Opinião
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Cristo, e não a igreja, é o evangelho
Por Ronaldo Lidório
Em Romanos 1:2 lemos que o evangelho havia sido “... por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras”.
Em Romanos 1:2 lemos que o evangelho havia sido “... por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras”.As palavras promessa e evangelho fazem parte do mesmo movimento. Promessa em grego é epaggelia e evangelho é euaggelion. Soa como um trocadilho em alguns textos bíblicos. A promessa é a expectativa do evangelho que haveria de vir e o evangelho é o cumprimento dessa promessa.
Assim, chegamos ao ponto máximo dessa porção bíblica, pois Paulo agora passa a apresentar o conteúdo do evangelho, a sua mensagem. Nos versos 3 e 4 ele afirma que o evangelho diz respeito ao “… Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor”.
Essas palavras são impressionantes. A primeira mensagem que Paulo, inspirado por Deus, transmite à famosa igreja de Roma é que a igreja não é o evangelho – o evangelho é Jesus!
Talvez esta fosse uma das mensagens mais simples e necessárias para a igreja naquela época. Talvez seja ainda hoje a mensagem mais necessária em nossos dias: o evangelho é Jesus.
E a teologia bíblica paulina expressa que o evangelho é Jesus em duas dimensões: quem Cristo é (sua identidade) e o que Ele fez, faz e fará por nós (seu ministério). Esse parece ser o cerne da mensagem do evangelho. Assim, conhecer o evangelho é conhecer Jesus. Crer no evangelho é crer em Jesus. Viver o evangelho é viver Jesus. Proclamar o evangelho é proclamar Jesus. E negar o evangelho é negar Jesus.
Estou convencido que um dos mais graves problemas da igreja em nossos dias é a má compreensão do que é o evangelho. Por influências sociológicas, um ramo mais liberal da teologia norte-americana entre os anos 1950 e 1970, passou-se a igualar “igreja” e “evangelho”. Esta formatação hermenêutica eclesiocêntrica passou a olhar para as Escrituras a partir da igreja, e não para a igreja (e o mundo) a partir das Escrituras. Muito se perdeu por essa ênfase liberal em diversas áreas, teológicas e práticas, o que foi sendo recuperado por escolas e movimentos que defendiam a autoridade das Escrituras até os nossos dias.
Apesar do realinhamento teológico escriturístico nas últimas décadas, em certa medida o equívoco teológico quanto ao evangelho permanece no imaginário coletivo do povo de Deus. Quando se diz que “o evangelho está entrando no Saara” pensa-se que a igreja, ou os missionários, estão entrando naquele território. Ao ouvirmos que “o evangelho está sendo perseguido na Coreia do Norte”, vem logo à mente cristãos sendo perseguidos naquele país, pois no imaginário coletivo “igreja” e “evangelho” são sinônimos.
Essa compreensão gera diversos efeitos negativos e preocupantes, e um deles se encontra no processo de evangelização: à medida que se entende que o evangelho é a igreja, ao evangelizar, a mensagem apresentada será a própria igreja, e não Cristo.
Com o entendimento de que Cristo, e não a igreja, é o evangelho, entendo que devemos falar menos sobre nós e mais sobre Cristo; apresentar menos a igreja e mais as Escrituras; destacar menos nossos líderes e mais o Senhor Jesus; defender menos nossas logomarcas e mais a cruz de Cristo; e levantar menos as nossas bandeiras e mais a bandeira do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Leia mais:
Ronaldo Lidório é teólogo e antropólogo, missionário (APMT e WEC) entre grupos pouco ou não evangelizados. É organizador de Indígenas do Brasil -- avaliando a missão da igreja e A Questão Indígena -- Uma Luta Desigual.
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