Opinião
27 de agosto de 2026- Visualizações: 32
comente!- +A
- -A
-
compartilhar
A beleza salvará o mundo
O papel do cristão artista no reencantamento do mundo
Por Medson Barreto
“A beleza salvará o mundo”. A frase é de Dostoiévski e aparece na obra O Idiota, na boca de um personagem, quase como uma provocação. Mas não nasceu ali. Em 1868, numa carta a uma sobrinha, Dostoiévski comenta que buscava uma imagem do ideal mais elevado de beleza possível de ser representado em um personagem humano. Passou por alguns personagens icônicos da literatura, como Dom Quixote, Jean Valjean e Samuel Pickwick. E concluiu: “Só existe no mundo uma figura de beleza absoluta: Cristo.” 1
Cento e cinquenta anos depois, a frase precisa de tradução: nem beleza nem mundo significam para nós o que significavam para ele. Traduzi-la é o que Rodolfo Amorim faz em O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto,2 respondendo a três perguntas: que mundo precisaria ser salvo, que beleza o salvaria e o que isso pede de quem cria.
Que mundo é esse
Muita coisa mudou no modo como o Ocidente passou a enxergar a realidade. Segundo o filósofo holandês Herman Dooyeweerd, a origem dessa virada está num projeto de afirmação da autonomia humana diante do Criador, movido pelo desejo cobiçoso de dominar a realidade, e que termina produzindo uma imagem mecânica e fria do mundo. Nas palavras dele, “o impulso para dominar a natureza por um pensamento científico autônomo exigiu uma imagem determinista do mundo, construída como uma cadeia ininterrupta de relações causais funcionais, formulada em equações matemáticas”.3
Max Weber, vindo de outra tradição filosófica, chega ao mesmo lugar: “muitos deuses antigos surgem de seus túmulos; estão desencantados e, portanto, assumem a forma de forças impessoais… O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo, pelo desencantamento do mundo”.4 E Mircea Eliade aponta o efeito disso sobre a imaginação: “a imaginação, que para os antigos era um instrumento de acesso ao real, tornou-se hoje um simples refúgio da fantasia, desprovida de qualquer valor ontológico”.5
Foi nesse vazio que a arte foi convocada a um posto que não é o seu. Nietzsche afirmava que “a arte ergue sua cabeça onde as religiões declinam”.6 Matthew Arnold, poeta britânico do século 19, apostava que a poesia substituiria a religião como intérprete da vida.7
A igreja respondeu ao mundo moderno nos termos do próprio mundo moderno. Priorizou a doutrina, a sistematização, a apresentação racional da fé. O caminho seguido foi aquele que Kant havia ordenado: primeiro a verdade, depois a ética, por último a beleza.8 A arte virou, na melhor das hipóteses, ilustração, ornamento ou isca para atrair jovens. E há um agravante que nos diz respeito: o zelo missionário que nos discipulou já chegou aqui desencantado, empenhado em salvar almas de um mundo sem muito a oferecer.
Mas será que o brasileiro é desencantado?
Levei a pergunta ao autor no encerramento da leitura do livro no clube do Vitral. Para ilustrar, ele deu uma resposta em círculos concêntricos: na borda, a religiosidade popular segue viva, com suas festas e crendices; no centro estão as universidades, os museus e as comissões de editais, e ali o desencantamento é profundo.
Há ainda um segundo desencanto, mais difícil de enxergar porque se apresenta como o contrário disso. Nos meios acadêmicos e artísticos há hoje uma acolhida generosa a elementos de religiões de matriz africana e indígena, quase nunca acompanhada de compromisso com suas doutrinas ou com a visão do sagrado que as sustenta. Incorpora-se a estética: o ritmo, a imagem, o símbolo, retirados do rito e da comunidade que lhes davam sentido. Uma máscara que só significa algo dentro do ritual de uma aldeia vai parar na parede de um museu, e quem a pendura ali segue regendo a própria vida pela mesma racionalidade de sempre.
Que beleza é essa
O livro, porém, não para no diagnóstico. A partir de Hans Urs von Balthasar, Amorim inverte a ordem de Kant e afirma que o encontro com Deus começa pelo Belo. Beleza, aqui, é a forma perceptível da glória de Deus numa realidade criada por, em e para Cristo.9 Antes de qualquer argumento, há um encontro que espanta e move as bases sensoriais de quem o vive.
As Escrituras estão cheias desses encontros. Isaías entra no templo e vê o Senhor num trono alto, as abas do manto enchendo o santuário, os umbrais tremendo, a casa se enchendo de fumaça. Sua primeira reação não é concordar com uma proposição, mas gritar: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6.5). O chamado vem depois. Mateus está na coletoria, no trabalho que o tornava odiado pelo próprio povo. Jesus passa e diz apenas: “Segue-me.” Sem argumento e sem explicação. Ele se levantou e o seguiu (Mt 9.9).
Essa visão de beleza inclui a feiura do pecado e a da própria cruz.10 Não é harmonia e proporção, o conceito grego que a igreja absorveu sem examinar direito. É beleza quebrada. A cruz é o exemplo máximo: um artefato de tortura imperial, sem nenhum apelo estético, que se transfigura quando seu significado é desvelado. Amorim escreve que, por trás de cada realidade criada, para quem tem olhos de ver, está etiquetado: “Produzido na Cruz de Cristo.” 11
Mas se a beleza, no sentido grego de harmonia e proporção, deixa de ser o critério, o que distingue uma obra de arte de qualquer outra coisa? Aqui o livro segue Calvin Seerveld, que troca a pergunta: em vez de decretar o que é arte, descrever como ela se manifesta. Isso acontece em três frentes: a formação hábil, o trabalho bem feito com o material; a qualidade imaginativa de quem percebe a realidade e a reconfigura; e as metáforas sutis que comunicam significados, o que Seerveld chama de alusividade.12 É uma descrição mais larga do que o critério antigo, e capaz de reconhecer arte onde o olhar clássico não veria.
Onde a glória deixou rastro
A terceira parte do livro percorre a história ocidental atrás desses rastros, de Platão às catedrais góticas. Então chegamos ao capítulo 9, que trata da Reforma. A tese de Amorim é que a Reforma não empobreceu as artes, mas sim as redirecionou. A glória de Deus saiu da janela devocional e passou a ser buscada em temas da vida cotidiana, e daí nasceram gêneros como a natureza-morta, a paisagem e o retrato. Estão ali as rugas das mulheres idosas lendo suas Bíblias em Rembrandt, as árvores caídas de Ruisdael, as partituras em que Bach escrevia à mão Soli Deo Gloria. Ao olhar desatento parecem obras seculares, mas sua alusividade aponta para uma beleza quebrada, que celebra a criação e reconhece o pecado e a morte.13
Mais adiante vem o capítulo sobre a arte contemporânea, que foi, segundo ele mesmo nos contou, o mais difícil de escrever, porque exigiu revisar uma narrativa que muitos de nós herdamos de Rookmaaker e Schaeffer: a de que a arte moderna e contemporânea é pura decadência, sem nada com que valha a pena dialogar. Para explicar o que de fato mudou, Amorim recorre ao crítico Arthur Danto. Até meados do século 20, a arte ocidental funcionava como uma corrida: cada movimento nascia para resolver um problema deixado pelo anterior, e a pergunta de fundo era qual estilo conseguiria enfim representar a realidade por inteiro. A arte contemporânea abandonou essa corrida. Não existe mais um estilo obrigatório, nem um tribunal que decida de antemão o que é e o que não é arte.14
Amorim faz, porém, duas ressalvas. A primeira é que essa abertura é menor do que se anuncia. Existe hoje um valor que organiza todos os outros no meio artístico, o da autenticidade individual, e uma obra que afirme algo compartilhado ou tradicional acaba soando como afronta. Quando A Árvore da Vida, de Terrence Malick, foi exibida e premiada em Cannes em 2011, boa parte da plateia vaiou e acusou o filme de proselitismo cristão.15 A segunda ressalva é que a vanguarda não acabou, apenas trocou de bandeira: até meados do século passado, ser artista era quase sinônimo de ser socialista, e a arte servia a um projeto de emancipação social; hoje o projeto é a emancipação do indivíduo, sobretudo no terreno da identidade e da sexualidade.
O que isso pede do cristão que cria
A última parte do livro é a mais aplicada, e o que ela descreve é um tipo de pessoa. Alguém que se deslumbra diante da glória de Deus, que tem raízes numa igreja local, que está disposto a aprender com cristãos de todas as épocas e tradições, e que leva a sério o desenvolvimento da técnica artística. E ninguém cria sozinho: artistas dependem de comunidade, de crítica honesta e de gente disposta a investir no trabalho deles.16
O cristão que cria não precisa transformar a obra em panfleto. Quem foi tocado por essa beleza passa a ver o mundo de outro modo, e esse outro modo aparece no que ele faz, mencionando ou não o nome de Cristo na obra. Termino com o que Rodolfo Amorim escreve na conclusão do livro, dirigindo-se tanto a quem cria quanto a quem aprecia:
“Em um mundo cansado e com olhos cínicos e céticos para a realidade, o lugar de cristãos na tarefa de uma criação reencantada e simultaneamente realista se faz necessário. Quando a cruz de Cristo se transforma em uma expressão única de beleza em artefatos artísticos inseridos na cultura, cristãos estão cooperando para a reconciliação de todas as coisas. Do mesmo modo, quando cristãos cultivam sob o senhorio de Cristo uma vida de fruição artística voltada ao enriquecimento da vida humana, certamente o reino de Deus será agraciado por pessoas mais capazes de expressar ao mundo a glória e o amor de Cristo Jesus.” 17
Notas:
1 DOSTOIÉVSKI, F. M. Carta a Sofia Alexandrovna, 1868. In: Letters of Fyodor Michailovitch Dostoyevsky to his Family and Friends. Citado em: AMORIM, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Viçosa: Ultimato, 2025. cap. 4, p. 59. Ver também: DOSTOIÉVSKI, F. M. O Idiota. São Paulo: Editora 34, 2017.
2 AMORIM, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Viçosa: Ultimato, 2025.
3 DOOYEWEERD, Herman. In the Twilight of Western Thought. Ontario: Cantaro Institute, 2021, p. 50. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 27.
4 WEBER, Max. Max Weber: Essays in Sociology. Ed. H. H. Gerth e C. Wright Mills. Londres: Routledge, 1948/2004, p. 149, 155. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 28.
5 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 172. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 26.
6 NIETZSCHE, F. Human, All Too Human. Londres: Penguin Books, 2004, p. 150. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 2, p. 36.
7 ARNOLD, Matthew. Essays in Criticism: First and Second Series. Londres: J. M. Dent, 1880/1964, p. 235. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 2, p. 39.
8 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 63.
9 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 63-66. Ver: BALTHASAR, Hans Urs von. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, vol. 1: “Seeing the Form”. São Francisco: Ignatius Press, 1982.
10 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 71.
11 Ibid.
12 SEERVELD, Calvin. “Reading the Bible and Understanding Art: How To Redeem Your Time in Taking a Look at Art”. Toronto: Institute for Christian Studies, 2002, p. 2. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 5, p. 84.
13 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 9, p. 148.
14 DANTO, Arthur. After the End of Art: Contemporary Art and the Pale of History. Princeton: Princeton University Press, 2021, p. 6-7. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 11, p. 177-178.
15 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 11, p. 182.
16 Ibid., cap. 15, p. 235-236.
17 Ibid., Conclusão, p. 269.
***
Este texto nasceu da leitura de O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto no clube do livro do Vitral, encerrada com uma conversa com o autor. O encontro completo está disponível no canal do Nosso Vitral.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
» A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, H. R. Rookmaaker
» A Arte e a Bíblia, Francis A. Schaeffer
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto –Uma das abordagens mais maduras e robustas sobre a relação entre fé, arte e cultura, Josué Camargo
» Os cristãos criativos estão chegando, Notícia
Por Medson Barreto
“A beleza salvará o mundo”. A frase é de Dostoiévski e aparece na obra O Idiota, na boca de um personagem, quase como uma provocação. Mas não nasceu ali. Em 1868, numa carta a uma sobrinha, Dostoiévski comenta que buscava uma imagem do ideal mais elevado de beleza possível de ser representado em um personagem humano. Passou por alguns personagens icônicos da literatura, como Dom Quixote, Jean Valjean e Samuel Pickwick. E concluiu: “Só existe no mundo uma figura de beleza absoluta: Cristo.” 1Cento e cinquenta anos depois, a frase precisa de tradução: nem beleza nem mundo significam para nós o que significavam para ele. Traduzi-la é o que Rodolfo Amorim faz em O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto,2 respondendo a três perguntas: que mundo precisaria ser salvo, que beleza o salvaria e o que isso pede de quem cria.
Que mundo é esse
Muita coisa mudou no modo como o Ocidente passou a enxergar a realidade. Segundo o filósofo holandês Herman Dooyeweerd, a origem dessa virada está num projeto de afirmação da autonomia humana diante do Criador, movido pelo desejo cobiçoso de dominar a realidade, e que termina produzindo uma imagem mecânica e fria do mundo. Nas palavras dele, “o impulso para dominar a natureza por um pensamento científico autônomo exigiu uma imagem determinista do mundo, construída como uma cadeia ininterrupta de relações causais funcionais, formulada em equações matemáticas”.3
Max Weber, vindo de outra tradição filosófica, chega ao mesmo lugar: “muitos deuses antigos surgem de seus túmulos; estão desencantados e, portanto, assumem a forma de forças impessoais… O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo, pelo desencantamento do mundo”.4 E Mircea Eliade aponta o efeito disso sobre a imaginação: “a imaginação, que para os antigos era um instrumento de acesso ao real, tornou-se hoje um simples refúgio da fantasia, desprovida de qualquer valor ontológico”.5
Foi nesse vazio que a arte foi convocada a um posto que não é o seu. Nietzsche afirmava que “a arte ergue sua cabeça onde as religiões declinam”.6 Matthew Arnold, poeta britânico do século 19, apostava que a poesia substituiria a religião como intérprete da vida.7
A igreja respondeu ao mundo moderno nos termos do próprio mundo moderno. Priorizou a doutrina, a sistematização, a apresentação racional da fé. O caminho seguido foi aquele que Kant havia ordenado: primeiro a verdade, depois a ética, por último a beleza.8 A arte virou, na melhor das hipóteses, ilustração, ornamento ou isca para atrair jovens. E há um agravante que nos diz respeito: o zelo missionário que nos discipulou já chegou aqui desencantado, empenhado em salvar almas de um mundo sem muito a oferecer.
Mas será que o brasileiro é desencantado?
Levei a pergunta ao autor no encerramento da leitura do livro no clube do Vitral. Para ilustrar, ele deu uma resposta em círculos concêntricos: na borda, a religiosidade popular segue viva, com suas festas e crendices; no centro estão as universidades, os museus e as comissões de editais, e ali o desencantamento é profundo.
Há ainda um segundo desencanto, mais difícil de enxergar porque se apresenta como o contrário disso. Nos meios acadêmicos e artísticos há hoje uma acolhida generosa a elementos de religiões de matriz africana e indígena, quase nunca acompanhada de compromisso com suas doutrinas ou com a visão do sagrado que as sustenta. Incorpora-se a estética: o ritmo, a imagem, o símbolo, retirados do rito e da comunidade que lhes davam sentido. Uma máscara que só significa algo dentro do ritual de uma aldeia vai parar na parede de um museu, e quem a pendura ali segue regendo a própria vida pela mesma racionalidade de sempre.
Que beleza é essa
O livro, porém, não para no diagnóstico. A partir de Hans Urs von Balthasar, Amorim inverte a ordem de Kant e afirma que o encontro com Deus começa pelo Belo. Beleza, aqui, é a forma perceptível da glória de Deus numa realidade criada por, em e para Cristo.9 Antes de qualquer argumento, há um encontro que espanta e move as bases sensoriais de quem o vive.
As Escrituras estão cheias desses encontros. Isaías entra no templo e vê o Senhor num trono alto, as abas do manto enchendo o santuário, os umbrais tremendo, a casa se enchendo de fumaça. Sua primeira reação não é concordar com uma proposição, mas gritar: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6.5). O chamado vem depois. Mateus está na coletoria, no trabalho que o tornava odiado pelo próprio povo. Jesus passa e diz apenas: “Segue-me.” Sem argumento e sem explicação. Ele se levantou e o seguiu (Mt 9.9).
Essa visão de beleza inclui a feiura do pecado e a da própria cruz.10 Não é harmonia e proporção, o conceito grego que a igreja absorveu sem examinar direito. É beleza quebrada. A cruz é o exemplo máximo: um artefato de tortura imperial, sem nenhum apelo estético, que se transfigura quando seu significado é desvelado. Amorim escreve que, por trás de cada realidade criada, para quem tem olhos de ver, está etiquetado: “Produzido na Cruz de Cristo.” 11
Mas se a beleza, no sentido grego de harmonia e proporção, deixa de ser o critério, o que distingue uma obra de arte de qualquer outra coisa? Aqui o livro segue Calvin Seerveld, que troca a pergunta: em vez de decretar o que é arte, descrever como ela se manifesta. Isso acontece em três frentes: a formação hábil, o trabalho bem feito com o material; a qualidade imaginativa de quem percebe a realidade e a reconfigura; e as metáforas sutis que comunicam significados, o que Seerveld chama de alusividade.12 É uma descrição mais larga do que o critério antigo, e capaz de reconhecer arte onde o olhar clássico não veria.
Onde a glória deixou rastro
A terceira parte do livro percorre a história ocidental atrás desses rastros, de Platão às catedrais góticas. Então chegamos ao capítulo 9, que trata da Reforma. A tese de Amorim é que a Reforma não empobreceu as artes, mas sim as redirecionou. A glória de Deus saiu da janela devocional e passou a ser buscada em temas da vida cotidiana, e daí nasceram gêneros como a natureza-morta, a paisagem e o retrato. Estão ali as rugas das mulheres idosas lendo suas Bíblias em Rembrandt, as árvores caídas de Ruisdael, as partituras em que Bach escrevia à mão Soli Deo Gloria. Ao olhar desatento parecem obras seculares, mas sua alusividade aponta para uma beleza quebrada, que celebra a criação e reconhece o pecado e a morte.13
Mais adiante vem o capítulo sobre a arte contemporânea, que foi, segundo ele mesmo nos contou, o mais difícil de escrever, porque exigiu revisar uma narrativa que muitos de nós herdamos de Rookmaaker e Schaeffer: a de que a arte moderna e contemporânea é pura decadência, sem nada com que valha a pena dialogar. Para explicar o que de fato mudou, Amorim recorre ao crítico Arthur Danto. Até meados do século 20, a arte ocidental funcionava como uma corrida: cada movimento nascia para resolver um problema deixado pelo anterior, e a pergunta de fundo era qual estilo conseguiria enfim representar a realidade por inteiro. A arte contemporânea abandonou essa corrida. Não existe mais um estilo obrigatório, nem um tribunal que decida de antemão o que é e o que não é arte.14
Amorim faz, porém, duas ressalvas. A primeira é que essa abertura é menor do que se anuncia. Existe hoje um valor que organiza todos os outros no meio artístico, o da autenticidade individual, e uma obra que afirme algo compartilhado ou tradicional acaba soando como afronta. Quando A Árvore da Vida, de Terrence Malick, foi exibida e premiada em Cannes em 2011, boa parte da plateia vaiou e acusou o filme de proselitismo cristão.15 A segunda ressalva é que a vanguarda não acabou, apenas trocou de bandeira: até meados do século passado, ser artista era quase sinônimo de ser socialista, e a arte servia a um projeto de emancipação social; hoje o projeto é a emancipação do indivíduo, sobretudo no terreno da identidade e da sexualidade.
O que isso pede do cristão que cria
A última parte do livro é a mais aplicada, e o que ela descreve é um tipo de pessoa. Alguém que se deslumbra diante da glória de Deus, que tem raízes numa igreja local, que está disposto a aprender com cristãos de todas as épocas e tradições, e que leva a sério o desenvolvimento da técnica artística. E ninguém cria sozinho: artistas dependem de comunidade, de crítica honesta e de gente disposta a investir no trabalho deles.16
O cristão que cria não precisa transformar a obra em panfleto. Quem foi tocado por essa beleza passa a ver o mundo de outro modo, e esse outro modo aparece no que ele faz, mencionando ou não o nome de Cristo na obra. Termino com o que Rodolfo Amorim escreve na conclusão do livro, dirigindo-se tanto a quem cria quanto a quem aprecia:
“Em um mundo cansado e com olhos cínicos e céticos para a realidade, o lugar de cristãos na tarefa de uma criação reencantada e simultaneamente realista se faz necessário. Quando a cruz de Cristo se transforma em uma expressão única de beleza em artefatos artísticos inseridos na cultura, cristãos estão cooperando para a reconciliação de todas as coisas. Do mesmo modo, quando cristãos cultivam sob o senhorio de Cristo uma vida de fruição artística voltada ao enriquecimento da vida humana, certamente o reino de Deus será agraciado por pessoas mais capazes de expressar ao mundo a glória e o amor de Cristo Jesus.” 17
Notas:
1 DOSTOIÉVSKI, F. M. Carta a Sofia Alexandrovna, 1868. In: Letters of Fyodor Michailovitch Dostoyevsky to his Family and Friends. Citado em: AMORIM, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Viçosa: Ultimato, 2025. cap. 4, p. 59. Ver também: DOSTOIÉVSKI, F. M. O Idiota. São Paulo: Editora 34, 2017.
2 AMORIM, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Viçosa: Ultimato, 2025.
3 DOOYEWEERD, Herman. In the Twilight of Western Thought. Ontario: Cantaro Institute, 2021, p. 50. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 27.
4 WEBER, Max. Max Weber: Essays in Sociology. Ed. H. H. Gerth e C. Wright Mills. Londres: Routledge, 1948/2004, p. 149, 155. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 28.
5 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 172. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 1, p. 26.
6 NIETZSCHE, F. Human, All Too Human. Londres: Penguin Books, 2004, p. 150. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 2, p. 36.
7 ARNOLD, Matthew. Essays in Criticism: First and Second Series. Londres: J. M. Dent, 1880/1964, p. 235. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 2, p. 39.
8 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 63.
9 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 63-66. Ver: BALTHASAR, Hans Urs von. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, vol. 1: “Seeing the Form”. São Francisco: Ignatius Press, 1982.
10 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 4, p. 71.
11 Ibid.
12 SEERVELD, Calvin. “Reading the Bible and Understanding Art: How To Redeem Your Time in Taking a Look at Art”. Toronto: Institute for Christian Studies, 2002, p. 2. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 5, p. 84.
13 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 9, p. 148.
14 DANTO, Arthur. After the End of Art: Contemporary Art and the Pale of History. Princeton: Princeton University Press, 2021, p. 6-7. Citado em: AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 11, p. 177-178.
15 AMORIM, Rodolfo. Op. cit., cap. 11, p. 182.
16 Ibid., cap. 15, p. 235-236.
17 Ibid., Conclusão, p. 269.
***
Este texto nasceu da leitura de O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto no clube do livro do Vitral, encerrada com uma conversa com o autor. O encontro completo está disponível no canal do Nosso Vitral.
- Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
» A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, H. R. Rookmaaker
» A Arte e a Bíblia, Francis A. Schaeffer
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto –Uma das abordagens mais maduras e robustas sobre a relação entre fé, arte e cultura, Josué Camargo
» Os cristãos criativos estão chegando, Notícia
27 de agosto de 2026- Visualizações: 32
comente!- +A
- -A
-
compartilhar

Leia mais em Opinião
Opinião do leitor
Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta
Para escrever uma resposta é necessário estar cadastrado no site. Clique aqui para fazer o login ou seu cadastro.
Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.
Assuntos em Últimas
- 500AnosReforma
- Aconteceu Comigo
- Aconteceu há...
- Agenda50anos
- Arte e Cultura
- Biografia e História
- Casamento e Família
- Ciência
- Devocionário
- Espiritualidade
- Estudo Bíblico
- Evangelização e Missões
- Ética e Comportamento
- Igreja e Liderança
- Igreja em ação
- Institucional
- Juventude
- Legado e Louvor
- Meio Ambiente
- Política e Sociedade
- Reportagem
- Resenha
- Sessenta +
- Série Ciência e Fé Cristã
- Teologia e Doutrina
- Testemunho
- Vida Cristã
Revista Ultimato
+ lidos
- Esclarecendo seu propósito na terceira idade (parte 1)
- A mesa do perdão
- Perdão e qualidade de vida
- Uma andorinha não faz verão
- Em nome do céu – os perigos de uma fé cega
- Companhia, acolhimento e conselho até o encontro pessoal com Jesus
- Tradução da Bíblia – nenhum povo é pequeno demais para não ser lembrado
- Filhos não se formam na véspera da partida
- Fé cristã, democracia e refeição à mesa
- Jesus para os curiosos: o impulso que buscamos
(31)3611 8500
(31)99437 0043
Carta aos pastores congressistas
Congregacionais completam 170 anos de história no Brasil
Um olhar crítico sobre Lausanne 3






