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Por Escrito

Afirmar que racismo é pecado não é ignorar que racismo é crime

Por Izabella Vicente

*Uma versão menor deste artigo foi publicada na edição 385 da revista Ultimato.

Um pouco da minha trajetória

Meu nome é Izabella Vicente, tenho 25 anos, sou advogada e moro em Macaé, Rio de Janeiro. Quero compartilhar um pouco da minha história.
 
Boa parte da minha infância e adolescência foi na Igreja Metodista, localizada em um bairro na periferia do interior do Rio de Janeiro. A outra parte, como toda criança e adolescente, era na escola. Lá eu vivenciava, todos os dias, humilhações de cunho racista por parte de colegas. Meu cabelo era alvo de piadas, meu jeito era motivo de chacota... mas, na igreja, era diferente.
 
A maioria das minhas amigas do ministério de adolescentes eram negras e, mesmo amando Jesus e sabendo que tudo o que Deus fez é perfeito, odiávamos a textura do nosso cabelo e os nossos traços. Praticamente todas nós alisávamos o cabelo. Apesar de tudo, era muito bom estar com elas e achar que pelo menos na Igreja eu estaria “imune” de todo racismo da escola. Só que eu não tinha consciência que o racismo simplesmente existe e nenhuma Instituição está imune de reproduzi-lo.
 
Quase todas as nossas referências sobre ser uma mulher eram brancas, seja pelo que passava nos seriados de TV, nas revistas adolescentes, seja pelas meninas brancas das igrejas em áreas mais ricas. Queríamos parecer com algo muito distante da nossa realidade racial e financeira. Apesar disso, na Igreja evangélica, desde muito cedo nós aprendemos a desenvolver nossas vocações; a vivência de igreja durante a adolescência foi fundamental para que eu desenvolvesse habilidades de fala em público, de escrita e de leitura.
 
Nós éramos jovens profundamente dedicadas ao serviço na igreja, à ação social, ao evangelismo, a ministrar estudos bíblicos, a servir comida, a ajudar na limpeza, a dar aula para crianças, à música, ao teatro, à dança e a tudo que era possível fazer para missão, mas tinha uma coisa que não fazíamos: nós não falávamos sobre racismo, nem sobre o porquê de haver tanta negação da nossa aparência e negritude. Isso não era restrito ao grupinho de adolescentes. Era uma realidade nos estudos bíblicos, nos sermões pastorais e nos congressos. Não falávamos sobre o tema na Igreja, nem como ele afetava nossas relações e oportunidades. Só queríamos nos adequar.
 
É nítido que esse não é um problema apenas daquela Igreja. É um desafio da maioria das igrejas brasileiras e, na verdade, de todo o país. Adota-se a ideia de que a melhor forma de superar o problema racial é não falando sobre e, consequentemente, a igreja acaba incorporando conceitos genéricos como “não há racismo no Brasil, porque todos somos um pouco negros”, enquanto nossas crianças e adolescentes crescem rejeitando aspectos da diversidade étnico-racial criada por Deus.
 
Toda a noção sobre racismo que tive foi por meio da minha mãe, que viveu a realidade de ser uma jovem negra nos anos 80 e sempre teve total consciência das estruturas racistas na sociedade. Minha mãe me alertou e me ensinou como sobreviver neste sistema: “seja duas vezes melhor”, “esteja sempre impecável” e “não erre jamais”. Naquela época, alisar o cabelo era uma forma de estar “impecável”, foi assim que minha mãe aprendeu e me ensinou.
 
Aos 16 anos, conheci um grupo de meninas negras que atuava na internet em prol da aceitação do cabelo natural. Não era um movimento confessional, mas muitas moças eram cristãs e as contribuições me ajudaram muito a amadurecer na aceitação da minha imagem. Foi uma experiência incrível, pois a transição capilar é um processo doloroso e, há nove anos atrás, usar um cabelo crespo não era como hoje, pois não existia toda essa gama de produtos e de referências.
 
Além disso, junto ao processo de transição capilar vem o medo de jamais conseguir um emprego, as questões sobre o que usar naquele congresso importante de jovens ou em um evento mais formal; dúvidas se algum rapaz da igreja iria se interessar por mim e coisas do tipo, mas prossegui na jornada de florescimento e de aceitação da minha negritude. Nesse processo eu me aproximei mais de Jesus. Minha identidade foi forjada por meio de um relacionamento real com Deus, e falo com muita convicção que a falsa percepção da minha negritude, criada por perspectivas racistas presentes na sociedade, foi plenamente redimida.
 
As marcas ainda estão aqui, até me emociono ao contar, mas elas não doem mais, pelo contrário, me inspiram a servir e a cooperar para que, as histórias de meninas negras no futuro sejam diferentes. A partir do amadurecimento espiritual e da alteração da minha visão sobre mim mesma, tive mais certeza da minha vocação, ligada à participação política. Saber que minha identidade não é pautada pelo racismo, mas sim pela Palavra, mudou minha história. Eu levanto minha voz e, em Deus, sigo trilhando passos para o serviço ao próximo na garantia de direitos.
 
Hoje penso em falar sobre esses assuntos, que já estão um pouco mais amadurecidos no debate público de forma ampla, mas ainda não efetivados nas ações de nossas igrejas. Quero que meninas negras cristãs saibam que não há nada errado em seus cabelos, cor de pele e traços faciais. Em 2019, apliquei oficinas para crianças e pré-adolescentes na periferia da minha cidade e muitas revelam o mesmo incomodo que eu tinha quando era daquela idade. Há muito trabalho a ser feito.
 
O processo de transição capilar e de aceitação da nossa negritude, na totalidade, é muito mais do que mudar um estilo de cabelo. Na verdade, nunca foi apenas sobre isso. O racismo, enquanto lógica presente nas nossas relações, afeta a identidade e muitas pessoas negras têm que aprender, desde cedo, a lidar com complexo de inferioridade, constantes questionamentos externos e internos sobre suas competências e habilidades e um contexto de exclusões e solidões. Por tantas razões, é muito importante que as igrejas, enquanto espaços de comunhão e relacionamento, falem do racismo adequadamente, a fim de cooperar para o desenvolvimento de cristãos menos afetados pelo racismo. Racismo é pecado, produto da Queda, o enfrentamos falando sobre ele.
 
Vamos falar de racismo na Igreja
 
Uma das formas de nós, brasileiros, lembrarmos de falar de racismo é a partir da instituição de datas comemorativas, sendo o dia 20 de novembro – dia da consciência negra – o mais conhecido. Nessa data, empresas, organizações da sociedade civil e do Estado tratam de temáticas que envolvem o enfretamento do racismo. Então, lanço este questionamento: quantas igrejas pensam sobre a questão pelo menos um dia no ano? No dia 20, a sua igreja promove ações intencionais para visibilidade de irmãs e irmãos negros? No sermão de domingo há alguma menção sobre os horrores do racismo? É uma reflexão.
 
Durante a pandemia, devido a morte do George Floyd, vimos um despertamento mundial para o problema do racismo e isso impactou os cristãos brasileiros. Desde maio, falei em muitas lives, palestras e aulas sobre o racismo. O que é muito bom e me faz sentir honrada em poder servir. Sempre falei abertamente do assunto, nos diversos espaços que transitei, inclusive, pesquisando sobre a temática na Universidade; no entanto, antes deste ano raramente falei da questão em ambientes cristãos.
 
No dia 31 de maio muitas organizações da sociedade civil que trabalham no combate ao racismo foram para as ruas na cidade do Rio de Janeiro, com a causa “Vidas Negras Importam”, pela vida de George Floyd, mas também a do menino João Pedro e de dezenas de outras crianças negras alvejadas pela violência urbana brasileira.
 
Na ocasião, mobilizei a hashtag “Racismo é pecado” no Twitter, unindo a voz de cristãos a causa “Vidas Negras Importam”. Em um contexto de pandemia, nossa voz nas redes é de grande contribuição para dar visibilidade a uma causa. Ver a juventude cristã discutindo e se preocupando com racismo é algo incrível que revela a mudança de perspectivas geracionais sobre um problema permanente e histórico. Porém, isso demonstra que estamos seguindo o ritmo da sociedade e só falamos do tema quando há uma profunda comoção pública internacional, em nada nos diferenciando deste mundo caído.
 
Afirmar que racismo é pecado não é sobre ignorar que também é crime, mas, sim, propor uma comunicação focada na maioria da população brasileira, que é cristã – católica ou protestante. A criminalização do racismo e da injúria racial são conquistas muito importantes e devem vir acompanhadas de uma mudança de mentalidade. Racismo é uma ofensa à imagem de Deus (Gn 1.27) inerente ao fato de sermos humanos, sendo o racismo antinegro uma realidade dolorosa e cruel no ocidente, com contornos específicos em cada localidade. Não podemos negligenciar. Ensinamentos e práticas antirracistas, fundamentadas nas Sagradas Escrituras, devem estar presentes em nossas igrejas, organizações e associações não apenas em 20 de novembro ou quando um negro morre injustamente.
 
O caráter preventivo do combate ao racismo é fundamental para que cristãos tenham um olhar apurado para a situação, seja em suas condutas individuais, nos impactos sociais ou na desigualdade oriunda do processo de escravização e exclusão. A intencionalidade em combater o problema deve estar desde o ministério de ensino infantil até os seminários. É possível ensinar sobre ser um em Cristo sem silenciar a diversidade étnico-racial existente; pelo contrário, celebrando que, à mesa, Cristo e todos os povos podem estar em comunhão. É necessário pensar em um serviço ao próximo que contemple o combate às disparidades produzidas por práticas pecaminosas, reiteradas por séculos, que perpetuam a negação de dignidade para pessoas negras.
 
Construindo propostas e caminhos
 
A partir dos casos de racismo nos últimos meses, muitos cristãos viram a necessidade de pensar sobre a questão de maneira bíblica e contextualizada. Alguns jovens negros começaram a tornar públicas suas reflexões sobre a questão. Na internet, principalmente no Twitter, compartilhamos nossas históricas, perspectivas e nos conectamos uns com os outros para pensar sobre o que significa ser um cristão evangélico e negro no Brasil. A internet facilita encontros de ideias e de propósitos, mesmo que virtuais. Identificamos uma necessidade de vozes evangélicas, negras, que entendam os males do racismo e desenvolvam respostas construtivas, que dialoguem com o público majoritário das igrejas, sem ser omisso ou abrir mão de bases fundamentais da nossa fé.
 
Desde o ano passado, eu já me questionava sobre pontes e caminhos para qualificar a discussão sobre o racismo no meio evangélico. A partir disso criei um grupo com algumas mulheres negras para discutir sobre o assunto. Queríamos falar sobre estereótipos presentes nas páginas e livros tradicionais sobre feminilidade que, predominantemente, trazem representações apenas de mulheres brancas como ideal do ser feminina, mesmo no Brasil, onde a igreja evangélica tem composição negra. Dei o nome ao grupo de Agostinhas, pois Santo Agostinho foi o primeiro teólogo famoso, de origem africana, que me veio à mente, e isto revela mais um dos desafios: precisamos de negros e negras na teologia.
 
Ainda sobre o Agostinhas, apenas neste ano ele se tornou um projeto real e estamos produzindo conteúdo sobre racismo. Começamos em junho de 2020. Somos seis jovens negras cristãs desenvolvendo uma discussão sobre racismo visando combater esse problema a luz do evangelho. O projeto também conta com a participação de Ana Azevedo, Ana Staut, Flora Dilza Ngunga, Jacira Monteiro e Milena Kathlen. Estamos desenvolvendo ações on-line, dentro das limitações da pandemia.
 
O desafio é grande, pois encontrar conteúdos de referências teológicas de pessoas negras em português não é fácil. Apesar de não ignorarmos obras de autores cristãos e brancos sobre a temática, entendemos ser necessário o reconhecimento do trabalho de intelectuais cristãos negros. As obras são raras, principalmente quando não trata diretamente da temática racial, mas seguimos e isso nos inspira a escrever para suprir as lacunas existentes e pesquisar o que já foi feito antes de nós.
 
Você pode acompanhar o nosso trabalho no perfil @projetoagostinhas no instagram. Sou profundamente grata a Deus por esse projeto e pelas meninas que estão fazendo acontecer. O conteúdo é para todos, não só para mulheres negras.
 
Além do Projeto Agostinhas, outra iniciativa voltada ao mesmo tema foi criada e se chama “O que tem no Brasil”, composto por jovens cristãos e cristãs negros e negras, focado em ativismo antirracista e na divulgação de conhecimento sobre o tema e formas de enfrenta-lo. O grupo busca dar visibilidade e ampliar as vozes negras e cristãs do Brasil, reconhecendo as coisas boas que Deus tem feito por meio de nós e nossos irmãos, além da questão do racismo. Você pode acompanhar o perfil @oquetemnobrasil.
 
Ambas ideias surgem da necessidade de ampliar e dar continuidade à discussão sobre racismo ente cristãos, evitando que se perca em um modismo ou em uma hashtag passageira. Não amamos falar de racismo, nem nascemos sabendo os termos só porque somos negros. Racismo é um problema real, podemos aprender vendo estatísticas e lendo o que já foi escrito sobre, inclusive o livro do Marco Davi, A Religião Mais Negra do Brasil, é uma obra que nos desperta para a presença de negros na igreja evangélica e deve ser lida por todos. No entanto, é tarefa de todos se inteirar do que acontece e ajudar a consolidar novas práticas e pensamentos.
 
As discussões e iniciativas tem como objetivo combater a discriminação racial, trazer intencionalidade nas ações cristãs sobre a questão, buscando suprir a falta de lideranças, de escritores e de teólogos negros, assim como reconciliar, em Cristo, as chagas e cisões do racismo. A tarefa não é fácil, mas na perspectiva cristã haverá um fim para todos os males e até esse dia chegar estaremos empenhados em servir e amar nosso próximo de todas as formas, inclusive sendo antirracista.
 
Em Mateus 5:14-16, Jesus nos ensina que somos luz do mundo. Um lugar devastado pela queda, que leva o orgulho a proporções absurdas e alimenta o ódio racial. Ele diz que nossa luz deve resplandecer diante dos homens para que as nossas obras sejam vistas e o Pai seja glorificado. A partir dos projetos que estou participando, assim como meu testemunho, quero que Deus seja glorificado e vidas sejam transformadas pelo poder que há em viver para ser o que Deus deseja de nós, sem negar aspectos presentes na nossa aparência e histórico-cultural e estar livre das caixas que o racismo tenta nos colocar.
 
• Izabella Vicente, 25 anos, é advogada e mora em Macaé, RJ. Acompanhe Agostinhas – cujo conteúdo é para todos, não só para mulheres negras – e O que Tem no Brasil.

>> Conheça o livro A Religião Mais Negra do Brasil, de Marco Davi de Oliveira

>> Conheça a nova edição da revista Ultimato: Racismo – A Bíblia, a igreja e uma conversa que nasce da dor
 
 

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