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Palavra do leitor

O paradoxo existencial

"Não se pode endireitar o que está torto; da mesma maneira que não se pode contar o que está faltando" (Ecl 1:15). A vida é marcada por imperfeições que não podem ser simplesmente corrigidas ou ajustadas; do mesmo modo, nem toda falta pode ser preenchida.

Eclesiastes é frequentemente considerado um livro escrito por um autor cético. No entanto, esse suposto "ceticismo" não consiste na negação do sentido, mas numa desconfiança profunda diante das promessas humanas de completude. O ser humano deseja tornar tudo calculável e controlável, e a racionalização aparece como o principal meio para esse intento.

Apesar da tentativa constante de sujeitar todas as coisas ao seu domínio, o sábio reconhece que é necessário aceitar que nem tudo se endireita e que nem toda falta se preenche. Tal reconhecimento desloca o sujeito de uma posição de senhor do mundo para a condição de mero habitante de um espaço-tempo imprevisível.

Nesse sentido, o livro é menos cético do que aparenta: o sábio rompe com a fantasia de completude que atravessa tanto a religião quanto a racionalidade e aponta para uma forma de viver que suporta o limite sem precisar negá-lo ou corrigi-lo, inclusive por meio da racionalização moderna.

Ainda assim, Deus "[...] colocou a eternidade no coração [...]" (Ecl 3:11). Isto é, a alma humana anseia por algo que ultrapassa o efêmero; busca profundidade, sentido e propósito. Eis o paradoxo existencial: embora não se controle o acaso nem a imprevisibilidade da vida, e apesar da constatação do finito e daquilo que sempre escapa, o desejo não se satura. Ao contrário, ele se mantém — e, em certo sentido, como defesa — diante da angústia do indeterminado.
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