Opinião
11 de setembro de 2026- Visualizações: 25
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50 anos no Ocidente: para onde estamos indo?
O clamor da guerra, as empresas falidas, o desemprego, a solidão, o fluxo de refugiados por todo o mundo contam essa história
Por Johannes Reimer
Em Frankfurt, o mundo brilha com glamour
Em 9 de julho de 1976, aterrissei em Frankfurt am Main com minha família. Um avião da Lufthansa nos trouxera de Moscou para a Alemanha. “Rumo à liberdade”, como dizia a galera. Meus pais esperavam por uma autorização de saída desde 1956. Finalmente, o momento havia chegado.
Para trás ficavam as amargas experiências da deportação de nossa família de nossa terra natal, no norte do Cáucaso, para a Sibéria Ocidental e o norte do Cazaquistão, e os túmulos dos parentes assassinados ou torturados até a morte pelo regime de Stalin.
Eu tinha 21 anos na época. Apenas alguns meses antes, eu havia sido dispensado do campo de trabalhos forçados do exército soviético por motivos de saúde. Eu me recusei a servir com uma arma no Exército Vermelho e passei por um verdadeiro inferno, suportando humilhações e maus-tratos.
Agora eu estava sentado em um avião ocidental e pedia uma Coca-Cola pela primeira vez na vida. Todo o meu ser estava no limite. O que nos esperava nesse Ocidente de que todos falavam tão bem?
Meus pais estavam ansiosos para voltar à sua terra ancestral. Depois de 200 anos vivendo no Império Russo e na União Soviética, será que aquela terra seria a mesma? Em casa, sempre falávamos alemão, e a família não abria mão dos costumes e tradições alemãs, acontecesse o que acontecesse.
Mais de uma vez eu levei uma surra simplesmente por ter falado russo em casa. Mas será que aquelas tradições que respeitávamos tão meticulosamente ainda eram importantes na Alemanha? As pessoas nos entenderiam? Nós entenderíamos os alemães?
Na Estônia, onde havíamos morado nos últimos dez anos, comprávamos as roupas mais modernas. Isso era ser europeu?
O avião pousou sem incidentes em Frankfurt. Em apenas duas horas, havíamos sobrevoado a fronteira entre o Leste e o Oeste, entre a ditadura e a democracia, entre a opressão e a liberdade. Será que essa era também a fronteira entre o ontem e o hoje, entre o passado e o futuro?
De qualquer forma, estávamos entrando em um mundo estranho. O aeroporto de Frankfurt me impressionou com seus letreiros de neon, todo o brilho e glamour dos anúncios e das promessas, e os inúmeros rostos sorridentes de pessoas de todo o mundo que corriam de um lado para outro ao nosso redor como formigas. Isso quase me deixou sem fôlego.
Olhei para minha família e percebi quanto éramos diferentes. Nossas roupas, supostamente na última moda, pareciam monótonas e fora de moda. E isso ficava evidente só de olhar para nossos rostos: não nos encaixávamos ali. Estávamos perdidos na sala de espera daquele outro mundo.
Naquele mesmo instante, os voluntários da Cruz Vermelha Alemã já estavam cuidando de nós.
Eles nos convidaram a segui-los e, depois de alguns minutos, nós os vimos: os outros reassentados, com expressões exaustas e um pouco desconcertadas, vestidos mais ou menos como nós e, no entanto, de alguma forma aliviados por terem chegado.
Olhei ao meu redor, com o olhar fixo nos letreiros de neon e nas pessoas que passavam apressadas ao meu redor, indo para algum lugar. Estávamos ali, na terra de nossos ancestrais alemães. Seria isso um retorno ao lar ou acabaria sendo, na verdade, uma provação?
50 anos: uma perspectiva diferente
Já se passaram cinquenta anos desde então; é muito tempo. Faz sentido fazer um balanço.
Durante esses anos, estudei na Alemanha, na Bélgica, nos Estados Unidos e na África do Sul; casei-me com uma alemã; tive três filhos e os vi crescer; fundei igrejas e organizações missionárias; e participei ativamente do trabalho pastoral e de evangelização.
Como vejo hoje a Alemanha e o Ocidente, após cinquenta anos? Foi isso um retorno ao lar ou, antes, uma provação?
Sei que, como repatriado da União Soviética, muitas vezes sou acusado de ser diferente – tal como consta no meu próprio livro, Os repatriados são diferentes. Eu também tenho minha própria perspectiva sobre os acontecimentos das últimas décadas.
Minha origem na Europa Oriental, meus estudos nos Estados Unidos e na África do Sul, e minhas muitas viagens e ministérios em mais de uma centena de países moldaram essa perspectiva. Mas talvez seja justamente essa perspectiva um pouco diferente que se revele interessante e útil.
Então, como vejo o Ocidente após cinquenta anos vivendo e trabalhando aqui? Várias observações me vêm à mente.
Em primeiro lugar, observo como nossas sociedades estão se desintegrando como coletivo e até mesmo sendo literalmente corroídas por um individualismo cada vez maior.
Sob o pretexto da democracia, a verdade e a fé são relativizadas, e a própria opinião se ergue como o critério definitivo de autenticidade.
A comunidade, o coletivo, ao contrário, é vista como uma massa cinzenta de cidadãos indiferentes que representam uma ameaça.
Mas os valores coletivos e compartilhados, bem como uma cultura forjada ao longo de séculos – que, em última instância, lançaram as bases de nossa prosperidade – estão desaparecendo da sociedade.
A antropologia cultural nos ensina que essa cultura é a verdadeira força que nos permite enfrentar a vida. Em que, então, o indivíduo deveria poder confiar em um mundo em que só conta sua opinião particular e momentânea?
Em meio à enorme quantidade de opiniões, já não se vislumbra o caminho a seguir. Será de se admirar que a solidão esteja se tornando uma das principais causas de depressão e outros transtornos mentais na sociedade?
Afinal, uma pessoa que se vê abandonada à própria sorte ainda é humana? Ou, pelo contrário, ela definha em sua “prisão do eu” construída por ela mesma? Será que os indivíduos egocêntricos do Ocidente serão capazes de moldar o mundo de alguma forma além da onda destrutiva do egoísmo?
Receio que não. O individualismo, no entanto, apresenta a cada dia novas variantes. Afirmam estar a favor das pessoas, mas todas elas estão em conflito entre si. E não promovem a verdadeira humanidade. Na verdade, elas a banem para um canto reservado aos “cansados e oprimidos”.
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E, em quarto lugar, observo com profunda preocupação como as tendências de direita, às vezes extremamente ditatoriais, estão ressurgindo por toda parte no Ocidente.
Os “Trumps” deste mundo se multiplicam a um ritmo impressionante. Eles parecem oferecer aos nossos contemporâneos, mergulhados em uma profunda inquietação, uma âncora à qual ainda é possível se agarrar, mesmo quando tudo o mais desmorona.
Como alguém que fugiu da ditadura soviética há cinquenta anos, só posso lançar um alerta: os novos reis não são salvadores; assim como Donald Trump, eles sempre pensam primeiro em encher os próprios bolsos.
O que acontecer com o resto da humanidade nesse processo tem pouca importância. E, em última análise, é por isso que a iminente catástrofe climática, o aquecimento global e outras ameaças ao futuro não são reconhecidos, e guerras são instigadas para depois serem apresentadas como iniciativas de paz.
O fato de milhares de pessoas inocentes morrerem nesse processo parece preocupá-los muito pouco.
E, então, me surpreendo com o quanto o Ocidente se tornou ímpio nos últimos cinquenta anos. Eu fugi daquele país ateu na época.
Aqui no Ocidente, os políticos prestavam juramento com a Bíblia na mão para servir ao seu país com lealdade e devoção a Deus.
Mas agora estamos a anos-luz disso. Não é Deus, mas o homem egoísta que assumiu as rédeas em todos os lugares. E não é a Bíblia como fundamento da verdade, mas o espírito da época que dita o que deve ser correto e justo.
Consequentemente, não são a Rússia e seus satélites soviéticos, mas os países ocidentais, que agora constituem as sociedades ateias do mundo.
Na Rússia daquela época, dizia-se: “Sem Deus, o caminho é mais largo”. Mas o destino desse caminho estava oculto às massas. Hoje sabemos: ele levou à ruína de milhões de pessoas! Será que o Ocidente está simplesmente repetindo a mesma loucura uma e outra vez?
Não há dúvida de que a crescente decadência das igrejas cristãs no Ocidente é, para mim, nesse sentido, o acontecimento mais triste das últimas décadas.
Que época de evangelização e renovação espiritual vivíamos quando chegamos à Alemanha em 1976! Era a época de Billy Graham e Luis Palau, a época do renascimento carismático e de uma intensa expansão das missões globais.
O que resta hoje de tudo isso? De qualquer forma, esse avivamento está ocorrendo nos países do Sul Global.
No Ocidente, ao contrário, a Igreja está em declínio. Só na Alemanha, centenas de milhares de pessoas abandonam a igreja a cada ano. E em outros países ocidentais, a situação não é nem um pouco melhor.
A deterioração social não seria também uma consequência do declínio da Igreja? A voz de advertência de Deus não estaria se apagando junto com ela? E será por isso que as massas clamam por um novo salvador político, porque perderam de vista Jesus Cristo? Eu acredito que sim.
Quo Vadis, Ocidente?
Então, para onde estamos indo na Alemanha e no Ocidente em geral? Para um futuro promissor? Quem ainda acredita nisso? Eu, certamente, não.
O clamor diário da guerra, as centenas de milhares de empresas falidas e um exército cada vez maior de pessoas desempregadas e solitárias, bem como o fluxo de refugiados por todo o mundo, contam uma história bem diferente.
Já é hora de refletir sobre os alicerces da nossa democracia ocidental. E estes não estão no humanismo europeu, como hoje se afirma tantas vezes de forma equivocada, mas na fé em Deus, que criou a vida na Terra e enviou seu Filho, Jesus Cristo, para salvar nós, seres humanos, da destruição (Jo 3.16).
Não, não é tarde demais para nos arrependermos, mas precisamos fazê-lo se quisermos viver em paz e prosperidade.
Não, não me arrependi de ter vindo para o Ocidente em 1976. Mas, com o passar dos anos, perdi todas as minhas ilusões e só posso esperar que Deus seja misericordioso também conosco. O que precisamos é de um renascimento espiritual.
Artigo originalmente publicado no site Protestante Digital. Reproduzido com permissão na edição 421 de Ultimato.
Imagem 1: Unsplash.
Imagem 2: Restaurante onde até o início dos anos 2000 funcionou a Igreja Martini em Bielefeld-Gadderbaum, Alemanha.
Imagem 3: Antiga Igreja de Martini em Bielefeld-Gadderbaum, Alemanha.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?
A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» O Evangelho em uma Sociedade Pluralista, Lesslie Newbigin
» A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja, Ricardo Barbosa
» O Evangelho – Uma mensagem que transforma a vida, John Stott e Tim Chester
» O Evangelho é a verdade pública
Por Johannes Reimer
Em Frankfurt, o mundo brilha com glamourEm 9 de julho de 1976, aterrissei em Frankfurt am Main com minha família. Um avião da Lufthansa nos trouxera de Moscou para a Alemanha. “Rumo à liberdade”, como dizia a galera. Meus pais esperavam por uma autorização de saída desde 1956. Finalmente, o momento havia chegado.
Para trás ficavam as amargas experiências da deportação de nossa família de nossa terra natal, no norte do Cáucaso, para a Sibéria Ocidental e o norte do Cazaquistão, e os túmulos dos parentes assassinados ou torturados até a morte pelo regime de Stalin.
Eu tinha 21 anos na época. Apenas alguns meses antes, eu havia sido dispensado do campo de trabalhos forçados do exército soviético por motivos de saúde. Eu me recusei a servir com uma arma no Exército Vermelho e passei por um verdadeiro inferno, suportando humilhações e maus-tratos.
Agora eu estava sentado em um avião ocidental e pedia uma Coca-Cola pela primeira vez na vida. Todo o meu ser estava no limite. O que nos esperava nesse Ocidente de que todos falavam tão bem?
Meus pais estavam ansiosos para voltar à sua terra ancestral. Depois de 200 anos vivendo no Império Russo e na União Soviética, será que aquela terra seria a mesma? Em casa, sempre falávamos alemão, e a família não abria mão dos costumes e tradições alemãs, acontecesse o que acontecesse.
Mais de uma vez eu levei uma surra simplesmente por ter falado russo em casa. Mas será que aquelas tradições que respeitávamos tão meticulosamente ainda eram importantes na Alemanha? As pessoas nos entenderiam? Nós entenderíamos os alemães?
Na Estônia, onde havíamos morado nos últimos dez anos, comprávamos as roupas mais modernas. Isso era ser europeu?
O avião pousou sem incidentes em Frankfurt. Em apenas duas horas, havíamos sobrevoado a fronteira entre o Leste e o Oeste, entre a ditadura e a democracia, entre a opressão e a liberdade. Será que essa era também a fronteira entre o ontem e o hoje, entre o passado e o futuro?
De qualquer forma, estávamos entrando em um mundo estranho. O aeroporto de Frankfurt me impressionou com seus letreiros de neon, todo o brilho e glamour dos anúncios e das promessas, e os inúmeros rostos sorridentes de pessoas de todo o mundo que corriam de um lado para outro ao nosso redor como formigas. Isso quase me deixou sem fôlego.
Olhei para minha família e percebi quanto éramos diferentes. Nossas roupas, supostamente na última moda, pareciam monótonas e fora de moda. E isso ficava evidente só de olhar para nossos rostos: não nos encaixávamos ali. Estávamos perdidos na sala de espera daquele outro mundo.
Naquele mesmo instante, os voluntários da Cruz Vermelha Alemã já estavam cuidando de nós.
Eles nos convidaram a segui-los e, depois de alguns minutos, nós os vimos: os outros reassentados, com expressões exaustas e um pouco desconcertadas, vestidos mais ou menos como nós e, no entanto, de alguma forma aliviados por terem chegado.
Olhei ao meu redor, com o olhar fixo nos letreiros de neon e nas pessoas que passavam apressadas ao meu redor, indo para algum lugar. Estávamos ali, na terra de nossos ancestrais alemães. Seria isso um retorno ao lar ou acabaria sendo, na verdade, uma provação?
50 anos: uma perspectiva diferente
Já se passaram cinquenta anos desde então; é muito tempo. Faz sentido fazer um balanço.Durante esses anos, estudei na Alemanha, na Bélgica, nos Estados Unidos e na África do Sul; casei-me com uma alemã; tive três filhos e os vi crescer; fundei igrejas e organizações missionárias; e participei ativamente do trabalho pastoral e de evangelização.
Como vejo hoje a Alemanha e o Ocidente, após cinquenta anos? Foi isso um retorno ao lar ou, antes, uma provação?
Sei que, como repatriado da União Soviética, muitas vezes sou acusado de ser diferente – tal como consta no meu próprio livro, Os repatriados são diferentes. Eu também tenho minha própria perspectiva sobre os acontecimentos das últimas décadas.
Minha origem na Europa Oriental, meus estudos nos Estados Unidos e na África do Sul, e minhas muitas viagens e ministérios em mais de uma centena de países moldaram essa perspectiva. Mas talvez seja justamente essa perspectiva um pouco diferente que se revele interessante e útil.
Então, como vejo o Ocidente após cinquenta anos vivendo e trabalhando aqui? Várias observações me vêm à mente.
Em primeiro lugar, observo como nossas sociedades estão se desintegrando como coletivo e até mesmo sendo literalmente corroídas por um individualismo cada vez maior.
Sob o pretexto da democracia, a verdade e a fé são relativizadas, e a própria opinião se ergue como o critério definitivo de autenticidade.
A comunidade, o coletivo, ao contrário, é vista como uma massa cinzenta de cidadãos indiferentes que representam uma ameaça.
Mas os valores coletivos e compartilhados, bem como uma cultura forjada ao longo de séculos – que, em última instância, lançaram as bases de nossa prosperidade – estão desaparecendo da sociedade.
A antropologia cultural nos ensina que essa cultura é a verdadeira força que nos permite enfrentar a vida. Em que, então, o indivíduo deveria poder confiar em um mundo em que só conta sua opinião particular e momentânea?
Em meio à enorme quantidade de opiniões, já não se vislumbra o caminho a seguir. Será de se admirar que a solidão esteja se tornando uma das principais causas de depressão e outros transtornos mentais na sociedade?
Afinal, uma pessoa que se vê abandonada à própria sorte ainda é humana? Ou, pelo contrário, ela definha em sua “prisão do eu” construída por ela mesma? Será que os indivíduos egocêntricos do Ocidente serão capazes de moldar o mundo de alguma forma além da onda destrutiva do egoísmo?
Receio que não. O individualismo, no entanto, apresenta a cada dia novas variantes. Afirmam estar a favor das pessoas, mas todas elas estão em conflito entre si. E não promovem a verdadeira humanidade. Na verdade, elas a banem para um canto reservado aos “cansados e oprimidos”.
.gif)
E, em quarto lugar, observo com profunda preocupação como as tendências de direita, às vezes extremamente ditatoriais, estão ressurgindo por toda parte no Ocidente.
Os “Trumps” deste mundo se multiplicam a um ritmo impressionante. Eles parecem oferecer aos nossos contemporâneos, mergulhados em uma profunda inquietação, uma âncora à qual ainda é possível se agarrar, mesmo quando tudo o mais desmorona.
Como alguém que fugiu da ditadura soviética há cinquenta anos, só posso lançar um alerta: os novos reis não são salvadores; assim como Donald Trump, eles sempre pensam primeiro em encher os próprios bolsos.
O que acontecer com o resto da humanidade nesse processo tem pouca importância. E, em última análise, é por isso que a iminente catástrofe climática, o aquecimento global e outras ameaças ao futuro não são reconhecidos, e guerras são instigadas para depois serem apresentadas como iniciativas de paz.
O fato de milhares de pessoas inocentes morrerem nesse processo parece preocupá-los muito pouco.
E, então, me surpreendo com o quanto o Ocidente se tornou ímpio nos últimos cinquenta anos. Eu fugi daquele país ateu na época.
Aqui no Ocidente, os políticos prestavam juramento com a Bíblia na mão para servir ao seu país com lealdade e devoção a Deus.
Mas agora estamos a anos-luz disso. Não é Deus, mas o homem egoísta que assumiu as rédeas em todos os lugares. E não é a Bíblia como fundamento da verdade, mas o espírito da época que dita o que deve ser correto e justo.
Consequentemente, não são a Rússia e seus satélites soviéticos, mas os países ocidentais, que agora constituem as sociedades ateias do mundo.
Na Rússia daquela época, dizia-se: “Sem Deus, o caminho é mais largo”. Mas o destino desse caminho estava oculto às massas. Hoje sabemos: ele levou à ruína de milhões de pessoas! Será que o Ocidente está simplesmente repetindo a mesma loucura uma e outra vez?
Não há dúvida de que a crescente decadência das igrejas cristãs no Ocidente é, para mim, nesse sentido, o acontecimento mais triste das últimas décadas.
Que época de evangelização e renovação espiritual vivíamos quando chegamos à Alemanha em 1976! Era a época de Billy Graham e Luis Palau, a época do renascimento carismático e de uma intensa expansão das missões globais.
O que resta hoje de tudo isso? De qualquer forma, esse avivamento está ocorrendo nos países do Sul Global.
No Ocidente, ao contrário, a Igreja está em declínio. Só na Alemanha, centenas de milhares de pessoas abandonam a igreja a cada ano. E em outros países ocidentais, a situação não é nem um pouco melhor.
A deterioração social não seria também uma consequência do declínio da Igreja? A voz de advertência de Deus não estaria se apagando junto com ela? E será por isso que as massas clamam por um novo salvador político, porque perderam de vista Jesus Cristo? Eu acredito que sim.
Quo Vadis, Ocidente?
Então, para onde estamos indo na Alemanha e no Ocidente em geral? Para um futuro promissor? Quem ainda acredita nisso? Eu, certamente, não.O clamor diário da guerra, as centenas de milhares de empresas falidas e um exército cada vez maior de pessoas desempregadas e solitárias, bem como o fluxo de refugiados por todo o mundo, contam uma história bem diferente.
Já é hora de refletir sobre os alicerces da nossa democracia ocidental. E estes não estão no humanismo europeu, como hoje se afirma tantas vezes de forma equivocada, mas na fé em Deus, que criou a vida na Terra e enviou seu Filho, Jesus Cristo, para salvar nós, seres humanos, da destruição (Jo 3.16).
Não, não é tarde demais para nos arrependermos, mas precisamos fazê-lo se quisermos viver em paz e prosperidade.
Não, não me arrependi de ter vindo para o Ocidente em 1976. Mas, com o passar dos anos, perdi todas as minhas ilusões e só posso esperar que Deus seja misericordioso também conosco. O que precisamos é de um renascimento espiritual.
- Johannes Reimer é professor de estudos missionários e teologia intercultural na Universidade de Artes Aplicadas de Ewersbach, Alemanha, e diretor de engajamento público da Aliança Evangélica Mundial. Autor de Transformando o Mundo – Fundamentos de uma teologia da transformação (Editora Esperança) e outros.
Artigo originalmente publicado no site Protestante Digital. Reproduzido com permissão na edição 421 de Ultimato.
Imagem 1: Unsplash.
Imagem 2: Restaurante onde até o início dos anos 2000 funcionou a Igreja Martini em Bielefeld-Gadderbaum, Alemanha.
Imagem 3: Antiga Igreja de Martini em Bielefeld-Gadderbaum, Alemanha.
REVISTA ULTIMATO – VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO?A epidemia de solidão é um fenômeno global que ultrapassa fronteiras, níveis de renda, faixa etária e sofisticação tecnológica. Que consequências este cenário tem para a missão da igreja no mundo?
Talvez a solidão seja uma grande oportunidade de voltar às verdades mais básicas do evangelho: encarnação e presença.
Esta oração pode e deve ser feita por todos nós: “Deus de toda amabilidade e beleza, até a mais humilde criatura encontra seu lar perto de ti. Que a tua igreja seja um lugar de segurança para todo viajante que te busca, todo crente que em ti confia e todo discípulo que te segue”. Saiba mais aqui.
Saiba mais:
» O Evangelho em uma Sociedade Pluralista, Lesslie Newbigin
» A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja, Ricardo Barbosa
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