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Opinião

Arte em espaços de dor e sofrimento

A arte não elimina a escuridão, mas pode fazer emergir sinais da Nova Criação

Por Silvana Bezerra Magalhães

“Na arte não suprimimos a escuridão; a arte é uma tentativa de definir os limites da escuridão.”(Makoto Fujimura, 2022)1

Minhas vivências em contextos de dor e vulnerabilidade têm me conduzido a compreender a arte como um espaço onde podemos olhar para escuridão sem negá-la e sim ressignificá-la. A arte e os processos criativos se tornam construção profética de espaços interiores de esperança que sinalizam a Nova Criação. Criação esta que se manifesta em lampejos em meio a um mundo ainda entristecido e cruel2. A arte se mistura às nossas lágrimas e colore sinais dessa realidade em gestação.

Nas experiências que atravessei em tantos anos e lugares, a arte se revelou como lugar de transformação. Oficinas pensadas para crianças na fronteira com Guiné-Bissau tornaram-se espaço para educadores adultos pintarem pela primeira vez, experimentando uma infância não vivida. Mulheres refugiadas, em oficinas de arteterapia, passaram a construir imagens de esperança; chegavam carregadas de dor, e seus olhos, pouco a pouco, se transformavam em sorriso. No sertão, mulheres pintaram sonhos esquecidos pela maternidade precoce, pelo abuso e pelo trabalho árduo.

Também acompanhei mulheres que sofreram mutilação genital em lugares remotos da África Ocidental, e as vi reconhecerem suas histórias em narrativas construídas a partir de suas experiências – “essa é a minha história, posso continuar, apesar dela, e com ela”. Em todos esses contextos, vi lágrimas tornarem-se cor, e a dor, ao ser narrada, transformar-se em possibilidade de vida.

Essa percepção também marcou minha atuação em um projeto social numa periferia, onde um menino de treze anos desenhava apenas caveiras e sangue, sua história era envolta em mortes. Ao longo das oficinas, suas imagens se transformaram em flores e paisagens suaves, refletindo um processo de apaziguamento. Do mesmo modo, após missões no Oeste da África, as minhas próprias dores e cores vividas se converteram em inúmeras pinturas – uma tentativa de elaborar simbolicamente experiências intensas por meio dos processos arteterapeuticos.

A arte e os processos artísticos são presentes do Deus Artista para sinalizarmos vida e esperança no caos. Os traumas de guerra, da exclusão, da morte, fragmentam a psique e rompem a continuidade da história, mas a construção de narrativas simbólicas por meio da arte – narrar, recontar, reescrever – favorecem a integração e a ressignificação da existência. Do caos à vida o Criador nos ensina que criar sinaliza esperança e cura, o processo criativo é também um caminho espiritual! Nise da Silveira3 destaca que a criatividade é central na reestruturação psíquica nos pacientes com diagnósticos mais complexos e, podemos acrescentar, que Deus age com e pelo inconsciente através da criação artística. O testemunho de Viktor Frankl4 no campo de concentração reforça essa compreensão: mesmo em Auschwitz, prisioneiros escolhiam a arte e o teatro ao invés do jantar, a arte era alimento de sentido para continuar.

Assim, ao criarmos algo belo em meio à dor, participamos dos dramas da redenção e sinalizamos vida. A arte não elimina a escuridão, mas pode fazer emergir, em meio às ruínas, sinais da Nova Criação – sustentando, reconectando e trazendo ressureição em meio aos desertos da alma.

Notas
1. FUJIMURA, Makoto. Arte e fé: uma teologia do criar. Tradução de Rodolfo Amorim. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2022.
2. WRIGHT, N. T. Surpreendido Pela Esperança: Repensando o céu, a ressurreição e a missão da igreja. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2009.
3. SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Editora Alhambra, 1981.
4. FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 52. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.

  • Silvana Bezerra Magalhães é professora do Centro Federal de Educação Tecnológica, RJ, doutora em educação UFF, pedagoga e mestre em Educação Unicamp. Pesquisadora das Infâncias. Presidente do Conselho da Visão Mundial Brasil.

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Os artigos da edição 419 de Ultimato ressaltam a “beleza de Deus” e o fato de termos sido feitos à sua imagem e semelhança, o que torna a arte (sua apreciação ou o fazer artístico) disponível para todos – “Sejam encanadores, coletores de lixo, taxistas ou CEOs, somos chamados pelo Grande Artista a cocriar. O Artista nos chama, a nós, artistas com ‘a’ minúsculo, para cocriar, para compartilhar a ‘irrupção celestial’ na terra quebrada” (Makoto Fujimura).
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