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Opinião

A crise ética do país e da igreja

Série “Democracia e Fé Cristã”
Por Robinson Cavalcanti*
 
A ética se transformou em tema nacional e a falta de ética em manchete diária da grande imprensa. Nada do que se denuncia é novo.
 
Novidade é a denúncia, os processos e a possibilidade de punição, além da indignação popular. Contrariando a tradição nacional, integrantes das elites sentam-se nos bancos dos réus.
 
Nos regimes ditatoriais isso não seria possível: a censura proibiria a publicidade das denúncias e toda crítica seria tida como “subversão”.
 
A democracia implica em liberdade de opinião e transparência e deve, pela participação dos cidadãos, construir instituições sólidas que dificultem a tentação e condenem os infratores, inclusive os poderosos.
 
Fragilidade ética
 
A fragilidade ética tem raízes em nossa história. Os portugueses deixavam a ética no porto de Lisboa “ além do Equador não há pecado” em seu empreendimento predatório. Sem mulheres, sem sogras, sem clérigos, não tinham mecanismos de controle social para implementar a ética católica romana-ibérica. O aprisionamento de indígenas e africanos, levava a uma crise dos sistemas de valores daqueles povos. Construímos uma nação sobre os escombros de três sistemas morais, e nada foi colocado em seu lugar.
 
Nossa realidade intimista, ritual folclórica foi além da consciência de pecados “veniais”. Passamos a valorizar o antivalor: “feio não é errar, mas ser incompetente e deixar-se flagrar”. Nossos símbolos foram o Macunaíma (“o herói sem caráter”), o personagem José Dias (do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis), a “lei de Gerson” (levar vantagem em tudo) e o “jeitinho “(eternos “atalhos da vida). Com as leis impostas de fora e de cima (as “leis deles...”) passamos a ter prazer em burlá-las.
 
Em um estado de base patrimonial e estamental a “ética” das relações com o poder se baseia em princípios como: “Todos são iguais, mais alguns são mais iguais que outros”, e “Para os amigos (e parentes) tudo, para os inimigos a Lei”.
 
No lugar dos fatos, valorizamos os papéis impressos, timbrados, selados, carimbados, “ com firma reconhecida”. É a civilização “cartorial” do faz de contas documental.
 
No país que exterminou os índios e os escravos negros, as elites descendentes dos donatários acham normal a tortura dos pobres.
 
Sabemos que a corrupção não é apanágio dos parlamentares (por nós eleitos), mas está em todos os níveis, sendo a única coisa socializada no Brasil.
 
Quem atiraria a primeira pedra?
 
Fracasso dos sistemas
 
Ao longo da nossa História, igrejas, partidos e intelectuais, procuraram fazer frente à nossa crise ética, com vários sistemas importados, dentre eles: 
  • o moralismo: valorizando apenas a ascese individual (catolicismo pré-conciliar, protestantismo posterior);
  •  o positivismo: baseado na razão de Estado, em um progresso dentro da ordem (militares);
  •  o tradicionalismo: a razão do Estado baseado na tradição religiosa e na autoridade patriarcal (integralista, TFP);
  • o revolucionarismo: a relativação dos valores baseados na ordem atual para sua absolutização na ordem futura;
  •  o reformismo: a promoção dos valores individuais e sociais no progresso possível (sociais – democratas, democratas – cristãos, o protestantismo inicial);
  • o hedonismo: o valor do usufruir do material agora (existencialistas, hippies, neoanarquistas). 

Com a crise da modernidade, estão no mercado brasileiro de ideais: 
  • o neo-hedonismo pequeno burguês: o individualismo e o consumismo dentro do sistema capitalista e do neoliberalismo (yuppies, geração shopping center);
  •  o neomoralismo: nova ênfase na ascese pessoal e na ética das microrrelações (religiões orientais, movimentos carismáticos, pastorais, familiares);
  • a ética cultural revalorizada: a promoção da ética do homem comum e das maiorias trabalhadoras e cumpridoras de seus deveres (psicanalista Jurandir Freire). 

Malgrado as boas intenções e êxito localizados, os sistemas éticos não conseguiram maiores resultados.
 
Ética e pecado
 
A Bíblia ensina que o pecado atingiu a natureza dos seres humanos e das instituições por elas criadas. Todos caíram. Não há ninguém bom. As “obras da carne” marcam a nossa deficiência de caráter, a nossa ambiguidade moral.
 
Escrevendo aos Romanos (1.28-32), Paulo ensina que os homens adquiriram uma mente incapaz para o discernimento do correto, em virtude de terem desprezado o conhecimento de Deus: “Desse modo eles fazem o que não deveriam fazer: estão cheios de todo tipo de injustiça... engenhosos do mal... eles não só os cometem, mas também aprovam quem se comportam assim”.
 
Os cristãos, portanto, não deveriam ficar chocados com os pecados sociais, pois já deveriam ter entendido a sua presença no ensinamento bíblico. Os cristãos, contudo, não deveriam estar no lado dos pecados sociais, mas deveriam se envolver na sua prevenção e no seu combate.
 
Cristãos corruptíveis
 
Os cristãos evangélicos têm enfatizado a necessidade de conversão, de regeneração, de novo nascimento, de nova vida no Espírito. Cremos que não há outra saída.
 
Não obstante, cristãos evangélicos que “prosperaram” também têm se envolvido em escândalos políticos nacionais.
 
E ainda Paulo adverte que nem todos são “cristãos “ espirituais (maduros) mas muitos permanecem “carnais” (imaturos). Algumas causas para esses comportamentos antiéticos seriam: 
  • o despreparo para a vida pública, como resultado da falta de ensino sobre os pecados sociais e a ética social, por igrejas que advogam a alienação política, o moralismo individual e as “batalhas espirituais” não acompanhadas das batalhas históricas (sociais).
  • o pecado do orgulho espiritual, em que grupos cristãos que se consideram melhores, mais puros, mais espirituais que outros. Os escândalos políticos seriam pedagogia de Deus para a humildade e a saúde do corpo.

Uma autocrítica dos cristãos evangélicos é o que se espera diante de tão desconfortáveis revelações.
 
Obstáculos a vencer
 
O estrelismo, o culto ás personalidades, a fogueira de vaidades e a deslealdade na liderança do povo de Deus não concorre para a maturidade ética. O mesmo se diga da manutenção, no conjunto de nossas comunidades, dos dois “pecados de estimação” dos protestantes: a falta de amor, que nos torna socialmente insensíveis, e a maledicência, que encheriam as prisões de fiéis se os crimes dela decorrentes (calúnia, injúria, difamação) fossem realmente punidos entre nós.
 
A luta pela ética na política é um momento positivo na vida brasileira. O envolvimento de cristãos em episódios escusos e a fragilidade de nossa reação são sinais preocupantes.

Somos o sal da terra e a luz do mundo?

*Artigo publicado originalmente na revista Ultimato, edição 227, março de 1994.

Foi bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada. Faleceu no dia 26 de fevereiro de 2012 em Olinda (PE). 
  • Textos publicados: 27 [ver]

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