliação com Deus. Como escreve o apóstolo Paulo em Romanos 5.1:
“Justificados, pois, mediante a fé,
temos paz com Deus
por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Aqui é oportuno introduzir uma distinção fundamental que nos acompanhará até o fim. Os gregos antigos tinham uma palavra preciosa para a paz: eirene. Diferente de mera ausência de guerra, eirene descreve um estado de equilíbrio interior, no qual o coração permanece sereno e cheio de coragem mesmo em meio a conflitos. Eirene é a paz do guerreiro que descansa em Deus antes da batalha, não a paz do covarde que foge do campo. O apóstolo Paulo usa eirene ao escrever:
“E a paz de Deus (eirene toú Theú), que excede todo entendimento,
guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” (Fp 4.7).
Eirene é a serenidade que não nega a tempestade, mas permanece firme porque sua âncora está no céu. É essa paz que Deus derrama no coração daquele que crê — uma paz que não depende das circunstâncias, mas da presença de Cristo.
A paz que transforma – do coração à existência
Mas essa paz não permanece no plano abstrato. Ela aterrissa no coração humano. Aqui encontramos uma profunda conexão com Agostinho de Hipona, especialmente em suas Confissões, obra escrita por volta de 397 d.C., a primeira obra do Ocidente escrita em primeira pessoa, uma “teologia genuflexa” que mescla autobiografia, teologia e filosofia. As Confissões começam assim:
“Nosso coração está inquieto até que descanse em ti” (Confissões, I.1).
Agostinho descreve a condição humana como marcada pela inquietação. E essa inquietação nasce de um coração desordenado. A paz verdadeira exige reordenação ou realinhamento do coração. Quando Cristo nos liberta de nosso egoísmo e molda a nossa mente, nosso coração encontra o seu eixo, e “amar a Deus acima de tudo” e “amar ao próximo como a nós mesmos” começa a fazer parte da nossa existência, norteando nossa cosmovisão. Mas sem Cristo nos libertar, continuamos escravos de nós mesmos e de nossas paixões, amando as coisas criadas como se fossem o Criador. E enquanto nosso coração não descansar em Deus, vivemos em desassossego.
Essa transformação interior encontra eco na reflexão de Dietrich Bonhoeffer, uma voz profética marcante do século 20, especialmente em sua conferência Christus und Frieden (Cristo e Paz), de 1932. Vamos voltar a este escrito de Bonhoeffer mais para a frente, mas adianto este excerto por oportuno que se faz para o desenvolvimento de nosso raciocínio. Bonhoeffer assim escreve:
“Sem estarmos nós mesmos nessa paz,
não conseguimos pregar a paz aos povos.”
Ninguém dá o que não tem. Se queremos paz no mundo, precisamos ser agentes de paz, e para sermos agentes de paz, precisamos primeiro que a paz de Cristo habite em nós. Essa habitação não é um estado místico vago, mas um retorno diário ao primeiro amor de Cristo em nós, uma decisão de render diariamente o coração a Deus, de ajoelhar-se a cada dia perante ele, pedindo e permitindo que o Criador reordene nossos sentimentos e afetos, nossos medos, paixões e ambições.
De Agostinho e de Bonhoeffer aprendemos que a paz social começa dentro de cada um de nós, um a um. Não podemos exigir harmonia nas ruas ou no lar se carregamos guerras no peito. A transformação exterior é fruto de uma profunda revolução interior — aquela que ocorre quando o Espírito Santo nos convence do pecado, da justiça e do juízo, e nos conduz ao arrependimento e à fé.
Pois bem, se a paz verdadeira nasce da reordenação do coração, o que acontece quando esse mesmo coração permanece desordenado? É exatamente aí que emergem os conflitos que estremecem a história humana, conflitos de longe e conflitos de perto. Tais conflitos são sintomas de um mal muito mais profundo. Quem o diagnosticou com mais agudeza, a partir da Bíblia e da história, foi o próprio Agostinho de Hipona, que nos legou esta análise em outra de suas obras, a Cidade de Deus.
Agostinho e a raiz do conflito – dois amores, duas cidades
O livro A Cidade de Deus é a resposta apologética a um fato histórico: em 410 d.C., Alarico liderou os visigodos numa avassaladora invasão de Roma. Muitos se desiludiram do cristianismo e acharam que o Evangelho ruiu junto com a cidade, pois erroneamente identificavam Roma com a Cidade de Deus. Roma, aliás, era alcunhada pelo poeta Albius Tibullus de Urbs Aeterna, “a cidade eterna” desde o século 1 a.C., o que refletia a ideia que se tinha de Roma como uma cidade imperecível. Mas o fato é que ela pereceu.
Agostinho inicia a obra defendendo o cristianismo das acusações pagãs de que a fé cristã teria causado a queda do Império Romano. Agostinho argumenta que a verdadeira paz não vem dos deuses pagãos, e, neste contexto, propõe uma leitura da história baseada não em eventos políticos — que estão na superfície da experiência humana — mas uma leitura da história baseada no que habita e dirige o coração humano e o faz agir dessa ou daquela maneira.
No livro XIV, seção 28, em A Cidade de Deus, Agostinho assim escreve:
Dois amores fundaram duas cidades:
o amor próprio, que leva ao desprezo de Deus,
fundou a cidade terrena;
o amor a Deus, que leva ao desprezo de si próprio,
fundou a cidade celestial.
“Duas cidades foram fundadas por dois amores”. Essa afirmação desloca completamente o foco da análise do que aconteceu com Roma em 410 d.C. O problema central não está exatamente ou apenas nas estruturas ou fenômenos visíveis (a invasão e o colapso de Roma), mas no tipo de amor que habita e governa o coração humano (e que motivou a invasão dos visigodos e desencadeou medo e desilusão nos habitantes de Roma). Agostinho lê o episódio na perspectiva de “duas cidades” e “dois amores”.
A cidade de Deus é formada por aqueles que amam a Deus a ponto de ser submissos a ele. A cidade de Deus tem origem na graça divina, é eterna e sua plenitude é escatológica, ou seja, só será conhecida no derradeiro dia.
A cidade dos homens, por sua vez, é composta por aqueles que amam tanto a si mesmos que desprezam a Deus. A cidade dos homens é marcada pelo pecado, por egoísmo e ambição; é temporal e transitória.
Para Agostinho, o cristão pertence realmente à cidade de Deus, mas vive historicamente na cidade terrena, a cidade dos homens.
E as duas cidades estão “misturadas” no tempo presente. Dentro da Igreja visível há muitos que, no fundo, vivem como cidadãos da cidade terrena. Fora da Igreja visível há pessoas que, por vezes impedidas de participar de uma igreja constituída, por graça de Cristo e conhecendo-o, pertencem à cidade de Deus. A separação final só ocorrerá no dia do juízo, quando joio e trigo coexistentes em todas as esferas humanas, forem triados. Até lá, vivemos em uma misteriosa coexistência.
O cristão participa da vida política, social e cultural, mas seu fim último é celestial. Assim, a dupla cidadania é escatológica e espiritual: a identidade última do cristão está na Cidade de Deus, embora ele peregrine neste mundo usando seus talentos e bens temporais como meios para o fim eterno.
Isso significa que nenhuma ordem histórica pode ser absolutizada – nem Roma!, e a paz não pode ser reduzida a engendração institucional.
O cristão não pode olhar para qualquer instituição terrena, por mais nobre que seja, e dizer: “Isto é a cidade de Deus”. Nem pode fugir da realidade temporal como se o mundo fosse integralmente a cidade dos homens, pois é no mundo que se semeia o Evangelho da redenção – a Palavra que apazigua o coração e transforma a vida.
Começamos a tocar aqui na dupla cidadania. Chamemos Lutero à conversa.
Lutero e os dois reinos – governo espiritual e governo temporal
No século 16, Martinho Lutero desenvolveu o ensino dos “Dois Reinos” (Zwei-Reiche-Lehre), tema especialmente presente em escritos como Da Autoridade Secular, de 1523. Sua abordagem oferece uma chave complementar para entender a dupla cidadania.
Enquanto Agostinho fala de “dois amores” e “duas cidades”, Lutero fala de “dois reinos”: o espiritual e o temporal.
O reino espiritual (ou reino de Deus, da “mão direita”) é governado por Cristo por meio do Evangelho, é regido pela Palavra e pelos Sacramentos (Batismo e Comunhão), produz fé e não usa coerção ou força física.
O reino temporal (ou reino do mundo, da “mão esquerda”) também é governado por Deus, que o faz por meio da lei, da espada e das autoridades civis, mantendo ordem e justiça externa, lidando com o pecado no mundo, tentando refreá-lo. A autoridade secular tem como finalidade preservar a paz, punir injustiças e conter o mal, sendo instituída pelo próprio Deus, como destacado por Paulo em Romanos 13. No entanto, o poder das autoridades no Reino temporal é limitado ao que é externo — ao corpo e aos bens —, não podendo interferir na fé ou na salvação da alma — e justamente aqui temos o fundamento da liberdade religiosa.
É nesse pano de fundo que o conceito de vocação, desenvolvido por Lutero em Da Liberdade Cristã (1520), ganha destaque: Deus chama cada pessoa a servi-lo no mundo por meio de seus papéis sociais e ocupações cotidianas — na família, no trabalho e no governo — transformando atividades comuns em meios de amor ao próximo.
Para Lutero, o cristão é simultaneamente justificado pela fé (sendo, portanto, um cidadão do Reino espiritual) e sujeito às autoridades civis (sendo, por sua vez, cidadão do Reino temporal). Em Da Liberdade Cristã, Lutero escreve que o cristão é “senhor livre sobre todas as coisas” pela fé e “servo de todos” por amor a Deus no mundo. O cristão vive ao mesmo tempo nos dois Reinos: ele pertence ao Reino de Deus, mas se submete à autoridade civil por amor ao próximo e respeito à ordem estabelecida, exceto quando a autoridade civil contraria a vontade divina — como lembra Pedro em Atos 5.29:
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”.
Assim, Lutero apresenta a dupla cidadania na perspectiva funcional e vocacional: o soberano e misericordioso Deus governa o mundo de dois modos, e o cristão já reflete aqui e agora os valores do Reino eterno. Ali onde Deus o colocou, com tudo o que ele é e o que Deus lhe deu, o cristão serve a Deus sendo boca, pés e braços de Cristo no mundo. Faz isso não para ganhar o céu, mas por já ser cidadão de lá, o que Lutero volta e meia expressava neste mote:
“Deus não precisa das suas boas obras, mas o seu próximo precisa.”
Assim, mesmo o trabalho cotidiano mais ordinário e humilde (como lavar os pés de alguém, dar-lhe um copo de água fria ou trocar a fralda de um bebê) torna-se serviço a Deus no próximo, e faz de cada cristão um precioso instrumento de Deus no mundo.
O conceito de vocação em Lutero quebra o paradigma da época, dignificando todas as atividades humanas e nivelando-as como serviço a Deus. Os monges e pregadores são, portanto, tão úteis no Reino, quanto a mãe que amamenta, limpa e educa os seus filhos no lar. E todas as ciências e artes úteis, alinhadas com o Evangelho, e não somente a teologia, podem e devem ser cultivadas entre as pessoas. Isso faz da vocação cristã uma vivência concreta da dupla cidadania dos filhos de Deus em sua jornada neste mundo. Servir a Deus no próximo é cumprir o que Cristo fez e pede de nós no Evangelho.
Neste sentido, é libertador refletir sobre a dupla cidadania. Mas a prática de tudo o que estamos vendo ou recordando aqui também traz suas complexidades e desafios.
Dois erros – sacralizar o mundo e abandoná-lo
Sempre houve, há e haverá o risco de o cristão confundir as duas cidadanias. Tanto Agostinho quanto Lutero ajudam a evitar dois erros opostos, mas igualmente perigosos.
O primeiro erro é sacralizar o que é temporal. Isso acontece quando o cristão passa a identificar um projeto político com o Reino de Deus, uma cultura específica com o cristianismo ou um partido com a vontade divina. Como Agostinho já alertava: a Cidade de Deus não se identifica com nenhum império histórico. Quando Roma caiu, Agostinho respondeu: Roma nunca foi a Cidade de Deus! Confundir a cidade terrena com a Cidade de Deus pode levar à idolatria político-ideológica.
Lutero complementa esse alerta. Deus governa o mundo de dois modos distintos — pelo Evangelho (fé, perdão, salvação) e pela Lei e pela espada (ordem civil). Seria equivocado tentar usar o Estado para converter pessoas, impor fé por coerção ou transformar o Evangelho em programa político. Muito embora os princípios cristãos sejam sempre bênção para toda e qualquer sociedade que persiga a paz e o bem, não podemos misturar a Lei e o Evangelho como instrumentos de poder religioso, sob pena de distorcer o próprio Evangelho.
O segundo erro — igualmente perigoso — é abandonar o mundo. Isso ocorre quando reduzimos a fé a uma espiritualidade desencarnada, quando dizemos que “minha cidadania é só celestial; o mundo não importa”. Essa postura leva ao desprezo da política, à fuga das responsabilidades sociais e à espiritualidade alienada, lembrando a atitude dos eremitas e monges que viam no isolamento social um fator de santificação ascética, numa clara influência platônica de cultivar o espírito e desprezar a matéria e o corpo.
Lutero insiste, ao contrário, na vocação ativa no mundo, numa fé ativa em amor. Para Lutero, a fé sem obras não é fé verdadeira, e as obras do cristão incluem servir ao próximo exatamente onde Deus o colocou — na família, no trabalho, na vizinhança e na cidade, vivendo ali sua vocação de servir a Deus no semelhante. Logo, fugir do mundo não é santidade; é covardia disfarçada de piedade.
Agostinho repudia a fuga do mundo. Lutero insiste no exercício da vocação cristã no cotidiano. A dupla cidadania não significa duplicidade de vida, mas responsabilidade ética em dois âmbitos. A sabedoria cristã, portanto, está no equilíbrio: nem idolatrar o mundo, nem abandoná-lo. Nem fugir do mundo nem nos perdermos nele. Servimos na cidade terrena com os olhos fixos na Cidade eterna.
A confusão das cidadanias acontece porque o coração humano busca segurança visível, poder concreto e vitórias imediatas. É mais fácil confiar em estruturas humanas do que na promessa invisível de Deus. O núcleo do problema não é político — é teológico. É trocar o Cristo crucificado pelo poder visível, é trocar a esperança escatológica pela conquista imediata, é trocar o Reino vindouro pela força que já está. A maturidade cristã consiste em viver plenamente neste mundo sem pertencer ultimamente a ele, servindo na cidade terrena enquanto se espera a Cidade eterna.
Ambos, Agostinho e Lutero, rejeitam tanto a sacralização do Estado (teocracia) quanto a retirada do cristão da vida pública (alienação).

Privilégio, peso e responsabilidade – a coerência da dupla cidadania
Apesar do peso e da responsabilidade, a dupla cidadania é sobretudo um privilégio. A vida é um privilégio, e vive em plenitude quem vive em paz com Deus, consciente dessa dupla pertença. Agostinho nos lembra: nenhuma cidade terrena é a Cidade de Deus — mas é nelas, nas cidades e vilas, que Deus nos chama a amar. Lutero, por sua vez, nos dá coragem para o engajamento responsável no mundo. Juntos, Agostinho e Lutero nos oferecem uma espécie de mapa para a jornada cristã: com Agostinho, não confundimos as cidades; com Lutero, não fugimos do mundo — e assim podemos ser cidadãos do céu atuantes na terra.
Trata-se de uma questão de integridade: sou chamado a ser cristão 24/7, e não somente nas poucas horas que passo na igreja ou no pequeno grupo na companhia de outros cristãos. A dupla cidadania envolve consciência, caráter e prática diária — tudo junto. É um chamado à coerência plena entre o que se crê e o que se vive, sem dualismos nem fugas. Nem a cruz sem o mundo, nem o mundo sem a cruz — mas ser cristão na cidade, com os olhos no céu. Essa tensão não é desconfortável, mas criativa. É ela que nos impede tanto de nos tornarmos fanáticos quanto de nos tornarmos omissos.
Paz na terra – uma prática social encarnada
Jesus afirma: “Bem-aventurados os pacificadores” (Mt 5.9). E Hebreus exorta: “Procurem viver em paz com todos” (Hb 12.14). A paz cristã não é passiva — é ativa, relacional e encarnada. Ser pacificador não significa ser omisso diante do mal, nem confundir paz com apaziguamento da injustiça. O pacificador bíblico é aquele que, movido pelo amor de Cristo, age para restaurar o que está quebrado — relacionamentos, famílias, comunidades, instituições. Ele não foge do conflito, mas enfrenta o conflito com as armas da verdade, da justiça e da misericórdia.
Aqui é importante lembrar que a paz social, para o cristão, nunca é um fim em si mesma. Ela é um meio para a glorificação de Deus e para o florescimento humano. Uma paz que silencia o Evangelho ou que exige a omissão da verdade não é a paz de Cristo — é uma paz de cemitério, onde não há barulho porque não há vida. A verdadeira paz cristã é barulhenta como uma criança que brinca, é laboriosa como um agricultor que planta, é corajosa como um pastor que enfrenta o lobo. A verdadeira paz cristã não se contenta com tréguas falsas, mas busca reconciliação genuína.
Na prática, isso significa que o cristão é chamado a ser um agente ativo de paz onde quer que esteja. No bairro, ele promove o diálogo em vez da fofoca. No trabalho, ele constrói pontes em vez de abismos e muros. Na política, ele busca o bem comum antes do partidarismo. Na família, ele cultiva o perdão em vez da mágoa. Pequenos gestos, repetidos com fidelidade e corretamente motivados, constroem a paz social.
E neste ponto nos ajudará revisitar os termos bíblicos shalom e eirene para calibrar nossa cosmovisão sobre a paz e nossas práticas de paz.
Shalom e eirene – as duas faces da paz bíblica
A paz bíblica (shalom, em hebraico, do verbo leshalem, “encher”) envolve plenitude, justiça, reconciliação e bem-estar. Shalom não é ausência de guerra, mas presença de vida restaurada, plena, cheia de tudo o que é bom. É o jardim do Éden funcionando em perfeita harmonia, é a Nova Jerusalém onde Deus habita com os seus. Shalom é paz com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a criação. É paz integral, cósmica, escatológica, plena.
Já vimos en passant que o termo grego eirene reforça essa ideia ao acrescentar um matiz existencial: eirene é estar em equilíbrio, com o coração sereno e cheio de coragem, mesmo em meio aos conflitos. Não é a paz dos túmulos, mas a paz dos mártires — aquela paz que permite a Estêvão orar por seus algozes enquanto é apedrejado; é a paz que permite a Paulo e Silas cantar louvores na prisão; é a paz que permite a milhares de cristãos ao longo da história enfrentar a morte com serenidade. Eirene é a paz que não nega a realidade da luta, mas transcende a luta porque sabe Quem venceu.
Quando combinamos shalom e eirene, temos uma visão animadora: a paz cristã é ao mesmo tempo abrangente (plenitude em tudo e tudo em plenitude) e íntima (o coração em harmonia e equilíbrio). O cristão que compreende isso não é ingênuo diante do mal, nem desesperado diante da crise. Alicerçado sobre o Evangelho de Cristo, o cristão age para promover o shalom onde pode, enquanto cultiva eirene dentro de si. E essa combinação o torna inabalável. Shalom restaura o mundo; eirene sustenta o coração. Shalom e eirene estão personificadas no Cristo ressurreto, que ao reencontrar os discípulos, os saúda com a paz ao mesmo tempo em que lhes dá uma missão, ao dizer:
— Que a paz esteja com vocês!
Assim como o Pai me enviou,
eu também envio vocês. (Jo 20.21)
Bonhoeffer e a dupla cidadania na prática – cidadãos do céu, atuantes na terra
Retornemos, agora, a Dietrich Bonhoeffer, um personagem de nossa história que lidou de perto com os dilemas relacionados à missão irênica outorgada por Cristo aos seus seguidores.
Dietrich Bonhoeffer viveu no conturbado período que vai de 1906 a 1945, sendo ele próprio um mártir do Terceiro Reich já no ocaso do conflito. Em agosto de 1932, a Liga das Nações (organização antecessora da ONU), promoveu em Genebra, na Suíça, mais uma rodada da bem intencionada mas fracassada Conferência pelo Desarmamento, na qual malogrou a tentativa de evitar uma segunda grande guerra na Europa por meio da redução de exércitos e armamentos. Em dezembro de 1932, tendo este fracasso como pano de fundo, Dietrich Bonfhoeffer proferiu uma conferência com o título “Christus und Frieden” (“Cristo e paz”) na Associação Cristã de Estudantes, em Berlim.
Em “Cristo e paz”, Bonhoeffer se baseia essencialmente no Sermão do Monte, e sugere que o mesmo só é lido corretamente quando o lemos “com a alma simples”. Nesta parte final de nossa preleção, permitam-me destacar uns poucos trechos desse documento embrionário da arguta teologia de Bonhoeffer, com conceitos e temas que ele desenvolverá em obras posteriores, como na célebre “Nachfolge” (“Discipulado”). Acerca da fragilidade da paz imposta e da paz de Cristo, no contexto do fracasso da reunião antiarmamentista de Genebra, Bonhoeffer acaba tocando nos principais pontos que comentamos na conferência dessa manhã, se não, vejamos:
“As autoridades humanas, que tentaram estabelecer a paz sobre uma base política, agora naufragaram novamente. E seria bom refletir sobre isso e não achar esse fato extraordinário demais, pois as instâncias terrenas são sempre produzidas por seres humanos e, portanto, não têm uma autoridade absoluta. Existe uma única autoridade que falou de modo vinculante sobre esses problemas, e se trata de Jesus Cristo.
(...)
Na realidade, Cristo não deu regras de conduta para todas as situações complicadas individuais que se apresentam na vida das pessoas, no nível político, econômico ou qualquer outro. Mas isso não significa que a mensagem de Jesus Cristo não diga nada de claro sobre os problemas que estão diante de nós. Para quem o lê com alma simples, o Sermão do Monte diz coisas absolutamente inequívocas.
Para Cristo, o que importa não é mudar as condições deste mundo em nome da segurança e da tranquilidade. Menos ainda devemos acreditar que podemos eliminar com tratados políticos aquele pecado público que são os horrores da guerra. Enquanto o mundo abrir mão de Deus, as guerras existirão.
Para Cristo, é muito mais importante que nós amemos a Deus, que nos coloquemos naquele discipulado de Jesus ao qual somos chamados com a promessa das bem-aventuranças (Mateus 5.3-12), e que, fazendo isso, sejamos testemunhas da paz.
(...)
Portanto, não há possibilidades humanas de estabelecer a paz, de organizá-la. Pelo contrário, tal tentativa humana por vias políticas pode representar justamente, mais uma vez, a dominação de um autocrata, e pode ser pecado. Não existe uma paz assegurada. O cristão pode apenas ousar a paz a partir da fé. Não existe, portanto, nenhuma confraternização direta entre os seres humanos, há apenas o fato de ir ao encontro do inimigo mediante a oração dirigida ao Senhor por todos os povos.
A nós, cristãos, é dirigida a palavra segundo o mandamento do amor, acima de tudo para que estejamos pessoalmente em paz com qualquer pessoa, assim como Cristo quando pregava a paz à comunidade, exemplificando a paz com o irmão, com o próximo, com o samaritano. Sem estarmos nós mesmos nessa paz, não conseguimos pregar a paz aos povos.
Portanto, quando tivermos que falar sobre as coisas relativas à paz, sempre teremos em mente que as relações entre dois povos têm uma profunda analogia com as relações entre duas pessoas individuais. As coisas que se contrapõem à paz são, em ambos os níveis, a ânsia de poder, o orgulho, o desejo de glória e de honra, a presunção e o sentimento de inferioridade, o medo das pessoas e, depois, a luta por um lugar ao sol e pelo pão.
Paz com quem? A paz autêntica é só em Deus e vem de Deus. Essa paz nos é dada com Cristo, ou seja: a paz está indissoluvelmente ligada ao Evangelho.
É um trecho absolutamente denso e repleto de lições. Reservei-o para o final porque Bonhoeffer – leitor apaixonado que foi de Agostinho e de Lutero – recapitula nestes excertos muito do que aqui trouxemos. Assim, Bonfoeffer nos serve tanto de fecho quanto de síntese. A partir dele, calcado em Agostinho e em Lutero, e todos no Evangelho, ouso depreender e compartilhar com vocês, nestes minutos finais, algumas lições práticas sobre a paz social no contexto da dupla cidadania cristã.
Eis as lições que pouco a pouco foram se descortinando durante o preparo desta preleção:
1. Não coloquemos nossa esperança final em soluções políticas para a paz; recorramos às soluções políticas com responsabilidade, mas sem idolatria nem fanatismo.
2. Reconheçamos que conflitos externos têm raízes espirituais; tratemos também do coração, não só das estruturas.
3. Leiamos e apliquemos o Sermão do Monte na vida cotidiana, mesmo quando parecer “ingênuo” demais aos olhos do mundo.
4. Priorizemos nosso relacionamento com Deus como fundamento de qualquer ação em favor da paz.
5. Entendamos que não controlamos os resultados históricos; nossa tarefa é ser fiéis a Deus num mundo carente de sentido e transformação.
6. Pratiquemos a paz nas relações pessoais antes de querermos promovê-la em larga escala.
7. Examinemos em nós mesmos atitudes que geram conflito: orgulho, medo, desejo de reconhecimento ou poder, e reflitamos que tipo de amor tem norteado nossos pensamentos, atitudes e ações.
8. Tratemos o outro — inclusive o adversário — com disposição real de reconciliação sincera e verdadeira.
9. Oremos não apenas pelo próximo, mas também por pessoas, grupos e povos com quem há tensão.
10. Evitemos a ilusão de uma “paz garantida”; aprendamos a viver com responsabilidade em um mundo imperfeito.
11. Atuemos no mundo (política, sociedade, trabalho), mas sem confundir nossa fé com um projeto de poder.
12. Vejamos nossa profissão e nossos papéis sociais como espaços concretos de testemunho da paz.
13. Aceitemos que viver a paz cristã envolve risco, vulnerabilidade e renúncia.
14. Busquemos coerência entre nossa vida pessoal e nosso discurso público sobre paz.
15. Lembremos de que a verdadeira paz não é produzida por nós, mas recebida de Deus e refletida aos outros.
Dupla cidadania – um poema à paz
Meu coração inquieto clama:
vem me dar a tua paz,
que excede o meu pensar.
Dispenso a trégua frágil,
que o mundo quer me dar.
Peço a tua eirene,
que na luta faz ficar.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
te servir no próximo
— este é o meu viver.
Ensina meu coração
a se acalmar em ti.
Que o amor egoísta morra
e o teu amor
— o amor de Cristo
— brilhe em mim.
Não fugir do mundo
nem no mundo me perder,
te servir em tudo
— este é o meu viver.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
te servir no próximo
— este é o meu viver.
Onde há um abismo,
uma ponte eu quero ser.
Onde há guerra,
teu shalom quero trazer.
Não pela espada,
não pelo poder,
mas pela fé
que faz teu amor perceber.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
Te servir no próximo
— este é o meu viver.
Cidadão do céu
atuante na terra de meu Deus.
Amém.
Nem você nem eu somos capazes de construir o paraíso na terra, mas vivamos de tal forma que apontemos para ele – ousando a paz de Cristo em um mundo que ainda não pode garanti-la.
Naquela noite em que o Filho de Deus veio habitar entre nós, Deus usou anjos como mensageiros da paz. Deus conta conosco para que uma cultura de paz se encarne em nossa realidade cotidiana. A paz de Cristo esteja conosco e nos acompanhe. No que depender de nós, cidadãos do céu, haja paz na terra.
O conteúdo deste artigo foi apresentado na abertura do Congresso Legado Cristão 2026, no Memorial da América Latina, em São Paulo, SP.
Imagem: Unsplash.
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Por Paulo Teixeira
A sede de paz no mundo e no coraçãoSede de paz. Esta expressão resumiria bem o difícil momento que a humanidade atravessa em nossos dias. Momento, aliás, não traduz bem a situação que já vem de longe. Desde que a paz foi abalada pela primeira vez, ainda no Éden. E desde lá, a vida humana é precária.
Há um embate constante diante de nós: cultura de vida versus cultura de morte, cultura de reconciliação versus cultura de conflito. Esse cenário se manifesta nas tensões políticas, nas crises sociais, nas 7 guerras e nos cerca de 120 conflitos armados em curso no mundo e, de modo mais íntimo, nas rupturas familiares e nas inquietações do coração humano.
É nesse contexto que somos chamados a refletir sobre paz social — não como um ideal conceitual e metafísico, mas como uma realidade que brota da fé cristã e se expressa na vida concreta. O cristão não é alguém que foge do mundo, mas alguém que nele vive como embaixador do céu.
Nossa reflexão se desenvolverá a partir de três movimentos:
. a paz que vem de Deus como fundamento teológico;
. a paz que transforma o indivíduo em sua dimensão existencial;
. a paz que se encarna na sociedade como dimensão pública e cidadã.
Ao longo desse percurso, mergulharemos na Bíblia e dialogaremos especialmente com três gigantes da fé cristã: Agostinho de Hipona, Martinho Lutero e Dietrich Bonhoeffer.
Antes, porém, de iniciar essa jornada, é preciso compreender que a paz que o mundo oferece é tão frágil quanto um precário cessar-fogo, que tão logo é firmado já começa a ser rompido. Já a paz que Deus oferece é profunda como uma raiz. E é dessa raiz firmada em Deus que brotará tudo o que diremos.
“Paz na terra” – a paz que vem de Deus
O anúncio dos anjos em Lucas 2.14 ecoa como fundamento de toda a teologia da paz:
“Glória a Deus nas alturas
e paz na terra
entre os homens a quem ele quer bem.”
Essa paz não nasce da organização humana, nem da engenharia política. Ela nasce do ato redentor de Deus em Cristo. O menino da manjedoura é o mesmo que carregará a cruz. Como expressa Lutero ao tratar da obra substitutiva de Cristo, nossa redenção culmina na "morte da morte", sendo a cruz e o túmulo aberto o meio, o momento e o terreno no qual Deus derrota o próprio mal em nosso lugar (cf. Da Liberdade Cristã e sermões cristológicos).
O profeta Isaías já antecipava isso ao dizer:
“O castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Isaías 53.5).
Portanto, na perspectiva bíblica, a paz começa na reconciliação com Deus. Como escreve o apóstolo Paulo em Romanos 5.1:
“Justificados, pois, mediante a fé,
temos paz com Deus
por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Aqui é oportuno introduzir uma distinção fundamental que nos acompanhará até o fim. Os gregos antigos tinham uma palavra preciosa para a paz: eirene. Diferente de mera ausência de guerra, eirene descreve um estado de equilíbrio interior, no qual o coração permanece sereno e cheio de coragem mesmo em meio a conflitos. Eirene é a paz do guerreiro que descansa em Deus antes da batalha, não a paz do covarde que foge do campo. O apóstolo Paulo usa eirene ao escrever:
“E a paz de Deus (eirene toú Theú), que excede todo entendimento,
guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” (Fp 4.7).
Eirene é a serenidade que não nega a tempestade, mas permanece firme porque sua âncora está no céu. É essa paz que Deus derrama no coração daquele que crê — uma paz que não depende das circunstâncias, mas da presença de Cristo.
A paz que transforma – do coração à existência
Mas essa paz não permanece no plano abstrato. Ela aterrissa no coração humano. Aqui encontramos uma profunda conexão com Agostinho de Hipona, especialmente em suas Confissões, obra escrita por volta de 397 d.C., a primeira obra do Ocidente escrita em primeira pessoa, uma “teologia genuflexa” que mescla autobiografia, teologia e filosofia. As Confissões começam assim:
“Nosso coração está inquieto até que descanse em ti” (Confissões, I.1).
Agostinho descreve a condição humana como marcada pela inquietação. E essa inquietação nasce de um coração desordenado. A paz verdadeira exige reordenação ou realinhamento do coração. Quando Cristo nos liberta de nosso egoísmo e molda a nossa mente, nosso coração encontra o seu eixo, e “amar a Deus acima de tudo” e “amar ao próximo como a nós mesmos” começa a fazer parte da nossa existência, norteando nossa cosmovisão. Mas sem Cristo nos libertar, continuamos escravos de nós mesmos e de nossas paixões, amando as coisas criadas como se fossem o Criador. E enquanto nosso coração não descansar em Deus, vivemos em desassossego.
Essa transformação interior encontra eco na reflexão de Dietrich Bonhoeffer, uma voz profética marcante do século 20, especialmente em sua conferência Christus und Frieden (Cristo e Paz), de 1932. Vamos voltar a este escrito de Bonhoeffer mais para a frente, mas adianto este excerto por oportuno que se faz para o desenvolvimento de nosso raciocínio. Bonhoeffer assim escreve:
“Sem estarmos nós mesmos nessa paz,
não conseguimos pregar a paz aos povos.”
Ninguém dá o que não tem. Se queremos paz no mundo, precisamos ser agentes de paz, e para sermos agentes de paz, precisamos primeiro que a paz de Cristo habite em nós. Essa habitação não é um estado místico vago, mas um retorno diário ao primeiro amor de Cristo em nós, uma decisão de render diariamente o coração a Deus, de ajoelhar-se a cada dia perante ele, pedindo e permitindo que o Criador reordene nossos sentimentos e afetos, nossos medos, paixões e ambições.
De Agostinho e de Bonhoeffer aprendemos que a paz social começa dentro de cada um de nós, um a um. Não podemos exigir harmonia nas ruas ou no lar se carregamos guerras no peito. A transformação exterior é fruto de uma profunda revolução interior — aquela que ocorre quando o Espírito Santo nos convence do pecado, da justiça e do juízo, e nos conduz ao arrependimento e à fé.
Pois bem, se a paz verdadeira nasce da reordenação do coração, o que acontece quando esse mesmo coração permanece desordenado? É exatamente aí que emergem os conflitos que estremecem a história humana, conflitos de longe e conflitos de perto. Tais conflitos são sintomas de um mal muito mais profundo. Quem o diagnosticou com mais agudeza, a partir da Bíblia e da história, foi o próprio Agostinho de Hipona, que nos legou esta análise em outra de suas obras, a Cidade de Deus.
Agostinho e a raiz do conflito – dois amores, duas cidades
O livro A Cidade de Deus é a resposta apologética a um fato histórico: em 410 d.C., Alarico liderou os visigodos numa avassaladora invasão de Roma. Muitos se desiludiram do cristianismo e acharam que o Evangelho ruiu junto com a cidade, pois erroneamente identificavam Roma com a Cidade de Deus. Roma, aliás, era alcunhada pelo poeta Albius Tibullus de Urbs Aeterna, “a cidade eterna” desde o século 1 a.C., o que refletia a ideia que se tinha de Roma como uma cidade imperecível. Mas o fato é que ela pereceu.
Agostinho inicia a obra defendendo o cristianismo das acusações pagãs de que a fé cristã teria causado a queda do Império Romano. Agostinho argumenta que a verdadeira paz não vem dos deuses pagãos, e, neste contexto, propõe uma leitura da história baseada não em eventos políticos — que estão na superfície da experiência humana — mas uma leitura da história baseada no que habita e dirige o coração humano e o faz agir dessa ou daquela maneira.
No livro XIV, seção 28, em A Cidade de Deus, Agostinho assim escreve:
Dois amores fundaram duas cidades:
o amor próprio, que leva ao desprezo de Deus,
fundou a cidade terrena;
o amor a Deus, que leva ao desprezo de si próprio,
fundou a cidade celestial.
“Duas cidades foram fundadas por dois amores”. Essa afirmação desloca completamente o foco da análise do que aconteceu com Roma em 410 d.C. O problema central não está exatamente ou apenas nas estruturas ou fenômenos visíveis (a invasão e o colapso de Roma), mas no tipo de amor que habita e governa o coração humano (e que motivou a invasão dos visigodos e desencadeou medo e desilusão nos habitantes de Roma). Agostinho lê o episódio na perspectiva de “duas cidades” e “dois amores”.
A cidade de Deus é formada por aqueles que amam a Deus a ponto de ser submissos a ele. A cidade de Deus tem origem na graça divina, é eterna e sua plenitude é escatológica, ou seja, só será conhecida no derradeiro dia.
A cidade dos homens, por sua vez, é composta por aqueles que amam tanto a si mesmos que desprezam a Deus. A cidade dos homens é marcada pelo pecado, por egoísmo e ambição; é temporal e transitória.
Para Agostinho, o cristão pertence realmente à cidade de Deus, mas vive historicamente na cidade terrena, a cidade dos homens.
E as duas cidades estão “misturadas” no tempo presente. Dentro da Igreja visível há muitos que, no fundo, vivem como cidadãos da cidade terrena. Fora da Igreja visível há pessoas que, por vezes impedidas de participar de uma igreja constituída, por graça de Cristo e conhecendo-o, pertencem à cidade de Deus. A separação final só ocorrerá no dia do juízo, quando joio e trigo coexistentes em todas as esferas humanas, forem triados. Até lá, vivemos em uma misteriosa coexistência.
O cristão participa da vida política, social e cultural, mas seu fim último é celestial. Assim, a dupla cidadania é escatológica e espiritual: a identidade última do cristão está na Cidade de Deus, embora ele peregrine neste mundo usando seus talentos e bens temporais como meios para o fim eterno.
Isso significa que nenhuma ordem histórica pode ser absolutizada – nem Roma!, e a paz não pode ser reduzida a engendração institucional.
O cristão não pode olhar para qualquer instituição terrena, por mais nobre que seja, e dizer: “Isto é a cidade de Deus”. Nem pode fugir da realidade temporal como se o mundo fosse integralmente a cidade dos homens, pois é no mundo que se semeia o Evangelho da redenção – a Palavra que apazigua o coração e transforma a vida.
Começamos a tocar aqui na dupla cidadania. Chamemos Lutero à conversa.
Lutero e os dois reinos – governo espiritual e governo temporal
No século 16, Martinho Lutero desenvolveu o ensino dos “Dois Reinos” (Zwei-Reiche-Lehre), tema especialmente presente em escritos como Da Autoridade Secular, de 1523. Sua abordagem oferece uma chave complementar para entender a dupla cidadania.
Enquanto Agostinho fala de “dois amores” e “duas cidades”, Lutero fala de “dois reinos”: o espiritual e o temporal.
O reino espiritual (ou reino de Deus, da “mão direita”) é governado por Cristo por meio do Evangelho, é regido pela Palavra e pelos Sacramentos (Batismo e Comunhão), produz fé e não usa coerção ou força física.
O reino temporal (ou reino do mundo, da “mão esquerda”) também é governado por Deus, que o faz por meio da lei, da espada e das autoridades civis, mantendo ordem e justiça externa, lidando com o pecado no mundo, tentando refreá-lo. A autoridade secular tem como finalidade preservar a paz, punir injustiças e conter o mal, sendo instituída pelo próprio Deus, como destacado por Paulo em Romanos 13. No entanto, o poder das autoridades no Reino temporal é limitado ao que é externo — ao corpo e aos bens —, não podendo interferir na fé ou na salvação da alma — e justamente aqui temos o fundamento da liberdade religiosa.
É nesse pano de fundo que o conceito de vocação, desenvolvido por Lutero em Da Liberdade Cristã (1520), ganha destaque: Deus chama cada pessoa a servi-lo no mundo por meio de seus papéis sociais e ocupações cotidianas — na família, no trabalho e no governo — transformando atividades comuns em meios de amor ao próximo.
Para Lutero, o cristão é simultaneamente justificado pela fé (sendo, portanto, um cidadão do Reino espiritual) e sujeito às autoridades civis (sendo, por sua vez, cidadão do Reino temporal). Em Da Liberdade Cristã, Lutero escreve que o cristão é “senhor livre sobre todas as coisas” pela fé e “servo de todos” por amor a Deus no mundo. O cristão vive ao mesmo tempo nos dois Reinos: ele pertence ao Reino de Deus, mas se submete à autoridade civil por amor ao próximo e respeito à ordem estabelecida, exceto quando a autoridade civil contraria a vontade divina — como lembra Pedro em Atos 5.29:
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”.
Assim, Lutero apresenta a dupla cidadania na perspectiva funcional e vocacional: o soberano e misericordioso Deus governa o mundo de dois modos, e o cristão já reflete aqui e agora os valores do Reino eterno. Ali onde Deus o colocou, com tudo o que ele é e o que Deus lhe deu, o cristão serve a Deus sendo boca, pés e braços de Cristo no mundo. Faz isso não para ganhar o céu, mas por já ser cidadão de lá, o que Lutero volta e meia expressava neste mote:
“Deus não precisa das suas boas obras, mas o seu próximo precisa.”
Assim, mesmo o trabalho cotidiano mais ordinário e humilde (como lavar os pés de alguém, dar-lhe um copo de água fria ou trocar a fralda de um bebê) torna-se serviço a Deus no próximo, e faz de cada cristão um precioso instrumento de Deus no mundo.
O conceito de vocação em Lutero quebra o paradigma da época, dignificando todas as atividades humanas e nivelando-as como serviço a Deus. Os monges e pregadores são, portanto, tão úteis no Reino, quanto a mãe que amamenta, limpa e educa os seus filhos no lar. E todas as ciências e artes úteis, alinhadas com o Evangelho, e não somente a teologia, podem e devem ser cultivadas entre as pessoas. Isso faz da vocação cristã uma vivência concreta da dupla cidadania dos filhos de Deus em sua jornada neste mundo. Servir a Deus no próximo é cumprir o que Cristo fez e pede de nós no Evangelho.
Neste sentido, é libertador refletir sobre a dupla cidadania. Mas a prática de tudo o que estamos vendo ou recordando aqui também traz suas complexidades e desafios.
Dois erros – sacralizar o mundo e abandoná-lo
Sempre houve, há e haverá o risco de o cristão confundir as duas cidadanias. Tanto Agostinho quanto Lutero ajudam a evitar dois erros opostos, mas igualmente perigosos.
O primeiro erro é sacralizar o que é temporal. Isso acontece quando o cristão passa a identificar um projeto político com o Reino de Deus, uma cultura específica com o cristianismo ou um partido com a vontade divina. Como Agostinho já alertava: a Cidade de Deus não se identifica com nenhum império histórico. Quando Roma caiu, Agostinho respondeu: Roma nunca foi a Cidade de Deus! Confundir a cidade terrena com a Cidade de Deus pode levar à idolatria político-ideológica.
Lutero complementa esse alerta. Deus governa o mundo de dois modos distintos — pelo Evangelho (fé, perdão, salvação) e pela Lei e pela espada (ordem civil). Seria equivocado tentar usar o Estado para converter pessoas, impor fé por coerção ou transformar o Evangelho em programa político. Muito embora os princípios cristãos sejam sempre bênção para toda e qualquer sociedade que persiga a paz e o bem, não podemos misturar a Lei e o Evangelho como instrumentos de poder religioso, sob pena de distorcer o próprio Evangelho.
O segundo erro — igualmente perigoso — é abandonar o mundo. Isso ocorre quando reduzimos a fé a uma espiritualidade desencarnada, quando dizemos que “minha cidadania é só celestial; o mundo não importa”. Essa postura leva ao desprezo da política, à fuga das responsabilidades sociais e à espiritualidade alienada, lembrando a atitude dos eremitas e monges que viam no isolamento social um fator de santificação ascética, numa clara influência platônica de cultivar o espírito e desprezar a matéria e o corpo.
Lutero insiste, ao contrário, na vocação ativa no mundo, numa fé ativa em amor. Para Lutero, a fé sem obras não é fé verdadeira, e as obras do cristão incluem servir ao próximo exatamente onde Deus o colocou — na família, no trabalho, na vizinhança e na cidade, vivendo ali sua vocação de servir a Deus no semelhante. Logo, fugir do mundo não é santidade; é covardia disfarçada de piedade.
Agostinho repudia a fuga do mundo. Lutero insiste no exercício da vocação cristã no cotidiano. A dupla cidadania não significa duplicidade de vida, mas responsabilidade ética em dois âmbitos. A sabedoria cristã, portanto, está no equilíbrio: nem idolatrar o mundo, nem abandoná-lo. Nem fugir do mundo nem nos perdermos nele. Servimos na cidade terrena com os olhos fixos na Cidade eterna.
A confusão das cidadanias acontece porque o coração humano busca segurança visível, poder concreto e vitórias imediatas. É mais fácil confiar em estruturas humanas do que na promessa invisível de Deus. O núcleo do problema não é político — é teológico. É trocar o Cristo crucificado pelo poder visível, é trocar a esperança escatológica pela conquista imediata, é trocar o Reino vindouro pela força que já está. A maturidade cristã consiste em viver plenamente neste mundo sem pertencer ultimamente a ele, servindo na cidade terrena enquanto se espera a Cidade eterna.
Ambos, Agostinho e Lutero, rejeitam tanto a sacralização do Estado (teocracia) quanto a retirada do cristão da vida pública (alienação).

Privilégio, peso e responsabilidade – a coerência da dupla cidadania
Apesar do peso e da responsabilidade, a dupla cidadania é sobretudo um privilégio. A vida é um privilégio, e vive em plenitude quem vive em paz com Deus, consciente dessa dupla pertença. Agostinho nos lembra: nenhuma cidade terrena é a Cidade de Deus — mas é nelas, nas cidades e vilas, que Deus nos chama a amar. Lutero, por sua vez, nos dá coragem para o engajamento responsável no mundo. Juntos, Agostinho e Lutero nos oferecem uma espécie de mapa para a jornada cristã: com Agostinho, não confundimos as cidades; com Lutero, não fugimos do mundo — e assim podemos ser cidadãos do céu atuantes na terra.
Trata-se de uma questão de integridade: sou chamado a ser cristão 24/7, e não somente nas poucas horas que passo na igreja ou no pequeno grupo na companhia de outros cristãos. A dupla cidadania envolve consciência, caráter e prática diária — tudo junto. É um chamado à coerência plena entre o que se crê e o que se vive, sem dualismos nem fugas. Nem a cruz sem o mundo, nem o mundo sem a cruz — mas ser cristão na cidade, com os olhos no céu. Essa tensão não é desconfortável, mas criativa. É ela que nos impede tanto de nos tornarmos fanáticos quanto de nos tornarmos omissos.
Paz na terra – uma prática social encarnada
Jesus afirma: “Bem-aventurados os pacificadores” (Mt 5.9). E Hebreus exorta: “Procurem viver em paz com todos” (Hb 12.14). A paz cristã não é passiva — é ativa, relacional e encarnada. Ser pacificador não significa ser omisso diante do mal, nem confundir paz com apaziguamento da injustiça. O pacificador bíblico é aquele que, movido pelo amor de Cristo, age para restaurar o que está quebrado — relacionamentos, famílias, comunidades, instituições. Ele não foge do conflito, mas enfrenta o conflito com as armas da verdade, da justiça e da misericórdia.
Aqui é importante lembrar que a paz social, para o cristão, nunca é um fim em si mesma. Ela é um meio para a glorificação de Deus e para o florescimento humano. Uma paz que silencia o Evangelho ou que exige a omissão da verdade não é a paz de Cristo — é uma paz de cemitério, onde não há barulho porque não há vida. A verdadeira paz cristã é barulhenta como uma criança que brinca, é laboriosa como um agricultor que planta, é corajosa como um pastor que enfrenta o lobo. A verdadeira paz cristã não se contenta com tréguas falsas, mas busca reconciliação genuína.
Na prática, isso significa que o cristão é chamado a ser um agente ativo de paz onde quer que esteja. No bairro, ele promove o diálogo em vez da fofoca. No trabalho, ele constrói pontes em vez de abismos e muros. Na política, ele busca o bem comum antes do partidarismo. Na família, ele cultiva o perdão em vez da mágoa. Pequenos gestos, repetidos com fidelidade e corretamente motivados, constroem a paz social.
E neste ponto nos ajudará revisitar os termos bíblicos shalom e eirene para calibrar nossa cosmovisão sobre a paz e nossas práticas de paz.
Shalom e eirene – as duas faces da paz bíblica
A paz bíblica (shalom, em hebraico, do verbo leshalem, “encher”) envolve plenitude, justiça, reconciliação e bem-estar. Shalom não é ausência de guerra, mas presença de vida restaurada, plena, cheia de tudo o que é bom. É o jardim do Éden funcionando em perfeita harmonia, é a Nova Jerusalém onde Deus habita com os seus. Shalom é paz com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a criação. É paz integral, cósmica, escatológica, plena.
Já vimos en passant que o termo grego eirene reforça essa ideia ao acrescentar um matiz existencial: eirene é estar em equilíbrio, com o coração sereno e cheio de coragem, mesmo em meio aos conflitos. Não é a paz dos túmulos, mas a paz dos mártires — aquela paz que permite a Estêvão orar por seus algozes enquanto é apedrejado; é a paz que permite a Paulo e Silas cantar louvores na prisão; é a paz que permite a milhares de cristãos ao longo da história enfrentar a morte com serenidade. Eirene é a paz que não nega a realidade da luta, mas transcende a luta porque sabe Quem venceu.
Quando combinamos shalom e eirene, temos uma visão animadora: a paz cristã é ao mesmo tempo abrangente (plenitude em tudo e tudo em plenitude) e íntima (o coração em harmonia e equilíbrio). O cristão que compreende isso não é ingênuo diante do mal, nem desesperado diante da crise. Alicerçado sobre o Evangelho de Cristo, o cristão age para promover o shalom onde pode, enquanto cultiva eirene dentro de si. E essa combinação o torna inabalável. Shalom restaura o mundo; eirene sustenta o coração. Shalom e eirene estão personificadas no Cristo ressurreto, que ao reencontrar os discípulos, os saúda com a paz ao mesmo tempo em que lhes dá uma missão, ao dizer:
— Que a paz esteja com vocês!
Assim como o Pai me enviou,
eu também envio vocês. (Jo 20.21)
Bonhoeffer e a dupla cidadania na prática – cidadãos do céu, atuantes na terra
Retornemos, agora, a Dietrich Bonhoeffer, um personagem de nossa história que lidou de perto com os dilemas relacionados à missão irênica outorgada por Cristo aos seus seguidores.
Dietrich Bonhoeffer viveu no conturbado período que vai de 1906 a 1945, sendo ele próprio um mártir do Terceiro Reich já no ocaso do conflito. Em agosto de 1932, a Liga das Nações (organização antecessora da ONU), promoveu em Genebra, na Suíça, mais uma rodada da bem intencionada mas fracassada Conferência pelo Desarmamento, na qual malogrou a tentativa de evitar uma segunda grande guerra na Europa por meio da redução de exércitos e armamentos. Em dezembro de 1932, tendo este fracasso como pano de fundo, Dietrich Bonfhoeffer proferiu uma conferência com o título “Christus und Frieden” (“Cristo e paz”) na Associação Cristã de Estudantes, em Berlim.
Em “Cristo e paz”, Bonhoeffer se baseia essencialmente no Sermão do Monte, e sugere que o mesmo só é lido corretamente quando o lemos “com a alma simples”. Nesta parte final de nossa preleção, permitam-me destacar uns poucos trechos desse documento embrionário da arguta teologia de Bonhoeffer, com conceitos e temas que ele desenvolverá em obras posteriores, como na célebre “Nachfolge” (“Discipulado”). Acerca da fragilidade da paz imposta e da paz de Cristo, no contexto do fracasso da reunião antiarmamentista de Genebra, Bonhoeffer acaba tocando nos principais pontos que comentamos na conferência dessa manhã, se não, vejamos:
“As autoridades humanas, que tentaram estabelecer a paz sobre uma base política, agora naufragaram novamente. E seria bom refletir sobre isso e não achar esse fato extraordinário demais, pois as instâncias terrenas são sempre produzidas por seres humanos e, portanto, não têm uma autoridade absoluta. Existe uma única autoridade que falou de modo vinculante sobre esses problemas, e se trata de Jesus Cristo.
(...)
Na realidade, Cristo não deu regras de conduta para todas as situações complicadas individuais que se apresentam na vida das pessoas, no nível político, econômico ou qualquer outro. Mas isso não significa que a mensagem de Jesus Cristo não diga nada de claro sobre os problemas que estão diante de nós. Para quem o lê com alma simples, o Sermão do Monte diz coisas absolutamente inequívocas.
Para Cristo, o que importa não é mudar as condições deste mundo em nome da segurança e da tranquilidade. Menos ainda devemos acreditar que podemos eliminar com tratados políticos aquele pecado público que são os horrores da guerra. Enquanto o mundo abrir mão de Deus, as guerras existirão.
Para Cristo, é muito mais importante que nós amemos a Deus, que nos coloquemos naquele discipulado de Jesus ao qual somos chamados com a promessa das bem-aventuranças (Mateus 5.3-12), e que, fazendo isso, sejamos testemunhas da paz.
(...)
Portanto, não há possibilidades humanas de estabelecer a paz, de organizá-la. Pelo contrário, tal tentativa humana por vias políticas pode representar justamente, mais uma vez, a dominação de um autocrata, e pode ser pecado. Não existe uma paz assegurada. O cristão pode apenas ousar a paz a partir da fé. Não existe, portanto, nenhuma confraternização direta entre os seres humanos, há apenas o fato de ir ao encontro do inimigo mediante a oração dirigida ao Senhor por todos os povos.
A nós, cristãos, é dirigida a palavra segundo o mandamento do amor, acima de tudo para que estejamos pessoalmente em paz com qualquer pessoa, assim como Cristo quando pregava a paz à comunidade, exemplificando a paz com o irmão, com o próximo, com o samaritano. Sem estarmos nós mesmos nessa paz, não conseguimos pregar a paz aos povos.
Portanto, quando tivermos que falar sobre as coisas relativas à paz, sempre teremos em mente que as relações entre dois povos têm uma profunda analogia com as relações entre duas pessoas individuais. As coisas que se contrapõem à paz são, em ambos os níveis, a ânsia de poder, o orgulho, o desejo de glória e de honra, a presunção e o sentimento de inferioridade, o medo das pessoas e, depois, a luta por um lugar ao sol e pelo pão.
Paz com quem? A paz autêntica é só em Deus e vem de Deus. Essa paz nos é dada com Cristo, ou seja: a paz está indissoluvelmente ligada ao Evangelho.
É um trecho absolutamente denso e repleto de lições. Reservei-o para o final porque Bonhoeffer – leitor apaixonado que foi de Agostinho e de Lutero – recapitula nestes excertos muito do que aqui trouxemos. Assim, Bonfoeffer nos serve tanto de fecho quanto de síntese. A partir dele, calcado em Agostinho e em Lutero, e todos no Evangelho, ouso depreender e compartilhar com vocês, nestes minutos finais, algumas lições práticas sobre a paz social no contexto da dupla cidadania cristã.
Eis as lições que pouco a pouco foram se descortinando durante o preparo desta preleção:
1. Não coloquemos nossa esperança final em soluções políticas para a paz; recorramos às soluções políticas com responsabilidade, mas sem idolatria nem fanatismo.
2. Reconheçamos que conflitos externos têm raízes espirituais; tratemos também do coração, não só das estruturas.
3. Leiamos e apliquemos o Sermão do Monte na vida cotidiana, mesmo quando parecer “ingênuo” demais aos olhos do mundo.
4. Priorizemos nosso relacionamento com Deus como fundamento de qualquer ação em favor da paz.
5. Entendamos que não controlamos os resultados históricos; nossa tarefa é ser fiéis a Deus num mundo carente de sentido e transformação.
6. Pratiquemos a paz nas relações pessoais antes de querermos promovê-la em larga escala.
7. Examinemos em nós mesmos atitudes que geram conflito: orgulho, medo, desejo de reconhecimento ou poder, e reflitamos que tipo de amor tem norteado nossos pensamentos, atitudes e ações.
8. Tratemos o outro — inclusive o adversário — com disposição real de reconciliação sincera e verdadeira.
9. Oremos não apenas pelo próximo, mas também por pessoas, grupos e povos com quem há tensão.
10. Evitemos a ilusão de uma “paz garantida”; aprendamos a viver com responsabilidade em um mundo imperfeito.
11. Atuemos no mundo (política, sociedade, trabalho), mas sem confundir nossa fé com um projeto de poder.
12. Vejamos nossa profissão e nossos papéis sociais como espaços concretos de testemunho da paz.
13. Aceitemos que viver a paz cristã envolve risco, vulnerabilidade e renúncia.
14. Busquemos coerência entre nossa vida pessoal e nosso discurso público sobre paz.
15. Lembremos de que a verdadeira paz não é produzida por nós, mas recebida de Deus e refletida aos outros.
Dupla cidadania – um poema à paz
Meu coração inquieto clama:
vem me dar a tua paz,
que excede o meu pensar.
Dispenso a trégua frágil,
que o mundo quer me dar.
Peço a tua eirene,
que na luta faz ficar.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
te servir no próximo
— este é o meu viver.
Ensina meu coração
a se acalmar em ti.
Que o amor egoísta morra
e o teu amor
— o amor de Cristo
— brilhe em mim.
Não fugir do mundo
nem no mundo me perder,
te servir em tudo
— este é o meu viver.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
te servir no próximo
— este é o meu viver.
Onde há um abismo,
uma ponte eu quero ser.
Onde há guerra,
teu shalom quero trazer.
Não pela espada,
não pelo poder,
mas pela fé
que faz teu amor perceber.
Cidadão do céu,
na terra a caminhar,
tua paz floresça
onde eu a semear.
Dois amores lutam,
mas o teu há de vencer:
Te servir no próximo
— este é o meu viver.
Cidadão do céu
atuante na terra de meu Deus.
Amém.
Nem você nem eu somos capazes de construir o paraíso na terra, mas vivamos de tal forma que apontemos para ele – ousando a paz de Cristo em um mundo que ainda não pode garanti-la.
Naquela noite em que o Filho de Deus veio habitar entre nós, Deus usou anjos como mensageiros da paz. Deus conta conosco para que uma cultura de paz se encarne em nossa realidade cotidiana. A paz de Cristo esteja conosco e nos acompanhe. No que depender de nós, cidadãos do céu, haja paz na terra.
- Paulo Teixeira é diretor de relações institucionais da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e coordenador da Aliança Pró-Tradução da Bíblia (APTB), uma das alianças estratégicas da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB).
O conteúdo deste artigo foi apresentado na abertura do Congresso Legado Cristão 2026, no Memorial da América Latina, em São Paulo, SP.
Imagem: Unsplash.
REVISTA ULTIMATO – A ARTE PRECISA DE JUSTIFICATIVA?Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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25 de junho de 2026- Visualizações: 15
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