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PRATELEIRA

Perguntas e respostas sobre meio ambiente

Hoje (05/06) é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Para lembrar a data, reproduzimos abaixo, na íntegra, o painel especial sobre o tema publicado na edição atual da revista Ultimato (336, maio-junho). Ouvimos dez cristãos que têm muito o que falar sobre o assunto.
 
 
O ultimato da terra
A Igreja e o que (+) a Rio+20 deveria tratar
 
Na tarde do dia 20 de junho começará no Rio de Janeiro a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável), exatos 20 anos depois da Rio 92, a principal conferência sobre meio ambiente já realizada. Diferentemente da Rio 92, que foi uma conferência sobre o meio ambiente, a Rio+20 tem como objetivo principal debater o desenvolvimento sustentável. Cerca de 50 mil pessoas são esperadas, entre elas mais de cem presidentes e primeiros-ministros, parlamentares, prefeitos, jornalistas, funcionários da ONU, executivos, líderes de ONGs, acadêmicos e sociedade civil.
 
O eixo das discussões se dará em torno de sete áreas prioritárias: energia, alimentação e agricultura, emprego e sociedade inclusiva, cidades sustentáveis, água, oceanos e desastres naturais. Vários grupos têm criticado a conferência por estar deixando de fora da agenda a crise ambiental. O Rascunho Zero (“O futuro que queremos”), documento de 170 páginas com contribuições de participantes da conferência, disponível no site da ONU, servirá de base para os debates da Rio+20.
 
Em 1992, a edição 216 de Ultimato publicou como matéria de capa “O planeta na UTI cósmica”. O título não envelheceu. Neste momento especialmente rico para a mobilização e o envolvimento das igrejas brasileiras com as questões socioambientais, Ultimato oferece aos leitores este painel. Cristãos envolvidos com a temática falam sobre os aspectos mais cruciais e de como a Igreja pode e deve dar sua contribuição como “embaixadora da reconciliação socioambiental”. 
 
N. T. Wright, autor de “Surpreendido pela Esperança”, dá uma importante contribuição: “Tudo o que fazemos no Senhor ‘não é vão’ e esse é o mandato que precisamos para todo ato de justiça e misericórdia, toda atividade ecológica, todo esforço para refletir a sábia imagem de Deus a serviço da sua criação. [...] A criação deve ser redimida, ou seja, o espaço deve ser redimido, o tempo deve ser redimido e a matéria deve ser redimida. Depois de ter criado espaço, tempo e matéria, Deus viu que tudo era muito bom” (p. 224-225).

O que é biodiversidade e de que forma a sua perda pode afetar a vida na terra?
Márcio Oliveira -- O biólogo Edward O. Wilson usou certa vez o termo “diversidade biológica” para se referir à enorme variedade de seres vivos que existem no nosso planeta. Depois as pessoas passaram a usar o termo “biodiversidade” em lugar daquele e assim segue até hoje. Estima-se que 1,75 milhão de seres vivos sejam conhecidos pelo homem, mas que existam ainda mais, principalmente nas florestas tropicais do mundo -- infelizmente as mais ameaçadas pelo desmatamento. O desaparecimento ou diminuição da população de uma espécie podem afetar a vida de modo imprevisível. Como exemplo, há fortes indícios de que pesticidas agrícolas estão causando o desaparecimento de abelhas melíferas, principalmente nos Estados Unidos, o que deve afetar consideravelmente a produção de alimentos, uma vez que cerca de 60% das plantas cultivadas pela humanidade são polinizadas por essas abelhas.
 
Por que os cristãos devem se preocupar com a extinção das espécies? 
Márcio Oliveira -- Porque um dos primeiros mandamentos que recebemos foi “cultivar e guardar” o que o Senhor havia criado. E isso lhe é agradável, pois ele mesmo afirmou após cada ato da criação que o que fazia “era bom”. Noé é um bom exemplo de obediência a esse mandamento. Não ficou discutindo, racionalizando, mas foi e resgatou pares de seres vivos, o que evitou a extinção em massa naquela época. Hoje sabemos que tudo que foi criado está interligado; assim, o desaparecimento de espécies ou a diminuição de suas populações podem afetar as demais espécies, incluindo o ser humano, de maneira ainda imprevisível.

Existe relação entre pobreza, desigualdade e meio ambiente?
Alexandre Brasil -- Os mais pobres são os que mais sofrem diante dos agravos causados ao meio ambiente. Entre eles estão os maiores índices de morte em razão dos desastres naturais. A desigualdade no acesso também se espraia nas desigualdades no que se refere à fragilidade e às condições precárias de moradia e à falta de acesso à educação, saúde e segurança. Sem esses itens somos mais vulneráveis. No momento em que o planeta “geme com dores de parto” -- fruto da vaidade daqueles que concentram riquezas --, todos são afetados, porém os que já sofrem com a privação econômica sentem mais estes impactos.
 
De que forma desenvolvimento sustentável, consumo de alimentos orgânicos, tratamento adequado de lixo e outras bandeiras do movimento ambiental são pertinentes à realidade dos mais pobres?
Alexandre Brasil -- A chave do raciocínio precisa passar pela questão econômica. No modelo atual de desenvolvimento essas alternativas podem até ser viáveis, mas são de difícil execução. Um ponto que tem se discutido é a defesa de uma nova lógica de ocupação da terra e o estímulo a um retorno ao campo. Governos já têm implementado políticas de incentivo financeiro para o retorno à atividade agrícola. Hoje, ainda, é a agricultura familiar a responsável pela maioria dos alimentos que temos na mesa. O fortalecimento do pequeno agricultor e da agroecologia são agendas pelas quais, como sociedade, precisamos lutar. Antes do tratamento do lixo precisamos discutir a produção desse lixo. Não me interessa a produção de melhores latas e invólucros, o que quero são menos latas e invólucros! A reciclagem significa consumo de energia. Temos de rever nossos conceitos de consumo e o padrão de vida que levamos. Todas essas bandeiras são pertinentes, porém precisamos considerá-las em um escopo maior, que inclua o conjunto da sociedade e efetivamente contribua para a transformação de realidades, as quais de alguma forma poderão também colaborar para a diminuição da pobreza e o combate às desigualdades.
 
É possível melhorar a qualidade de vida nas periferias das grandes cidades?
João Martinez -- Sim. Há muitos exemplos de sucesso ao redor do Brasil e do mundo. Isto pode parecer utopia para muitos, especialmente para aqueles que vivem em comunidades extremamente pobres e que sofrem em decorrência dos danos ambientais. No Brasil, crescemos acostumados com a percepção de que poucos se importam com os pobres, que os problemas socioambientais são causados em grande parte por eles e que cabe às autoridades resolvê-los. Felizmente essa corrente de pensamento está mudando e temos visto uma participação cada vez maior da sociedade civil -- incluindo a igreja cristã e as organizações evangélicas não governamentais -- nos processos de planejamento e tomada de decisões. Parece haver uma melhor compreensão de que os problemas socioambientais são complexos para serem atribuídos a apenas uma porção da sociedade e que as melhores respostas são encontradas quando há ampla colaboração e parceria.
 
Como envolver os mais pobres nas discussões socioambientais?
João Martinez -- Muitas pessoas se equivocam ao pensar que os mais pobres não têm interesse pelas questões socioambientais ou não têm o preparo necessário para contribuir em discussões e processos sobre o tema. Na verdade, eles costumam ser os mais vulneráveis e diretamente afetados pelas questões socioambientais e, com um pouco de ajuda e orientação, podem se tornar “defensores de direitos” muito eficazes em diferentes âmbitos e contextos.
 
As mudanças climáticas são uma realidade? Como a Igreja e o cristão podem se envolver nesta temática?
Marcelo Morandi -- Sim. As mudanças globais são um fato observado. As evidências de que a aceleração desse processo é decorrente de atividades humanas são cada vez mais consistentes e aceitas pela comunidade científica mundial. A questão é saber qual será o cenário futuro. Há cenários mais pessimistas e outros menos pessimistas. Aonde vamos chegar depende de posturas e mudanças de atitude na direção do que chamamos de desenvolvimento “sustentável”. Os cristãos e a Igreja, com base nos princípios e práticas de Jesus e com sua capacidade de mobilização e ensino, têm o papel fundamental de promover “uma mudança de sentimentos, uma renovação da mente e uma saudável dose de arrependimento”, nas palavras de Herman E. Daly. Assim, a “redescoberta” e a prática de princípios morais e éticos em relação à natureza e ao próximo -- já expressos na Bíblia, mas que vêm caindo no esquecimento da sociedade -- serão a grande contribuição da Igreja para a redenção do planeta, que aguarda em “ardente expectativa” que façamos mais pela vida.
 
As mudanças climáticas podem afetar a rotina diária das pessoas? 
Leonardo Freitas -- As transformações que estão acontecendo no clima global, fruto de fatores antropogênicos e forçamentos naturais, têm impactos ambientais intensos na vida das pessoas. Cada região do Brasil, caracterizada por sua sociobiodiversidade, apresenta resultados diferentes desse impacto. Em território brasileiro existem seis biomas continentais: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal, cada um com suas especificidades que precisam ser conhecidas para que se entendam as mudanças que estão ocorrendo. Em dois desses biomas, os impactos ambientais têm exigido da população mudanças comportamentais e de assentamento humano para convivência com os efeitos. Os fenômenos “El Niño” e “La Niña” influenciam basicamente na variação das chuvas e no aumento da temperatura. No semiárido brasileiro, tem ocorrido, com maior frequência, aumento do tempo de estiagem e precipitação de chuvas acima das médias regulares, impactando a vida das famílias com perdas na produção agrícola. No Pantanal, os longos períodos sem chuvas e o baixo nível das águas forçam a população a se deslocar para outras partes da região levando os rebanhos. Também as enchentes, provocadas pelo grande volume de chuvas repentinas, alagam plantações e áreas, causando prejuízos.

Uma das bases do modelo atual de desenvolvimento de nossa sociedade é o consumo, estimulado e muitas vezes desenfreado. Como fugir desta lógica? E qual o papel da Igreja nessa mudança de perspectiva?
Cláudio Oliver -- Para escapar dessa lógica é necessário descrer. Descrer do desenvolvimento substantivo e do crescimento como objetivo medido pelo que se consome. Consumo no passado era sinônimo de tuberculose e consumidor era a bactéria que a causava. Para escapar dessa lógica, a igreja precisa deixar de admirar a capacidade de consumir, que nos reduz à imagem de uma bactéria. Antes, deve nos encorajar a sermos a imagem de um Deus criativo e plantador de jardins, que estabelece limites para o viver, renúncias a abraçar e a sacralidade de tudo que há na criação, à qual somos chamados a observar e preservar (Gn 2.15).
 
Os jovens evangélicos estão hoje mais sensibilizados e mobilizados para atuar nesta temática?
Larissa Nakano -- Sim. Cada vez mais um número crescente de jovens e igrejas estão se preocupando com a questão socioambiental. Porém acredito que isso deva ser algo natural, já que permeia a essência cristã. Ao entender e corresponder ao amor de Cristo, tornamo-nos agentes da reconciliação, isto é, passamos a viver de forma integral a missão dada por Deus de restabelecer os relacionamentos, inclusive com a natureza, e exercer a função de cuidadores da criação. Passamos a viver uma transformação que se traduz naturalmente em atitudes cotidianas. 
 
Sendo a oração uma das marcas da Igreja, como podemos incluir a temática socioambiental em nossa prática de oração? O que orar?
Timóteo Carriker -- A oração do Pai-Nosso coloca a preocupação socioambiental definitivamente na pauta da espiritualidade cristã autêntica. “Seja feita a tua vontade aqui na terra como no céu” remove todas as dúvidas sobre a atuação dos propósitos de Deus no tempo (a história mundial) e no espaço (a criação toda). A nossa missão como povo de Deus é sermos agentes de redenção de gente e ambiente (Rm 8) neste mundo. A frase “aqui na terra” não é mero pano de fundo secundário à ação de Deus, mas define o alvo da missão de Deus: novo céu e nova terra. Nosso alvo e nossa missão não podem ser outros nem inferiores a estes. Esta perspectiva “alarga” a nossa missão para além de uma tarefa essencialmente mística. Significa orar e batalhar em favor do mundo que sempre foi e será a “menina dos olhos” de Deus.

Por que a Igreja deve se envolver na Rio+20? Qual o papel do cristão nessa conferência? 
Werner Fuchs -- Jesus, depois de vencida a tentação, vivencia simultaneamente a harmonia com o Pai e com a natureza: “Vivia com as feras e os anjos o serviam” (Mc 1.13). Isso não é dever, obrigação, mas possibilidade, graça, liberdade. Igrejas e cristãos que não se engajam de forma consistente na preservação do planeta e na justiça socioambiental revelam uma compreensão deturpada do projeto do reino de Deus por meio de Jesus. No fundo não se deixaram libertar de uma atitude consumista, inclusive em termos religiosos. Desfrutam da paisagem-mensagem aprazível, ignorando o que a degrada. Porém, Deus zela por sua criação e ao mesmo tempo gera novas criaturas em Cristo (2Co 5.17), que não se conformam com os esquemas e rumos do mundo (Rm 12.2). Por isso a participação cristã livre e confiante nas brechas da Rio+20 será tanto crítica quanto propositiva. Para que não aconteça uma “Rio+40”, porque “essa o planeta não aguenta...”

Ainda há esperança para o nosso planeta ou a esperança é apenas para o novo céu e a nova terra prometidos por Jesus?
Ariovaldo Ramos -- A Trindade nos colocou no jardim, dando-nos o modelo de sustentabilidade para administrarmos o planeta. Novo céu e nova terra é atribuição de Deus. A sustentabilidade desta terra é tarefa nossa. Independentemente de quanto tempo temos, há uma missão a perseguir.
 
Entrevistados:
Alexandre Brasil, doutor em sociologia pela USP e professor do Laboratório de Estudos da Ciência do NUTES, da UFRJ, é membro da coordenação geral da Rede FALE.

Ariovaldo Ramos é pastor na Comunidade Cristã Reformada, em São Paulo, e embaixador da Aliança Evangélica Brasileira e da ONG Visão Mundial.

Cláudio Oliver serve à Igreja do Caminho e pratica pecuária e agricultura urbana, em Curitiba, PR. É professor do curso de gestão ambiental da FEPAR e pesquisador na área de manejo de resíduos orgânicos urbanos.

João Martinez, brasileiro, é gerente de comunicações da Tearfund, na Inglaterra.

Larissa Nakano, graduada em gestão ambiental pela USP, é membro da Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo, e integrante do projeto socioambiental Reação, da mesma igreja.

Leonardo Freitas
é gestor ambiental da ONG Diaconia, em Recife, PE.

Marcelo Morandi
é pesquisador na Embrapa Meio Ambiente, em Campinas, SP.

Márcio Oliveira é vice-curador da Coleção de Invertebrados e curador da Coleção de Hymenoptera do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e coordenador de pesquisas em biodiversidade.

Timóteo Carriker
, teólogo e missionário da Igreja Presbiteriana Independente, é capelão d’A Rocha Brasil e coordenador de diversos sites.

Werner Fuchs é pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e mora em Curitiba, PR
 
Entrevistadores: 
Klênia Fassoni e Marcos Bontempo, com colaboração de Andrea Ramos Santos, Gínia Bontempo, Morgana Boostel, Patrick Timmer, Raquel Arouca e Serguem Silva.

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