Palavra do leitor
30 de setembro de 2016- Visualizações: 1051
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Voto: um direito seu
A cada dois anos, nós brasileiros cumprimos um dever cívico: sair de casa, ir a um dos pontos de votação, entrar numa cabine de votação eletrônica e lá na urna depositar nossas escolhas. Instrumento democrático que credencia os mais bem ranqueados a ocupar um cargo eletivo, o voto é um dos poucos dispositivos que mesclam um direito e um dever do indivíduo. A característica de dever já é consenso social: o voto no Brasil é obrigatório. Mas você sabia que o voto também um direito?
Sim, nos é dado o poder de manifestar – através do voto – nossas opções políticas. Votar em alguém, anular, passar um voto em branco. Podemos nem ir votar (e pagar uma irrisória multa por isso). Mas todos os caminhos só se tornam disponíveis porque sua gênese é o direito que temos de optar por qual caminho percorrerá o sufrágio.
Um dos principais filósofos políticos do século XX, Norberto Bobbio sintetiza a democracia como o “governo do público em público”. Se em tempos recentes nos foi vedado o direito de votar, a opção de escolher e a possibilidade de cobrar, foi porque vivemos tempos nada democráticos, onde o voto perdeu sentido e o autoritarismo ganhou força.
Num salto temporal para o presente, vivemos tempos de plena democracia: instituições funcionam, Constituição Federal promulgada. Mas o turbilhão político, aliado à crise econômica e o total descrédito na representatividade política incensaram uma polarização partidária e ideológica jamais vista. A partir de uma visão binária, onde se um está totalmente certo o outro é julgado como errado, amizades são desfeitas, relações familiares ficam estremecidas, pré-julgamentos ficam sedimentados. Parece lamentável. E é.
No campo da Ciência Política, podemos dialogar o momento atual com as impressões feitas por Hannah Arendt, teórica alemã. Em seu clássico ‘As origens do totalitarismo’ (1951), a filósofa discorre que a sociedade sustenta padrões estéticos e comportamentais deploráveis porque não há análises – ou autocríticas – sobre as repercussões dos próprios atos.
Quando transportamos tais apontamentos à perspectiva teológica, e aqui priorizando uma visão cristocêntrica, é possível observar quem Jesus convocou e anunciou o Reino. Alguma única corrente ideológica, alguma influência partidária monolítica? Nada disso. A sabedoria de quem se fez carne transcende o exercício binário do xadrez político e coloca – em todas as peças do tabuleiro – um único mover: a de negar a si mesmo e tomar sua cruz. (Lc 9:23).
Quando falamos do apostolado, o cenário é ainda mais curioso e interessante. Entre os 12 que tinham autoridade sobre espíritos ruins e capacidade de curar doenças e outros males (Mt 10:1-15), Jesus chamou o que podemos classificar como oposição radical e pró-governo. Simão, o zelote, era de um grupo minoritário nacionalista pronto para pegar em armas contra Roma (e assim faria entre os anos 66 e 70 D.C). Já Mateus, o publicano, seguia pari passu as determinações de Roma coletando taxas, tributos e impostos.
Diante de plena lição, parece óbvio constatar que um país não pode se digladiar entre esquerda e direita em busca de uma utópica ideologia hegemônica. A política é a arte do diálogo, a busca do consenso. Se na multidão de conselheiros há segurança (Pv 11:14) é porque seu pressuposto é de que haja interesses em comum, ainda que eventualmente se colidam.
Assim, não deixe de cumprir seu dever de votar, mas saiba que sua opção é um direito só seu.
Felipe Barreto é presbítero da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo (Rio de Janeiro) e graduando em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana. É mestre em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e jornalista há 18 anos.
Sim, nos é dado o poder de manifestar – através do voto – nossas opções políticas. Votar em alguém, anular, passar um voto em branco. Podemos nem ir votar (e pagar uma irrisória multa por isso). Mas todos os caminhos só se tornam disponíveis porque sua gênese é o direito que temos de optar por qual caminho percorrerá o sufrágio.
Um dos principais filósofos políticos do século XX, Norberto Bobbio sintetiza a democracia como o “governo do público em público”. Se em tempos recentes nos foi vedado o direito de votar, a opção de escolher e a possibilidade de cobrar, foi porque vivemos tempos nada democráticos, onde o voto perdeu sentido e o autoritarismo ganhou força.
Num salto temporal para o presente, vivemos tempos de plena democracia: instituições funcionam, Constituição Federal promulgada. Mas o turbilhão político, aliado à crise econômica e o total descrédito na representatividade política incensaram uma polarização partidária e ideológica jamais vista. A partir de uma visão binária, onde se um está totalmente certo o outro é julgado como errado, amizades são desfeitas, relações familiares ficam estremecidas, pré-julgamentos ficam sedimentados. Parece lamentável. E é.
No campo da Ciência Política, podemos dialogar o momento atual com as impressões feitas por Hannah Arendt, teórica alemã. Em seu clássico ‘As origens do totalitarismo’ (1951), a filósofa discorre que a sociedade sustenta padrões estéticos e comportamentais deploráveis porque não há análises – ou autocríticas – sobre as repercussões dos próprios atos.
Quando transportamos tais apontamentos à perspectiva teológica, e aqui priorizando uma visão cristocêntrica, é possível observar quem Jesus convocou e anunciou o Reino. Alguma única corrente ideológica, alguma influência partidária monolítica? Nada disso. A sabedoria de quem se fez carne transcende o exercício binário do xadrez político e coloca – em todas as peças do tabuleiro – um único mover: a de negar a si mesmo e tomar sua cruz. (Lc 9:23).
Quando falamos do apostolado, o cenário é ainda mais curioso e interessante. Entre os 12 que tinham autoridade sobre espíritos ruins e capacidade de curar doenças e outros males (Mt 10:1-15), Jesus chamou o que podemos classificar como oposição radical e pró-governo. Simão, o zelote, era de um grupo minoritário nacionalista pronto para pegar em armas contra Roma (e assim faria entre os anos 66 e 70 D.C). Já Mateus, o publicano, seguia pari passu as determinações de Roma coletando taxas, tributos e impostos.
Diante de plena lição, parece óbvio constatar que um país não pode se digladiar entre esquerda e direita em busca de uma utópica ideologia hegemônica. A política é a arte do diálogo, a busca do consenso. Se na multidão de conselheiros há segurança (Pv 11:14) é porque seu pressuposto é de que haja interesses em comum, ainda que eventualmente se colidam.
Assim, não deixe de cumprir seu dever de votar, mas saiba que sua opção é um direito só seu.
Felipe Barreto é presbítero da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo (Rio de Janeiro) e graduando em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana. É mestre em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e jornalista há 18 anos.
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dos seus autores e não representam a opinião da Editora ULTIMATO.
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