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Aos 97 anos, missionário inglês fala da 2ª Guerra: "não queria matar"

Por Pedro Permuy | Do Gazeta Online

Objetor de consciência é aquela pessoa que é chamada para a guerra, mas, por preceitos religiosos, é dispensada de serviços que envolvam combate no serviço militar. O inglês Henry Bacon, de 97 anos, foi chamado para a Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra havia entrado em batalha, novamente, contra a Alemanha. Com um diferencial: “eu não entrei na guerra como objetor para salvar a minha vida, mas para não tirar a (vida) dos outros”, explica, nas próprias palavras. Ele, que prestava serviços à igreja, não admitiria ter que matar alguém, e expressa, até hoje, gratidão por ter saído da guerra apenas com as histórias e memórias.

Memórias e lembranças que o faz reconhecer que permaneceu na batalha porque “o massacre aos judeus só me fazia ver que eu precisava resistir lá, de alguma forma, até a morte. Foram atrocidades”, dispara. Atualmente, ele mora em Meaípe, em Guarapari, com a esposa e uma das cinco filhas. Nascido em 18 de maio de 1920, em Londres, o missionário veio ao Brasil em missões da igreja à qual faz parte, e, depois de sair ileso da última grande guerra do mundo, tem a certeza de que a vida pertence a Deus.

Henry conta que ocupava o cargo do que era chamado de “objetor de consciência”. Isso significa que por princípios religiosos, neste caso, o inglês possuía hábitos incompatíveis com o serviço militar ou as Forças Armadas na condição de combatente. Por isso, passou por um processo, no Tribunal Britânico, em que teve o pedido de “não ter que matar”, como ele mesmo conta, atendido.

O missionário relembra de quando foi à fila para inscrição em um trabalho voluntário para desarmar bombas e ouviu do rapaz que estava colhendo os nomes: “olha, Bacon, é perigoso”, e ele retrucou dizendo: “eu não estou aqui como objetor para salvar a minha vida, mas para não tirar a dos outros”. Henry seguiu, então, como parte de uma equipe responsável por procurar bombas atiradas dos inimigos, mas que por algum motivo não explodiam. “Algumas vezes, sendo perseguidos, os aviões voavam muito baixo, e a altitude reduzida fazia com que essas bombas não explodissem. Nosso trabalho era encontra-las e desarmá-las”, explica.

Ele relata que os alemães, vendo esse cenário, passaram a instalar mecanismos em bombas que eram chamados de ‘bulltraps’, e acontecia que, mesmo sem explodir quando eram jogadas, na tentativa de desarmá-la, a bomba funcionaria. “Esse se tornou um dos grandes perigos e riscos. Mas depois conseguimos formas novas de desarmar que não acionavam esse mecanismo. De todo modo, nós encontrávamos a bomba, abríamos uma margem lateral e cavávamos quando era preciso, e o tenente responsável é quem desarmava”, conta. “E olha que na nossa equipe, nunca deixamos escapar uma (bomba)”, brinca.

Dois anos seguindo nessa função, Henry retornou ao quartel e se candidatou para ser voluntário, mais uma vez, em missões de paraquedismo. Para o novo cargo, o missionário conta que deveria acompanhar as divisões aéreas para prestar suporte no que fosse necessário, sobretudo no apoio às enfermarias que eram montadas para atender oficiais feridos na guerra. “Nessa seleção, lembro que haviam mais de 500 objetores que mostraram interesse, e eu fui um dos que conquistou a vaga”, detalha.

Já passando por treinamentos para uma invasão agendada na França, Henry destaca um episódio em que um colega duvidou de sua coragem. “Nós começamos treinando saltando de balões, de dia e de noite, e nossos treinadores nos acompanhavam nos voos, é claro. Um treinador em especial, do meu grupo, não entendia como eu estava ali naquele lugar. Ele dizia: “como você, que lê poesia e literatura inglesa nos intervalos, vai conseguir pular?”. E eu pulei. Ainda me lembro de um treinamento em que me colocaram por último, justamente por esse receio que tinham de eu desistir, mas isso não aconteceu”, pondera.

Apenas a cúpula de generais sabia o dia em que seria executada a invasão ao território francês, e isso gerava dúvidas na própria equipe. Henry conta uma noite, em que o voo de treinamento durou mais que o normal, e todos ficaram achando que aquele seria o momento. “Nós não tínhamos nem ideia de quando seria, a princípio, mas quando foi a data eles nos avisaram”, complementa. “Só sei que a introdução ao paraquedismo, as histórias, os receios e esse tempo ocioso não eram animadores", finaliza.

Normandia, França; 1944

Era noite do dia 6 de junho de 1944 e Henry tinha 24 anos. Nesta data aconteceu o Dia D - invasão das tropas britânicas, por meios aéreos, à Normandia, região Noroeste da França. O missionário era um dos paraquedistas que iriam pisar na zona inimiga naquela noite. “Pouco tempo antes, nossa equipe foi deslocada para barracas próximas ao local de onde ficavam os aviões, e desde aquele momento se reunia eu e dois colegas e nós fazíamos orações todas as noites. Eu falava e pensava a todo momento e comigo mesmo: se eu saio ileso dessa, agora, eu sei que minha vida pertence a Deus”, diz emocionado.

“A lua estava com um brilho que eu nunca havia visto e acho que nunca mais vou ver, e nós estávamos a bordo, prontos para invadir o território inimigo”, pensa. Henry detalha apesar do tempo ruim, aquele havia sido o dia escolhido por motivos estratégicos. “Havia um grupo de meteorologistas que nos acompanhavam, e eles alertaram que o tempo ficaria bom por poucas horas. Isso fez os nossos superiores decidirem que aquele seria o dia. O mau-tempo era ruim para nós, mas os alemães também se recolheram devido às intempéries”, conta.

Dias antes da invasão, Henry se lembra de ter entrado em uma sala, que só se entrava com autorização, em que usou a tecnologia 3D, naquela época, para visualizar a área em que iriam aterrissar. “Eu vi! Eu coloquei os óculos e vi tudo. Marcou-me muito a pedreira que eu vi naquela imagem e mais tarde, vi ao vivo e a cores”, exclama.

Henry, então, lembra que quando aterrissou estava com uma mochila de equipamentos presa às pernas e se recorda de ter batido as costas na queda. “Eu só pensava: meu Deus, estamos em zona inimiga. E agora? Então levantei correndo e nem me lembrei da dor lombar”, brinca. Ele alega que pousou em um campo largo, e em seguida foi abordado por uma pessoa que ele não sabia quem era.

O missionário relata que ficou com medo de ser um alemão, e chegou a temer ser prisioneiro de guerra, mas esclarece que era um aliado, já avisado da invasão, que o orientou para onde ir. “Estávamos já andando, quando me lembro de clarões e barulho que começaram a passar pela nossa frente. Eram metralhadores alemães, disparando tracer bullets, que tentaram nos matar. Mas esse foi outro episódio em que fracassaram, já que continuamos lá. Pouco tempo depois, o rapaz que estava orientando terminou de nos levar até o destino”, afirma.

“Quando chegamos à casa que já estava separada, encontramos todo o grupo e um colega relatou como foi o pouso dele. Ele nos contou que aterrissou no jardim de uma casa de alemães, e que chegou a ver militares jantando pela janela da sala, e os aviões de guerra do outro lado. Na época, ele contou que correu e fugiu, e depois se lembrou que tinha esquecido a mochila de equipamentos no quintal dessa casa, e ainda voltou para pegar as coisas e saiu correndo mais uma vez”, conta às gargalhadas.

Segundo Henry, ele estava acompanhando um cirurgião, que atenderia as vítimas da guerra. Ele conta que quando chegaram à casa que já estava predestinada para esse fim, o médico escolheu uma sala e disse que ali seria onde iriam acontecer as cirurgias. “Eu, na minha iniciativa, decidi lavar o recinto e preparar algumas coisas. Depois de fazer esse trabalho, fui a um local mais afastado lanchar. Nesse meio tempo, só ouvi o barulho de morteiros, uma espécie de lançador de bombas, próximos à casa”, conta.

O missionário comenta que quando voltou ao local para ver se estava tudo bem, a construção havia sido quase toda destruída. “Incluindo o quarto que eu tinha limpado. Era só entulho e uma parede que ficou de pé”, brinca. No mesmo dia, Henry conta que deixou uma mochila no pé de uma árvore, e que quando voltou para buscar o material, ela estava dilacerada. “Foi um franco-atirador que deve ter pensado que era uma pessoa”, esclarece.

Ele conta que também se recorda do primeiro prisioneiro de guerra que sua equipe capturou. Um alemão que estava de moto e trabalhava nas comunicações dos inimigos. “Ele chegou o mais perto que conseguiu de nós, e devia querer colher informações ou implantar alguma escuta, mas nós o capturamos e foi o primeiro prisioneiro de guerra que nós fizemos”, detalha.

Depois de tantos episódios envolvendo essa casa e o entorno da residência, Henry relata que a equipe decidiu se mudar de lugar, porque o local ficou marcado pelos alemães. “Nós fomos, então, para um acampamento que nós montamos com trincheiras, para nos proteger”, explica. O missionário lembra de um episódio em que viveu nesse acampamento, quando viu um avião alemão passar de dia atirando. “Eu senti que ele estava vindo com os tiros na minha direção, e fui correndo para uma trincheira de drenagem. Fiquei todo ensopado, mas estava vivo”, comemora. Ele conta que muitos foram para a trincheira de um colega, que era mais próximo a uma pedreira. As pedras, de acordo com ele, ajudavam na proteção contra os tiros, que eram muito fortes.

“Little boy”

Henry conta que após voltar da invasão, houve uma crise na guerra por conta da expansão acelerada dos alemães. Por isso, ele prontamente foi chamado novamente para ir, junto à equipe, em busca da contenção desse crescimento nazista. “E fomos depressa. Mas antes disso houve o episódio com a bomba atômica, em agosto de 1945, em Hiroshima, então não tínhamos mais o que fazer”, completa.

A bomba atômica de Urânio, apelidada de “little boy”, foi lançada sob Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945, pelos Estados Unidos da América contra o Império do Japão. “Cheguei a ir até Jacarta, na Indonésia, seguindo a rota em que iríamos até o Japão para conter a expansão nazista. Mas a bomba foi lançada antes, e, com a derrota japonesa, nós começamos a recuar”, explica. O missionário, então, ainda em Jacarta, pediu para voltar à Inglaterra e teve o pedido atendido.

“No fim, eu só agradecia por estar vivo e por ter tido meu pedido, de não ter que matar ninguém, atendido”, lembra Henry. Emocionado, ele reflete sua sobrevivência a comparando ao Salmo 91, que diz: mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.

Brasil

De volta a Londres, em 1946, Henry deu continuidade ao sonho de cursar Letras, aos 26 anos. Se graduou em 1948 e saiu da Inglaterra rumo ao Brasil em 1949. “Eu já tinha propósitos missionários antes de ser chamado para a guerra, então continuei o que eu queria fazer”, diz. Ele conheceu sua esposa, sete anos mais nova que ele, na faculdade. “Lembro que quando voltei da guerra, ela me mostrou anotações que fez durante toda a faculdade para me ajudar”, conta.

Henry estava em contato com escritórios que intermediavam esses trabalhos missionários antes de 1945, e retomou as ligações quando se graduou. Ele conta que haviam planos que o levariam à Argentina. “Mas algo me tocou e eu senti que Deus queria que eu viesse ao Brasil, para mostrar que Jesus Cristo salva”, pondera.

Ele destaca que veio ao Brasil em 1949, aprendeu Português por um ano e após esse período a esposa veio também. “Depois ela também ficou um ano para aprender o idioma”, conta.

Espírito Santo

Depois de rodar vários estados do País, sempre a trabalho missionário, Henry estava radicado em Belo Horizonte, em Minas Gerais, como professor do Instituto Bíblico da cidade. “Lá eu tinha um aluno que era capixaba, e tinha terras aqui nas proximidades de Guarapari. Um dia eu vim com ele para conhecer, e decidimos comprar um lote”, conta.

Com cinco filhos, o local em que atualmente vive Elizabeth Bacon, de 63 anos, a mãe e Henry, em Meaípe, era a casa de praia da família. Elizabeth relembra que desde 1967 os pais visitam o Espírito Santo, e, há 30 anos, quando se aposentaram, vieram morar no Estado. “Desde 1987 eles moram aqui, e há quatro anos eu estou com eles”, completa.

Atualmente, Henry nada de até 300 metros na praia da Bacutia, em Guarapari, três vezes na semana, e caminha em volta do quarteirão de casa todos os dias. “Menos os que está com chuva”, brinca Elizabeth.

Livro

Em 1983, Henry escreveu “A Epopéia Brasileira – Uma Introdução a Os Sertões”. A obra foi publicada em convênio com o Instituo Nacional do Livro e a Fundação Nacional Pró-Memória. Ele dedicou o livro aos irmãos e irmãs, mas especialmente ao irmão mais velho, Charles Bacon, “que nos valeu quando dele mais carecíamos”, como ele mesmo explica.

“Quando cheguei ao Brasil, estava recém graduado em Letras, e quis embarcar na literatura daqui, saber o que os brasileiros estavam produzindo. Por isso fui incentivado a escrever o livro”, diz.

O livro explica e analisa o pensamento, a linguagem, a arquitetônica, a territorialidade e a relevância de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. A obra teve reconhecimento do polímata Gilberto Freyre, que destacou em uma publicação de forma pública: “tenho em mãos os originais de excelente trabalho de “brasilianista” não estadunidense, mas britânico, Mr. Henry Bacon. Nesse estudo admirável, o pesquisador inglês pretende que Euclides da Cunha descreve em “Os Sertões” uma sociedade heroica [...]”.

Nota: Publicado originalmente em Gazeta Online. Reproduzido com permissão.
Fotos: Marcelo Prest.

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