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Opinião

Nuremberg

Do diretor James Vanderbilt, o roteiro de Nuremberg é baseado no livro O nazista e o psiquiatra, de Jack El-Hai.

Por Carlos Caldas


Nuremberg é uma bela, encantadora e charmosa cidade na região da Baviera, sul da Alemanha. Foi lá que por quase um ano (novembro de 1945 a outubro de 1946) aconteceu o primeiro julgamento de crimes de guerra da história, que ficou conhecido justamente como Julgamento de Nuremberg. No caso, foram julgados oficiais de alta patente do governo nazista que, depois da derrota alemã, não conseguiram fugir e/ou não tiraram a própria vida (como foi o caso de Hitler e de Joseph Goebbels, o Ministro de Propaganda do nazismo, que cometeram suicídio, ou de Adolf Eichmann, que conseguiu fugir para a Argentina, sendo capturado cerca de vinte anos depois1). As quatro nações que venceram a guerra (França, Inglaterra, Estados Unidos e a então União Soviética) encaminharam todo o julgamento, no qual os réus tiveram amplo direito de defesa e ao contraditório. Foi realmente algo notável, porque não havia nenhum precedente de algo desse tipo. Os fundamentos do Direito Internacional (as leis que regem os relacionamentos dos países uns com os outros) já existiam pelo menos desde o século 17, mas não havia nada no sentido de julgar quem tivesse cometido ilícitos em uma guerra. Ao todo, 22 oficiais nazistas foram julgados.

O julgamento inspirou um filme de 1961 intitulado Julgamento em Nuremberg, que, curiosamente, não é sobre o tribunal em si, mas sobre o julgamento de quatro juízes alemães que usaram de suas posições para legalizar as ações cometidas contra os judeus na guerra. O filme contou com um elenco dos mais famosos atores da época, como Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Montgomery Clift, Judy Garland e Marlene Dietrich2. Inspirou também uma minissérie televisiva, com dois episódios3, veiculada no início dos anos 2000, tendo em seu elenco atores consagrados, como Alec Baldwin e Max von Sydow. E agora, em 2026, chega aos cinemas Nuremberg, do diretor James Vanderbilt. O roteiro do filme é baseado no livro O nazista e o psiquiatra, de Jack El-Hai.

Na narrativa fílmica de Vanderbilt o exército dos Estados Unidos convoca um psiquiatra, o Dr. Douglas Kelley (vivido por Rami Malek, ator estadunidense de origem egípcia) para atestar a saúde psicoemocional dos acusados. O objetivo era ter certeza que todos estavam em pleno uso de suas faculdades mentais durante a guerra, evitando assim que alegassem surtos psicóticos ou coisa semelhante para “justificar” (entre muitas aspas) as crueldades que cometeram. O mais importante oficial nazista a ser julgado foi Hermann Göring, o braço direito de Hitler. Na verdade, Göring que seria o sucessor de Hitler no governo nazista se a Alemanha tivesse sido vitoriosa na guerra. Göring foi interpretado por Russell Crowe, que ficou famoso no início dos anos 2000 com o épico “Gladiador”. Um detalhe curioso: Crowe é um neozelandês que passou a maior parte de sua vida na Austrália, logo, inglês é sua língua materna. Ele interpreta um alemão que sabia falar inglês, e o faz com um sotaque um tanto artificial e forçado (por exemplo, a palavra “that” ele pronuncia “zat”, e “way”, ele pronuncia “vêi”), e nas suas (poucas) falas em alemão, ele fala com sotaque inglês4.

A propósito, a atuação de Crowe no filme é simplesmente magnífica. Ele interpreta com uma naturalidade impressionante um Göring que é extremamente inteligente, manipulador e cínico, que mente de uma maneira que chega a assustar de tão convincente. Sua liderança é inconteste: os demais prisioneiros, que vão ser julgados com e como ele, respeitam-no ao máximo. Ao mesmo tempo, ele não é um vilão caricato e estereotipado. Muito pelo contrário: Göring é casado, tem uma filha, um pai de família leal, dedicado, cuidador e carinhoso. Em seu trabalho de avaliar o estado mental de Göring o Dr. Kelley visita a esposa e a filha dele, e constata que o ambiente familiar dos Göring é saudável.

Boa parte do filme apresenta diálogos entre Kelley e Göring, quase que uma disputa intelectual entre os dois. As cenas dos diálogos entre examinador e examinando, e as do julgamento são angustiantes, porque tem-se a impressão que Göring vai se safar. Ele é absurdamente autoconfiante, tem um raciocínio muito rápido, sempre com uma resposta na ponta da língua para toda e qualquer pergunta que lhe é feita, é impassível, demonstrando uma tranquilidade que chega a ser assustadora. Confesso que o filme me perturbou ao apresentar de maneira que considerei irritante a frieza de Göring. O tempo todo ele alega ignorância quanto à existência dos campos de concentração e o que neles acontecia. Robert Jackson (vivido por Michael Shannon), o promotor que representou os Estados Unidos no julgamento, quase “perde a parada”, porque não consegue demonstrar a culpa do réu. É apenas pela intervenção do promotor britânico, David Maxwell Fyfe (vivido pelo ator inglês Richard Grant) que finalmente consegue-se demonstrar de maneira definitiva que Göring era mesmo culpado dos crimes dos quais foi acusado.

O filme apresenta o tema da banalidade do mal, expressão que ficou muito conhecida por ser parte do título do livro Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal5, da filósofa judia alemã Hannah Arendt. O mal se torna algo trivial, comum, literalmente banal, visto como sendo simples. Quando o mal se torna banal não há motivo para quem o pratica sentir vergonha do que fez. Foi exatamente esta a situação de Hermann Göring, Rudolf Hess (o terceiro na hierarquia nazista, abaixo apenas de Göring e de Hitler) e de tantos outros naquela época. Para eles, fazer o mal não era considerado errado. Eles entendiam que estavam apenas cumprindo ordens, e o que fizeram, foi para o bem da pátria. Logo, estavam justificados. Nada de moralidade, ou de ética, ou de respeito pela alteridade. Nada de consideração ou respeito pelo diferente. E tudo isso visto como sendo normal e natural.



O filme Nuremberg faz um alerta muito importante para o nosso tempo. Em nossa época marcada por polarização política e ideológica muito intensa, polarização esta alimentada pelas redes sociais, divulgam-se à farta os infames “discursos de ódio”, nos quais de maneira absurdamente simplista a realidade é reduzida a dois grupos: “nós” e “eles”. O grupo do “nós” se entende como bom, puro, perfeito, moralmente superior, honesto, inteligente e quantas mais virtudes houver. Já o grupo do “outros” é exatamente o contrário. E aí influenciadores, políticos e líderes religiosos (pelo menos, é assim que se apresentam) com muitos milhares de seguidores, produzem conteúdos nos quais xingam, ofendem, insultam quem não pensa exatamente como eles pensam. Ao fazer assim, vão aos poucos incutindo na mente dos seus seguidores que os “outros” são menos que humanos. Desta maneira, não é errado desrespeitá-los ou agredi-los seja de que jeito for. O discurso é o mesmo da Alemanha nazista: a propaganda do anteriormente citado Goebbels apontava judeus, ciganos, eslavos e todos os não arianos como sendo os responsáveis por todos os males da sociedade. Se todos forem eliminados, tudo se resolverá. No Brasil de hoje divulga-se que se todos os partidários de uma determinada corrente de pensamento político forem eliminados o país vai virar um paraíso na terra. O mal torna-se banal. O mal deixa de ser o mal.

Não se pode aceitar um discurso relativista que apregoa que não existe nem o certo e nem o errado, que tudo depende do ponto de vista, que o que é certo para um é errado para outro e vice-versa. Um discurso como este banaliza o mal. Independentemente do Zeitgeist, o “espírito da época”, o que é certo, é certo, e o que é errado, é errado. Um discurso relativista que banaliza e “justifica” o mal produz monstros imorais como Hermann Göring. Neste sentido, um filme como Nuremberg é extremamente importante.

Notas
1. A propósito da captura de Eichmann e seu posterior julgamento, ver o artigo A Operação Final e a banalidade do mal, disponível aqui.
2. Sterheim, Alfredo. Guia de Vídeo e DVD 2002. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 356.
3. https://www.imdb.com/pt/title/tt0208629/fullcredits/
4. Devo a observação ao alemão de Crowe no filme ao meu colega e amigo Rudolf von Sinner, falante nativo da língua de Lutero.
5. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.



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é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas, onde lidera o Grupo de Pesquisa sobre Protestantismo, Religião e Arte. É autor de Dietrich Bonhoeffer e a teologia pública no Brasil (São Paulo: Garimpo Editorial, 2016), vice-presidente da Sociedade Bonhoeffer Brasil e autor de vários artigos sobre Bonhoeffer.
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