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Opinião

Carecemos de gigantes

E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros. (2 Timóteo 2.2).

Em abril iniciamos uma série de artigos à luz da coleção sobre a História da Igreja de Daniel-Rops, da Academia Francesa de Letras. Hoje vamos falar um pouco sobre a “era” dos “Pais da Igreja”.

Na verdade, excetuando-se a “era” apostólica, as demais sempre trazem em si mesmas traços de outros tempos. Assim, o martírio, grandes pastores e grandes teólogos, confessores da fé e etc estão presentes, graças a Deus, em quase todos os turnos desta duas vezes milenar história da Igreja de Cristo em peregrinação rumo ao Reino definitivo.

A “era” dos “Pais da Igreja” é a que marca a penetração e a solidificação do Evangelho nas estruturas do vasto império romano e no caldeirão cultural do oriente médio. Este período se inicia no apagar das luzes do século primeiro com Policarpo de Esmirna e se encerra com a morte de João Damasceno em meados do 7º século da era cristã, a grosso modo. Alguns critérios são necessários para que alguém seja arrolado como um “Pai da Igreja”:

1. Antiguidade: como já vimos, são homens e mulheres que militaram na igreja até o século VII.

2. Santidade de vida: Permaneceram na Igreja em meio a perseguições, debates calorosos, insurgência de perniciosas heresias e de muitas outras adversidades, mas conservaram sua alma em estado de progressiva santificação, servindo suas vidas de exemplo a serem imitados no seguimento do Cordeiro.

3. Ortodoxia: permaneceram fiéis à sã doutrina, apegados ao ensinamento bíblico, combateram e rejeitaram as heresias. Eram amantes e defensores do Evangelho puro e simples e pela pureza de usos e costumes na vida e disciplina da Igreja.

4. Obras: seus escritos, seus sermões, sua teologia e organização litúrgica e eclesiástica, bem como o padrão credal exposto e ensinado em forma de catequeses, são documentos comprobatórios de que foram relevantes para o “tradicionamento”, isto é, a transmissão da fé, bem como o seu desenvolvimento dogmático, sistemático e a colocação de marcos regulatórios, que conservaram a genuinidade da fé cristã frente aos erros e as confusões dos inimigos do Cristianismo.

Mormente estes homens (e não poucas mulheres) lidaram com as mais perniciosas heresias: Docetismo, Modalismo, Patripassionismo, Arianismo, Gnosticismo, Pelagianismo, Monofisismo e etc (apenas para citar as mais conhecidas). Estas heresias eram erros e mentiras grosseiras contra o ser e o caráter de Deus e de seu Filho. Ora propunham que o Cristianismo era uma religião de aparências e sem consistência histórica. Ora negavam a divindade ou a humanidade de Cristo. Ora negavam a realidade do pecado ou a necessidade da graça e do sacrifício de Cristo. Estas heresias trouxeram grandes dissabores e até sanguinolentas guerras para dentro da igreja. Perseguições, penas capitais, desterros, famílias dilaceradas, e claro, muitos que apostaram de modo definitivo pondo a perder também de maneira definitiva a sua alma no inferno.

Em sua grande maioria estes “Pais da Igreja” (Policarpo, Inácio, Irineu, Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, João Crisóstomo, Cipriano, Ambrósio, Agostinho, Hilário de Poiters, Cesário de Arles, Cirilo de Alexandria, Clemente Romano e tantos outros) eram iminentíssimos pastores à frente de venerandas igrejas: Roma, Alexandria, Antioquia, Jerusalém, Constantinopla, Milão e toda a África Proconsular Romana, como Cartago e Hipona. Viviam o dia a dia de seus filhos espirituais e conheciam as suas lutas. Eram homens de profunda erudição, de oração e contemplação. Com fantástica capacidade para a reflexão, escrita, pregação e ensino. Não viviam o divórcio entre Teologia e Púlpito tão inconvenientemente presente em nossos dias. Eram homens profundos. Apesar de militarem nas alturas da fé cristã, como homens de igreja que eram, resolviam as questões mais pertinentes e centrais para a paz e a harmonia da igreja pelo método conciliar. É assim que assistimos os monumentais Concílios da Antiguidade: Niceia: 20/05 a 25/06 de 325; Constantinopla: maio a junho de 381; Éfeso: 22/06 a 17/07 de 431; Calcedônia: 08/10 a 01/11 de 451; Constantinopla II: 05/05 a 02/06 de 553; Constantinopla III: 07/11 de 680 a 16/09 de 681 e, finalmente, no ocaso desta grande era: Niceia II: 24/09 a 23/10 de 787.

Que coisas podemos aprender desta gloriosa “era” da Igreja? Voltemos todos ao amor e ao zelo pela beleza da sã doutrina, sempre apegados às Escrituras. Rejeitemos todo modismo doutrinal, litúrgico e moral quando não em conformidade com o que a Bíblia ensina ou quando dela podemos inferir com segurança. Amemos a Igreja e sejamos zelosos por sua pureza na vida, nos costumes na adoração. Oremos para que Deus envie novamente “gigantes” sobre a terra devastada da Igreja que nos guiem pelos caminhos da verdade e da paz.


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É ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP) e professor de Teologia Pastoral e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITREF) e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
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