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Palavra do leitor

A vila e o sr. Indigente: Valeu demais!

A maioria da Vila era gente boa. Trabalhadora. Mas olhava por trás das paredes, com câmeras em punho.

— Que jeito jambrônico e reverbórico!

Era o Sr. Indigente, o novo morador. Ora muito claro, seguro, autêntico, convincente, ora obscuro, bipolar e autossuficiente...

— Deem-lhe o desprezo!
— Não! Vamos tratá-lo como se fosse sábio ou importante. Deixe que se engane. Se a máscara não cair, o tropeço vem pelo ego!

O maior pretexto para carimbá-lo como megalomaníaco e fariseu viera no dia do seu aniversário. Sem que ninguém na vizinhança soubesse da data ou do motivo de seu contentamento radiante, ele soltara nos ares da Vila, como quem atualiza o mural da própria existência na base do gogó, um brado sonoro e efusivo:

— Vai, Corinthians!

Para o vizinho que detestava batuque e o ambiente dos estádios, aquele grito de arquibancada soou como uma profanação barulhenta, o ápice da malandragem mundana.

Mas o homem não parou ali. Logo em seguida, como se emendasse uma publicação invisível na linha do tempo da calçada, declamou em voz alta na varanda, para os ventos e para quem quisesse ouvir, uma oração desconcertante que expressava gratidão e exaltação da graça como segurança da salvação. A Vila entrou em choque. Que escandalosa presunção!

— Olha, fala baixo... Lá vem ele assobiando novamente, declamando aos ares...
— Bom dia, Sr. Indigente! A gente... a gente acabou de falar do senhor...

O Sr. Indigente os tratava com seriedade bem-humorada. Sem o mínimo de deboche. Aprendera desde cedo que pessoas sérias não debocham.

— Sempre bom encontrá-los! Até!

Dentre tantos honestos da Vila que evitavam leviandades, um fez o convite para o Sr. Indigente: caminhar. Assim poderiam conversar. Outro encarregou-se de escrutinar-lhe a vida.

— Mas, se ele é indigente, não há registros. É mero Heimatlos!
— Comece pela polícia e pelos tribunais, depois pelo SPC e pelo Serasa!

E o Sr. Indigente seguiu sereníssimo, entoando bem alto e alegre, na direção dos ventos, versos sacros:

— Valeu demais!

E dançava. Feliz, dançava. E batucava...

O vizinho honesto chamou:

— Vamos caminhar hoje?
— Fechou.

E caminharam. A Vila inteira olhando da janela. Dois homens andando sem pressa são mais suspeitos que dois homens correndo.

— Sr. Indigente, o senhor me parece inteligente. Mas parece que não quer nada com nada. Isso me confunde.
— É que eu já quis tudo com tudo, e me cansei. Agora quero nada, mas com eternidade. E isso já é tudo. Porque, como disse um sábio: tudo que não é eterno é eternamente inútil.
— Frase forte! Você também se considera sábio?
— Não. Sábio foi o sábio que escreveu: sábio é o cantar do sabiá. Sábia é a voz que vem de Deus.
— Sensacional! Mas e seu histórico? De onde o senhor veio?
— Vim de onde todo mundo vem. De um ventre. E estou indo para onde todo mundo vai. Para o pó. O meio é que é a graça. E graça tem ritmo. Quer ouvir?

O Sr. Indigente parou. Bateu palma. Uma, duas. Fez um batuque sincopado na própria coxa.

— Valeu demais! Valeu demais! — entoou.

O vizinho da caminhada travou o passo. Riso amarelado. Seu ouvido era avesso àquele batuque alegre.

Mas o batuque não lembrava Carnaval, terreiro ou boteco. Era harmônico, melódico, teológico e poético. Mas batuque é batuque. Ponto-final.

Porém a letra... a letra era uma prece. Foi ali que a ficha dele começou a cair: o som do indigente não lembrava balbúrdia, mas crente. Era a prece de um sem-teto pedindo o céu inteiro.

Enquanto isso, o outro vizinho, o investigador, estava no quarto escuro. Tela azul no rosto. Digitou o nome completo. Nada. CPF. Nada. RG. Nada. Processos. Nada. Instagram. Uma foto de um pé descalço na grama. Perfil sem rosto. Ele bufou. Como pode?

Ligou para o companheiro da caminhada:
— E aí, descobriu?

O da caminhada respondeu, de olho no batuque:
— Descobri que ele não tem Serasa porque é quase hippie, mas com valores opostos ao "sem lenço e sem documentos". E nós, que vivemos feito yuppies e temos nome limpo, sujamos a alma de tanto investigar e prejulgar um desconhecido.

O Sr. Indigente ouviu o desabafo, parou, e o sorriso orgulhoso deu lugar a um olhar sincero de réu:

— Não se culpe tanto, meu irmão. Eu também sujei a minha só para inflar meu ego com o espanto de vocês. Se acharem algo em meu nome, me avisem. Espero que ele esteja bem registrado no céu. Se for no inferno, que é meu lugar de direito pelos erros, recorro. Não por ser inocente, mas por ter o melhor Advogado. Ele limpa o nome de quem não tem como pagar a dívida.

E seguiu sereníssimo. Descalço. Feliz, dançava. E batucava. E a Vila, que antes filmava, agora, sem querer, começou a ouvir o ritmo e a melodia:

Valeu demais!

O vizinho finalmente captou a sutileza do som. De longe, o ouvido apressado confundia o batuque com o balanço clássico e suingado de uma arte popular. Mas o segredo e a diferença estavam na poesia, na gramática, no acento, no conteúdo, no espírito e na forma que a entrega daquela exclamação trazia em sua proposta.

Não era o pagode. Era Kerr!
Vale Do Itajaí - SC
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