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Notícias

Igrejas, ONG’s cristãs e poder público: parcerias, frutos e desafios

Por Phelipe Reis

Este texto nasce a partir da observação da grande mobilização que aconteceu em janeiro de 2021 para socorrer a população da capital amazonense, Manaus, durante o colapso do sistema de saúde, em meio a segunda onda da pandemia da Covid-19 no estado. Não dá para mencionar o nome de cada igreja e organização, mas é importante destacar o trabalho que foi realizado para socorrer a população mais vulnerável e apoiar os profissionais de saúde.

As ações realizadas foram inúmeras: doações de medicamentos para enfermos, alimentos para famílias necessitadas, café para acompanhantes em frente aos hospitais, luvas, máscaras e oxímetros para profissionais de saúde, kits e materiais de limpeza para unidades hospitalares, frete de avião para levar insumos ao interior e entrega de cilindros de oxigênio.

Todas essas iniciativas, movimentado milhares de reais em doações, só foram possíveis por causa da unidade do corpo de Cristo, mobilizando pessoas, denominações e entidades diversas. Na verdade, tudo isso é uma pequena amostra do precioso trabalho que dezenas de igrejas e organizações evangélicas realizam no anonimato há anos, espalhadas por todo o Brasil. Um pouco deste trabalho você pode acompanhar na seção “Igreja em ação”, na revista Ultimato.

Este trabalho de caráter humanitário, geralmente, envolve diversos atores, como igrejas, organizações da sociedade civil e agentes do poder público. Pensando nesse esforço coletivo e nas relações que perpassam essas parcerias, convidamos três pessoas com experiência na área para falarem um pouco melhor como se estabelecem essas parcerias, os desafios e os frutos que elas proporcionam.


Cooperação entre igrejas

Para conversar sobre a parceria entre igrejas, convidamos Leandro Virgínio da Silva. Ele é missionário da Action International Ministries, servindo junto com a esposa, Adryelle, no Nordeste brasileiro. Leandro também é presidente da Missão ALEF, sediada em Natal, Rio Grande do Norte. É no trabalho com a Missão ALEF que Leandro tem colecionado uma experiência muito rica atuando em rede com dezenas de igrejas, numa perspectiva de igrejas missionais, que são relevantes para suas comunidades. Confira a conversa.

Phelipe Reis – A partir de sua experiência com a rede de igrejas, quais são os principais desafios que você observa para a unidade e a cooperação entre elas?
Leandro Silva – Um dos principais desafios é o ativismo. Muitas igrejas estão voltadas a uma agenda de atividades internas muito densa e, portanto, com pouco espaço para inserir entre suas prioridades a participação em esforços locais de unidade do corpo de Cristo. Porém, devemos sempre nos recordar: Quantas igrejas há na nossa cidade? Apenas uma. Espalhada em diferentes denominações e comunidades, porém com uma única missão. Jesus orou por todos aqueles que creriam nele, a fim de que pudessem expressar de formas concretas a unidade perfeita que é vista na Trindade, e assim glorificassem a Deus com um testemunho relevante no mundo. Por maior que seja, nenhuma igreja local pode mudar sozinha toda uma região. Isso exige uma dinâmica de movimento que promova a unidade do corpo de Cristo para alcançar e servir toda a sua região. Creio que outro desafio é uma perspectiva de unidade que se reduz a eventos pontuais, como marchas, por exemplo. Eventos são importantes, mas eles precisam ser parte de um processo. A unidade não se dá em torno de eventos, mas de uma visão de longo prazo para sinalizar o reino de Deus em nossos bairros. É muito importante que este esforço seja centrado no evangelho, tendo uma visão mais abrangente da missão. As comunidades estão cheias de igrejas centradas apenas no esforço evangelístico, entendido como salvar almas para o céu, mas que não se lembram do quão radical foi a encarnação de Jesus, que em seu ministério ia por toda a parte “pregando, ensinando e fazendo o bem” (Mt 10.38).

É mais difícil firmar parcerias entre igrejas ou com outras organizações, como empresas e poder público?
Há igrejas que possuem maior facilidade para dialogar e cooperar com outras igrejas, e outras que tem obtido êxito em desenvolver parcerias com empresas e com o poder público, mas não com outras igrejas. Eu diria que ambos os níveis de parceria são fundamentais, e a dificuldade varia de contexto para contexto. Porém, o tipo de cooperação que pode catalisar um movimento missional em uma comunidade é aquele que se dá a partir da unidade entre diversas igrejas locais, que podem então mobilizar outros atores, como órgãos públicos, instituições comunitárias e empresas. Essa flexibilidade generosa também cria uma abertura para a cooperação com outras organizações sociais e comunitárias na região em que o movimento atua.

Uma vez vencidos os desafios, quais avanços a Igreja pode conseguir quando está unida?
Ao longo dos últimos anos, nossa equipe da Missão ALEF tem visto o nascimento de diversos movimentos de mobilização e cooperação em torno da missão integral de Deus em bairros e comunidades empobrecidas, por meio das nossas redes de pastores e líderes. O resultado concreto destes esforços locais é que líderes têm sido equipados e encorajados nas próprias localidades em que atuam, igrejas têm sido revitalizadas, e muitas iniciativas de desenvolvimento comunitário altamente contextualizadas e centradas no evangelho, têm surgido a partir da cooperação entre lideranças de dezenas de denominações. Atualmente estas redes já estão presentes em Natal (no bairro de Felipe Camarão e suas adjacências e também na zona norte da cidade), Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco), Capão Redondo (São Paulo), Morro do Meio (Joinville – Santa Catarina), Teixeira de Freitas (Bahia), João Pessoa, Santa Rita e em diversas cidades do sertão, na Paraíba, e com iniciativas de expansão em diversas localidades, no Rio de Janeiro, sertão do Rio Grande do Norte e outras regiões. Em Natal, as redes que plantamos nas áreas mais empobrecidas da cidade têm desenvolvido o projeto Compaixão, com foco na unidade do corpo de Cristo no serviço às famílias mais vulneráveis. Mais de quarenta igrejas da periferia de Natal desenvolveram um abrangente esforço de cooperação em resposta aos desafios da crise causada pela pandemia, e continuam firmemente atuantes, entendendo seu desafio para além das ações de emergência. Algumas destas iniciativas são: entrega de toneladas de cestas de alimentos e kits de higiene para prover milhares de pessoas em vulnerabilidade com alimentos e itens de higiene; instalação de pia móvel para famílias que vivem em barracos em situação insalubre, sem acesso a água encanada, dando condições de fortalecer a prevenção ao vírus; campanha #IGREJASCONTRAACOVID19, instalando faixas educativas nas fachadas dos prédios das comunidades de fé; campanha de doação de sangue para repor os estoques do hemocentro local; iniciativa de encorajamento para profissionais de saúde em sua ação na linha de frente; e a produção das “bolsas de esperança” para prover centenas de crianças em vulnerabilidade com material educativo e bíblico adequado a sua idade para ajudá-las a lidar com o período de isolamento social.


Cooperação entre igrejas e organizações cristãs

Para dialogar acerca das parcerias entre igrejas e organizações cristãs, nosso convidado é o pastor Tércio Sá Freire. Ele é pastor na Comunidade Evangélica Vale da Benção, em São Roque, São Paulo, e é coordenador nacional da Rede Nacional Evangélica de Ação Social (Renas). Com uma experiência de cerca de trinta anos trabalhando com igrejas e organizações do terceiro setor, Tércio esclarece o papel de cada agente nas parcerias e adverte que as organizações não podem identificar as igrejas apenas como fonte de recursos. Confira a conversa.

PR – As ONGs cristãs usurpam a missão da igreja? Qual a papel dessas organizações na missão?
Tércio Sá Freire – A questão de usurpar a missão da igreja é uma situação que pode acontecer. Mas a igreja, por natureza jurídica, é uma associação religiosa. Já as organizações podem ser tanto uma associação como uma fundação, o que dá a elas uma atuação mais ampla. Por outro lado, elas não vão fazer disseminação de fé. Devem trabalhar, exatamente, para cumprir os objetivos estabelecidos na sua composição. Eu não vejo essa questão da usurpação de papel como uma marca das organizações. Pelo contrário, uma complementa a outra. No meu entendimento, as organizações existem para apoiar a missão da Igreja, porque a missão é da Igreja. A fim de promover o princípio da dignidade humana, a Igreja tem a missão de apresentar o evangelho de forma ampla, por meio da promoção de direitos, justiça, paz, mediação de conflitos, ações de assistência social, educação, cultura, entre outras. Jesus veio estabelecer a dignidade total do homem, mas nem sempre a igreja consegue fazer isso dentro da sua estrutura institucional. Portanto, o papel das organizações na missão é apoiar a igreja, agregar qualificação ao trabalho e cumprir a normatização que o estado estabelece para atividades de cultura, educação, assistência social e outras. Essas atividades da área de promoção de justiça e assistência social, por exemplo, são de alta normatização, assim como as atividades de cultura e educação, que são normatizadas pelo Estado. As organizações podem atender a esses critérios, que consideram as relações trabalhistas estabelecidas e a própria composição da instituição, que deve seguir a legislação do Código Civil Brasileiro. Outro aspecto, como a gestão contábil e financeira, possui uma complexidade institucional que a organização consegue atender mais adequadamente.

A partir de sua experiência, você tem visto essa parceria se fortalecer ou ainda há muitos desafios para a aproximação entre igreja e organizações cristãs?
Estou em atividade há mais de trinta anos e tenho visto progressos. Tenho parcerias com igrejas quase todo esse tempo. Para o estabelecimento das parcerias é preciso trabalhar com a membresia da igreja, porque é muito comum a troca de líderes e a mudança de pastores. Muitas organizações têm feito isso, mas ainda há muito a ser feito, pois temos um universo grande de igrejas. Ao mesmo tempo, é um universo muito disputado, porque temos muitas organizações. Em meio a isso, a lógica da parceria tem que ser de troca. A organização precisa sempre oferecer oportunidades de envolvimento para as igrejas e precisa ser construído um diálogo produtivo entre organizações e igrejas. Precisa ficar muito claro as expectativas – esse é o segredo do fortalecimento e longevidade da parceria. Há muitos desafios e um deles é estabelecer relações sinceras. Nada de utilitarismo ou de olhar para a igreja apenas como uma fonte de recursos. A igreja precisa ser vista como uma apoiadora, precisa está envolvida e participar do programa.

Quais frutos você poderia mencionar da parceria entre igrejas e organizações cristãs?
Quando essa parceria se concretiza de forma saudável, os frutos produzidos são excelentes, tanto para a igreja quanto para as organizações. É muito bonito ver uma igreja que se envolve, não só com recursos financeiros. É bonito ver igrejas que se envolvem com organizações que trabalham com crianças e apoiam levantando voluntários, fazendo ações no ambiente da organização, abençoando a demanda com festas de aniversário. A igreja é muito abençoada quando a membresia participa de forma efetiva. Em minha igreja temos dois programas de assistência social e eu vejo a alegria dos voluntários em servir, eles se sentem plenos na manifestação do reino de Deus para a comunidade. A igreja cumpre sua missão de apresentar o evangelho de Jesus Cristo de forma efetiva e direta. Eu tenho a alegria de caminhar com muitas igrejas e os frutos são as pessoas, os membros da igreja que são abençoados e a organização que cumpre seu papel em apresentar o reino de Deus de forma objetiva e concreta para o público para o qual está trabalhando. Enfatizo, os frutos são as pessoas que resgatam sua identidade, que são inseridas na comunidade de forma plena e isso acontece a partir de uma parceria entre igrejas e organizações cristãs.


Cooperação entre igreja e poder público

Para falar sobre as parcerias entre igrejas e poder público, convidamos Sarah Rodrigues. Ela é missionária no Amazonas há doze anos e serve como diretora nacional na Justiça & Misericórdia Amazon. Sarah esteve à frente da mobilização com dezenas de organizações durante o pico da segunda onda da pandemia em Manaus. Para ela, parcerias fundadas na legalidade e na transparência, com objetivos e responsabilidades claras para o bem comum, devem ser provocadas e cultivadas para otimização de esforços e recursos. Confira a conversa.

PR – É adequado igrejas fazerem parcerias com o poder público?
Sarah Rodrigues – Toda e qualquer parceria é estabelecida com potencial de realização de objetivos comuns e com riscos de falhas no cumprimento das responsabilidades por suas partes. Entretanto, o tempo e a prática nos ensinam algumas coisas. 1) A importância da ciência e compreensão ampla do parceiro. Observação do perfil, práticas, princípios, projetos, prestação de contas, resultados e cultura organizacional/pessoal do seu parceiro; além de avaliar se estão alinhados aos seus. 2) Formalização da parceria através de um amplo e claro Termo de Parceria. Os acordos delineados pelas partes no ponto de partida tendem a instrumentalizar todos os processos e práticas de boas parcerias. Estabelecendo com clareza os direitos, deveres, responsabilidades, prazos e, principalmente, as formas de conclusão dessa parceria. Também, observamos que nos casos de novas parcerias, estabelecer prazos curtos, sujeitos à renovação, tendem a proteger ambas as partes dos desconfortos de rompimentos futuros. 3) Estabelecer formatos comuns e eficientes de comunicação e relatórios entre os parceiros em questão, para que a parceria progrida com sinergia, segurança e com informações que possibilitem avaliação e mensuração da mesma. Vejo que movimentos ou iniciativas civis tendem a existir como resposta às dores e necessidades que o poder público não consegue sanar. Em sua maioria, as organizações religiosas têm entre os seus objetivos responder a essas demandas. Neste sentido, a parceria com o poder público é, em alguns casos, inevitável para um ciclo de transformação eficiente, sustentável e sem retrabalho. Normalmente, os recursos para operações civis são enxutos e limitados diante das demandas que se apresentam. Portanto, certamente, parcerias com o poder público podem ser bem-sucedidas e otimizar esforços e recursos de ambos – poder público e iniciativas civis/religiosas. Mas destaco alguns cuidados complementares: 1 – Determinação clara de limites e deveres de ambas as partes, assim como do uso dos dados e resultados dos esforços comuns para evitar apropriação indevida pelas partes; 2 – Evitar repasse de recursos ao poder público, priorizando pagamentos e repasses diretos aos fornecedores ou beneficiários. Relatórios periódicos e detalhados para ambas as partes; 3 – Prazos, avaliação e renovação condicional da parceria; 4 – Estabelecimento incondicional de imparcialidade político-partidária e negação absoluta de acordos políticos.

Você conhece algum bom exemplo de parceria entre igreja e poder público que tenha gerado bons resultados?
Enquanto organização religiosa que somos, experimentamos boas ações conjuntas ao poder público em nosso estado [Amazonas] nos últimos dez anos. Observando o distanciamento de crianças da educação por aspectos geográficos e logísticos, nossa organização estabeleceu conversas com o poder público e percebemos, em alguns casos, a dificuldade de construção de escolas. Além disso, identificamos a possibilidade e capacidade de provisão e gestão para uma nova escola, por parte das secretarias responsáveis. Então, estabelecemos um programa de construção de escolas em áreas remotas, que de outra maneira não a teriam, que seriam doados à comunidade local e cedidas ao município para uso, provisão e gestão. Já são dez anos de parcerias como estas que hoje possibilitam acesso à educação a mais de 700 crianças ribeirinhas. Também, operamos conjuntamente em operações emergenciais em que o poder público retinha recursos para provisão de alimentação, mas capacidade logística-operacional limitada. Com nossa estrutura e voluntários pudemos operar a conexão entre o recurso e aqueles que mais precisavam.

Você acredita que essa aproximação entre igreja e poder público deva acontecer de forma mais frequente para tentar minimizar os crescentes problemas sociais?
Vivemos tempos desafiadores. À medida que aumentam as necessidades, desigualdades e toda sorte de dores humanitárias, aumentam a corrupção, a desconfiança e os riscos nas relações. Contudo, os riscos não devem nos paralisar ou retroceder os esforços em direção às ações conjuntas, mas devem nos fazer astutos e inteligentes para a realização das mesmas. Ao olharmos para Jesus, vemos um movimento linear de um menino-Deus que já nasce a caminho da cruz, atento às dores e aos assuntos do povo e da cidade. O Cristo que convida homens comuns, sem educação, e até corruptos, para, uma vez nele, levarem o reino onde ele ainda não havia chegado. Um Cristo que não temia publicanos, nem mestres da lei, mas que mantinha o diálogo com os que menos sabiam e mais errado faziam, para influenciá-los com o reino de Deus. Um homem-Deus permeado e inserido na sociedade em que viveu, envolvido nos assuntos da polis, e consequentemente das pessoas, mas distante da política e da religiosidade. Que o Cristo nos ensine os seus caminhos e as suas formas, para que, em nós, ele continue influenciando a polis e transformando vidas, estabelecendo o reino nos lugares em que sua ausência é tão evidente.
É natural do Amazonas, casado com Luíze e pai da Elis e do Joaquim. Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em Missiologia no Centro Evangélico de Missões (CEM). É missionário e colaborador do Portal Ultimato.
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