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Palavra do leitor

O olhar de Jesus melhora o meu (e não o contrário)

O amor de Deus é uma intervenção radical nas cosmovisões ou sistemas culturais. Logo, se todo o mundo nos trata como "o resto", temos que passar a olhar para nós mesmos do modo como Jesus fez com a samaritana, sem lentes para aumentar ou diminuir. Ele nos vê exatamente como somos, sem os rótulos e fenômenos distanciadores que colocam sobre nós. O encontro de Jesus com a mulher samaritana (Jo 4:1-42) evidencia sua hermenêutica antirrelativista.

A mulher anônima mais famosa da Bíblia vivia fora dos padrões morais e religiosos estabelecidos por aqueles que vieram antes dela. Mas como Jesus a via?

Talvez esse seja o aspecto mais delicado da vida e do caráter daquela mulher sobre o qual podemos especular apenas, uma vez que o texto nada informa sobre as razões pelas quais a samaritana vivia uma estranha "matemática" na qual estar junto significava estar sozinha (v.18). Na matemática dos amantes, cinco mais um é igual a zero.

Todavia, Jesus, ao indagá-la sobre sua intimidade, o faz com a sabedoria de seu amor e, por isso, toca-lhe justamente onde dói, fazendo-lhe refletir sobre sua condição de pecadora. Esta condição consistia em separação e solidão em relação ao amor de Deus por meio de suas uniões contaminadas com os mesmos homens que não mantinham com ela uma relação única e duradoura de amor mútuo.

Não podemos afirmar que todos os relacionamentos que a mulher tivera foram ilícitos ou pecaminosos, mas certamente o último deles era um relacionamento adúltero. Note que a ela Jesus diz: "Vai, chama o teu marido e vem cá" (v. 16), mesmo sabendo que aquele de quem falava não era seu marido. E, logo em seguida, diz que ela havia tido cinco maridos "e o que tens agora não é teu marido" (v.18b). Como alguém tem um marido e não o tem ao mesmo tempo? Essa é uma prova de que Jesus não era um aristotélico textualista como alguns teólogos gostariam que fosse. Mas a mulher entendeu claramente o que Jesus estava a lhe dizer, a julgar pela sua resposta. Ao se ver tão "nua" diante do sétimo homem de sua vida, e com sua alma tão exatamente "radiografada" pelo seu olhar, restou à mulher concluir que se encontrara, não com mais um judeu pretensiosamente superior, mas com um "profeta" (v.19).

É bem mais fácil ser cristão desprezando o modo de ser e pensar de Jesus, evitando agir como ele agia em relação a determinadas pessoas que a moral vigente e uma tradição religiosa consideram pessoas de má reputação. Isso mostra que Jesus apenas ocupa um lugar na cosmovisão de muitos cristãos, ao invés de ter autoridade sobre ela pelo fato de ser Deus com o Pai e o Espírito Santo. O que Ele disse a respeito do templo: "Eis aqui um que é maior que o templo", Ele também está dizendo sobre as cosmovisões cristãs: "Eis aqui alguém maior que a cosmovisão cristã". Portanto, se um homem quer mostrar superioridade em relação a uma mulher ou a qualquer outra pessoa, que faça isso no seu proceder semelhante ao de Jesus, do contrário terá dificuldades para provar que é, em algum sentido, superior a qualquer outro ser humano.
Aracaju - SE
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