Opinião
19 de setembro de 2024- Visualizações: 8042
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A canção “Borzeguim”, de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim
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As chamadas acima são uma pequena mostra do que pode ser encontrado páginas dos jornais, sites e redes sociais nacionais e do exterior quando o assunto é a crise ambiental enfrentada pelo Brasil.
Segundo avaliações, mais de 60% do território brasileiro, ou 5 milhões de quilômetros quadrados, está coberto de fumaça. Há dez dias, São Paulo, a maior área metropolitana da América do Sul, recebeu o título de "cidade mais poluída do mundo" pela empresa suíça IQAir, que monitora a qualidade do ar em mais de cem grandes metrópoles.
O desafio é imenso.
A edição de setembro/outubro de Ultimato traz um artigo muito oportuno sobre o assunto escrito pelo professor e pastor Gladir Cabral. Segundo ele, a voz da canção Borzeguim, de Tom Jobim, quer interromper o desejo insaciável e destruidor de exploração e inaugurar um tempo diferente, mais alegre, mais bonito, mais fértil. Esse desafio não é nada fácil, considerando a violência com que a destruição acontece.
Ultimato oferece o artigo completo a seguir.
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A canção “Borzeguim”, de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim
Por Gladir Cabral
“É fruta do mato!”, uma voz anuncia. E um coro responde: “Borzeguim, deixa as fraldas ao vento e vem dançar!”. Assim começa uma das mais importantes canções de Tom Jobim: “Borzeguim”, uma obra-prima da canção popular brasileira. Composta no ano de 1980 e interpretada por ele em 1987 no LP Passarim, a canção surge num momento de tomada de consciência ecológica e ambiental no Brasil, uma consciência que em Jobim vinha crescendo desde o início dos anos 1970.
Superando a estética da Bossa Nova, a qual o maestro ajudara a criar e consolidar, “Borzeguim” traz o frescor impressionante de uma concepção musical diferente, engajada nas causas da preservação das florestas brasileiras, sobretudo da Mata Atlântica, da qual Jobim se tornava o maior porta-voz. Como ele mesmo afirmou numa entrevista, “[t]oda a minha obra é inspirada na Mata Atlântica”. Na verdade, a canção de Jobim é a voz da Mata Atlântica.
A letra da canção pode deixar alguns ouvintes meio confusos. As fraldas ao vento não são de bebê, embora a canção faça referência ao “curumim”. São as fraldas das montanhas, o sopé das encostas cheias de árvores e aves. A voz da canção não se dirige ao pequeno curumim, mas ao dono dos borzeguins. E o que significa borzeguim? Borzeguim é a bota que o colono usa para entrar no mato em busca de caça ou para derrubar uma árvore ou para fazer uma queimada. Borzeguim é também a bota do soldado, o coturno do aventureiro desbravador, o bandeirante destemido, e neste caso desavisado.
A voz da canção quer se dirigir exatamente ao colonizador, que está destruindo a Mata Atlântica em seu desejo insaciável de exploração, domínio, posse e lucro. Por isso a urgência da voz da canção, que quer interromper essa sanha destruidora e inaugurar um tempo diferente, mais alegre, mais bonito, mais fértil. Esse desafio não é nada fácil, considerando a violência com que a destruição acontece. De qualquer forma, a canção não celebra a bota que pisa o chão, mas o pé de quem tira as sandálias porque sabe que está pisando em terra santa.
O ritmo da canção remonta a uma ancestralidade indígena, a um registro que faz lembrar Villa-Lobos em suas pesquisas amazônicas. Flauta, piano e percussão fazem dispensar as cordas. Baixo e violoncelo interagem com a narrativa. A canção testemunha e denuncia um ato de violência contra as florestas brasileiras e contra todos os seres que nela vivem. Mesmo assim a canção é um bailado e um convite à dança, a uma interação dinâmica, a uma experiência estética e espiritual com a natureza. E um dos primeiros argumentos da voz da canção é da ordem do sagrado: “Hoje é sexta-feira da paixão, sexta-feira santa”, dia santo, como santo é todo dia.
A voz apela para o bom senso, para a razão, que não há na racionalidade torta do dono do borzeguim. Invoca o nome de Deus, apela para a fé, para que os povos da floresta sejam poupados, que a capivara, a anta e o tatu-bola sejam deixados em paz. A voz invoca a festa, o sagrado, mas afinal prenuncia o fim, o fogo na floresta, o fim do mar e do sertão, e apela para o exorcismo: “Vá embora daqui, coisa ruim / Some logo / Vá embora / Em nome de Deus”.
“Borzeguim” nunca foi tão atual, e nunca foi tão urgente ouvir uma canção no Brasil, agora que já não temos mais Mata Atlântica e que estamos a ponto de perder a Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal. Ouçamos a voz que nos chega por meio de “Borzeguim”. Ouçamos a voz de Jobim, de Krenak e de Kopenawa. Ouçamos a voz da floresta em seus gemidos inexprimíveis.
Ouça a canção Borzeguim aqui.
REVISTA ULTIMATO – AS BEM-AVENTURANÇAS – MARCAS DE UM NOVO MUNDOUltimato quer mostrar a beleza e a atualidade das bem-aventuranças, resgatando seu sentido bíblico e refletindo sobre seu impacto na vida do cristão, da igreja e do mundo.
Este é o desafio: voltar a ler as bem-aventuranças como quem lê a mensagem pela primeira vez, com reverência – para perceber e memorizar as exigências do seguimento – e alegre expectativa.
É disso que trata a matéria de capa da edição 409 da revista Ultimato. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» Jesus e a Terra – A ética ambiental nos evangelhos, James Jones
» Assim na Terra como no Céu – Experiências socioambientais na igreja local, Gínia César Bontempo (org.)
» O fim dos tempos e o meio ambiente, por Steven Bouma-Prediger
É pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). É autor, em parceria com João Leonel, do e-book O Menino e o Reino: meditações diárias para o Natal. Acompanhe o seu blog pessoal.
- Textos publicados: 13 [ver]
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Site: http://ultimato.com.br/sites/gladircabral/
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