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Opinião

O lado bom do capital

Especial – por Christianity Today (EUA)

Como com tantos antes dele, a vida de Wes Selke teve uma reviravolta depois que ele foi uma viagem missionária de curto prazo. Ele tinha 25 anos de idade quando voltou do México, só que ele não se matriculou num seminário nem subiu num avião para começar uma vida de missionário. Em vez disso, demitiu-se de seu emprego na área de finanças e foi fazer uma faculdade de administração de empresas.

Wes Selke investe em empreendedores cujos produtos criam bem socialSelke, que agora tem 36 anos, faz parte de uma vanguarda de jovens cristãos que creem que Deus não usa somente a igreja e o ministério formal, mas todas as esferas da sociedade, incluindo empresas e mercados, para expandir sua obra de “shalom”. Selke acumulou experiência analisando empresas, criando planilhas e avaliando oportunidades lucrativas para um banco de investimentos que ajuda empreendedores sociais – pessoas que criam organizações com o propósito de beneficiar a sociedade.

Em 2010 Selke foi um dos fundadores de Hub Ventures, um fundo em São Francisco que investe em empreendedores que começam empresas que produzem um bem social. O programa de 12 semanas oferece até 20 mil dólares de financiamento inicial, mentoria, treinamento e acesso a investidores maiores, em troca de uma participação na empresa de 6% em média. O que diferencia o programa de Selke do de outros fundos do vale do Silício é o foco em “empreendedores que criam soluções tecnológicas para um mundo melhor”, nas palavras dele.

Por exemplo, Hub Ventures investe em MobileWorks, uma empresa iniciante que possibilita a trabalhadores pouco qualificados no mundo em desenvolvimento a ingressar na economia de terceirização. Dez mil pessoas em mais de 60 países recorrem a ela para ganhar dinheiro executando tarefas simples em computador, como etiquetar produtos, por exemplo. Selke ajudou a achar, avaliar e investir na empresa em 2011.

Selke é um investidor que considera seu trabalho uma forma de adoração. A adoração, no entanto, não acontece onde você espera. Para alguns, um shopping center é um templo moderno, com ídolos e rituais, com a fé falsa no consumismo que molda os desejos das pessoas. Para Selke, adoração é considerar o capital um meio de fazer o ser humano florescer, é utilizar seu talento na área de finanças e exercer sua fé em Deus.

“O mercado é um excelente escravo, mas um senhor terrível”, diz Selke parafraseando Lesslie Newbigin, um dos maiores missiólogos do século 20. “Nossa cultura tende a tornar-se serva do mercado e da ganância, quando na verdade o mercado deveria ser nosso servo que proporciona o melhor suprimento de bens e serviços.”

Fazendo o bem enquanto ganha dinheiro
Depois de se formar na universidade de Michigan em 1999, Selke ingressou na empresa financeira Ernst & Young em Chicago, trabalhando em operações de fusão e aquisição de empresas. Depois passou para William Blair & Co., onde pesquisou participações públicas na mídia digital. Durante esse tempo em que trabalhou no mercado financeiro, Selke passou algumas semanas participando da vida de pessoas pobres, em viagens missionárias da Park Community Church. Ali percebeu o chamado de Deus para que dedicasse sua vida a aplicar em outras áreas o que tinha aprendido no mundo empresarial.

Selke é impulsionado por uma teologia sólida, depois de passar nove meses em um curso teológico intensivo chamado de Newbigin Fellowship, oferecido por sua igreja, Christ Church East Bay. Na lista das leituras estava “Desiring the Kingdom: Worship, Worldview, and Cultural Formation” [Ansiando pelo Reino: adoração, cosmovisão e formação cultural], de James K.A. Smith. Este livro, primeiro volume de uma trilogia, argumenta que o fundamento do cristianismo não é apenas a “cosmovisão” – um conjunto de ideias e crenças com que concordamos racionalmente – mas algo mais primário e instintivo, o cultivo de um amor por adoração. “Somos levados a agir pelo que amamos”, escreve Smith, “e a adoração molda o que amamos”.

A pergunta que não queria calar no coração de Selke era: Que legado quero deixar? É suficiente ser bom nos fins de semana? Como posso empregar minha experiência com finanças empresariais para moldar a cultura de maneira a amar as coisas que Deus ama, seguir seu propósito, sua visão, sua desejo de restaurar?

Em 2007 Selke terminou seu mestrado em administração na universidade de Berkeley, na Califórnia, um dos melhores cursos de empreendedorismo social que existe. Recebeu meia bolsa, o que ele entendeu como um sinal de que estava indo na direção certa. Então ingressou em Good Capital, uma empresa pioneira que investe tempo e dinheiro em empresas que geram um retorno social. Ali ele se concentrou em encontrar novas oportunidades de investimento.

Better World Books [“Livros para um mundo melhor”] é uma das suas histórias de sucesso. A empresa recolhe e revende livros usados, boa parte de universidades. Dez por cento de cada venda são doados a programas de alfabetização, como Books for Africa [Livros para a África], Room to Read [Sala de Leitura] e World Fund [Fundo Mundial]. Já foram reutilizados ou reciclados 100 milhões de livros e arrecadados 14 milhões de dólares para alfabetização e bibliotecas em vários lugares do mundo. Better World Books tinha uma receita de 15 milhões de dólares quando Selke ajudou a empresa a conseguir um investimento de 4 milhões, 2 dos quais vieram da Good Capital e os outros 2 de investidores que têm a mesma filosofia de investimento em empresas iniciantes. Cinco anos depois, o investimento deu resultado, e a Good Capital terá lucro; Better World Books quadruplicou sua receita para 60 milhões.

Organizações como Better World Books aplicam princípios empresariais comprovados e também inovação para atacar problemas do mundo, de pobreza a sustentabilidade ambiental. Diferente de empresas tradicionais, sua missão social é “misturada na massa dos produtos e serviços que a empresa está assando”, nas palavras de Selke. Isso permite que o impacto social das novas empresas continue mesmo no caso de venda para uma empresa maior ou de abertura do capital.

Para Selke, investir em empreendedores que estão gerando lucros com propósito vem de uma visão integral de mordomia. O modelo tradicional de mordomia mantém contas separadas para dinheiro que gera dinheiro e dinheiro que é doado para servir um bem público. Por que não fazer o bem ganhando dinheiro? Selke, e um número crescente de empreendedores sociais e investidores de impacto, estão investindo sua vida para provar suas convicções. O Fundo Acumen arrecada doações para investir em empresas que geram impacto social, e as ajuda a crescer. Henry Kaestner levantou 11 milhões de dólares para a Sovereign’s Capital, que investirá em empresas administradas biblicamente no Sudeste da Ásia.

“Investimento de impacto representa uma visão integral do lucro, do planeta, do povo. É mordomia dos recursos”, diz Selke. “Os cristãos que pensam em maneiras de investir seus recursos são chamados para certificar-se que seu capital está fazendo o bem.”

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Josh Kwan é cofundador e presidente de Praxis, que ajuda empreendedores cristãos a criar empresas e organizações de alto impacto. Ele também coordena as doações internacionais da Fundação da Família de David Weekley.
Dashell Laryea é estagiário na fundação e finalista na universidade Yale, estudando ciências humanas e filosofia.

Notas:
Os direitos de publicação deste artigo pertencem ao site Christianity Today. Originalmente publicado com o título Faith in the Free Market.
O trabalho de tradução foi gentilmente feito por Hans Udo Fuchs.


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