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Opinião

Ano novo: terminar bem para começar melhor

Por Luiz Fernando dos Santos
 
“O fim das coisas é melhor que o seu início” (Ecl 7.8)
 
Quando eu era criança meu avô possuía um aparelho “Moto Rádio”. Nas tardes de domingo eu tomava o rádio emprestado para ouvir os jogos do campeonato brasileiro. Um dos meus locutores favoritos era Fiori Gigliotti. Os seus bordões davam vida e poesia as partidas de futebol e o que eu mais gostava era: ‘crepúsculo de jogo, torcida brasileira’, isso quando a partida estava chegando ao fim. Estamos no crepúsculo do ano de 2018, logo mais poderemos dizer com o mesmo Fiori no apito final do árbitro: ‘Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo’
 
2018 foi um ano tenso, tumultuado e bastante confuso no Brasil. A expressão “FAKE NEWS” entrou definitivamente para o nosso vocabulário e infelizmente passou a ser uma presença constante em nossas vidas. Também aprendemos que os fatos brutos não são mais levados em conta, mas sim a narrativa que damos a eles, dependendo da ‘verdade’ que desejamos apresentar. 
 
2018 também foi o ano em que uma certa polarização ideológica e política aprofundou o fosso que divide a sociedade brasileira. Essa polarização desceu do mundo das ideias e se estabeleceu entre as relações antigas e que antes de 2018 sobreviviam até com certo bom humor a essas posições contrárias. Tudo não passava de questões de opinião e preferência. 
 
Com a radicalização dos discursos essa polarização se intrometeu na vida cotidiana das pessoas e essas relações foram quebradas. Amigos de ontem se tornaram inimigos de hoje. Parentes desde sempre se fizeram de estranhos e distantes. E o pior de tudo é que muitos cristãos contribuíram decisivamente para isso. Usaram e abusaram, até covardemente, das redes socias e com atrevimento indescritível fizeram ataques a honra daqueles que deviam proteger, parentes, irmãos na fé e os amigos com os quais o Senhor os havia abençoado. 
 
Uma boa maneira de terminar o ano de 2018 é pedir a Deus que nos faça ver a realidade não mais pelas lentes dessas posições polarizadas e radicalizadas pela teimosia, mas que passemos a julgar retamente todas as coisas com o tríplice critério estabelecido por Deus para nos auxiliar: 
 
1. A iluminação do Espírito Santo que espanta as trevas da ignorância e santifica a nossa inteligência.
2. A Palavra de Deus que abastece a nossa mente da verdade e informa a nossa inteligência para sabermos qual é a boa, perfeita e santa vontade do Altíssimo para cada ocasião.
3. O amor que “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.” (1 Co 13.4b-6). 
 
Com base na iluminação do Espírito Santo façamos um profundo exame de consciência. Peçamos com o salmista “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23-34). E quando tivermos discernido e flagrado em nós condutas que desagradam a Deus e por extensão ao próximo, é hora de dar o segundo passo, ir as Escrituras para saber o que concretamente devemos fazer. 
 
Instruídos pela Palavra de Deus conforme ensina Paulo: “Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama o próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: ‘Não Adulterarás’, ‘Não Matarás’, ‘Não Furtarás’, ‘Não Cobiçarás’ e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: ‘Ame o Próximo como a si mesmo’. O amor não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13.8-10). 

Assim, agora que sabemos como devemos agir em conformidade com a Palavra de Deus, é hora do terceiro e fundamental passo: fazer um gesto concreto indo ao encontro de todos aqueles que ferimos ou ficamos estremecidos e de relações prejudicadas devido a “visões de mundo” distorcidas, caídas e inadequadas ao padrão das sãs Palavras.  E, mesmo naquilo que estivermos cobertos de razão, se nos faltou a mansidão, a humildade e o amor, ainda que tenhamos agido em verdade, não deixou de ser pecaminoso na hora de exortar, corrigir e confrontar. Em qualquer um desses casos e em outros semelhantes, é dever do cristão dar o primeiro passo: “No que depender de vos tende paz com todos” (Rm 12.17). 
 
Antes de fazer votos para 2019 é preciso refazer as pontes trincadas ou quebradas ainda em 2018. Vale para o fim de ano o que vale para apenas uma noite: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis ocasião ao maligno” (Ef 4.26).
 
• Rev. Luiz Fernando dos Santos é Ministro na Igreja Presbiteriana Central de Itapira, casado com Regina, pai da Talita. É Coordenador do Departamento de Teologia Pastoral do Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas e professor. É professor de Teologia Histórica, Filosofia e Teologia no Seminário Teológico Servo de Cristo em São Paulo.
 
É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
  • Textos publicados: 69 [ver]

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