Opinião
29 de maio de 2024- Visualizações: 6186
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Autocuidado e florescimento
Por Sarah Hay

O cuidado aos membros e o autocuidado não são conceitos novos. No entanto, um debate mais recente, que ganhou força durante a pandemia da COVID, é como unir as duas coisas. Neste artigo vamos refletir sobre autocuidado e cuidado aos membros, e analisar algumas das resistências ao autocuidado e de que maneira podemos promover melhores práticas de autocuidado entre os missionários.
Definição de “cuidado aos membros”
A GMCN – Global Member Care Network [Rede global de cuidado aos membros] define o conceito da seguinte forma: “O cuidado aos membros implica preparar, equipar e capacitar continuamente os obreiros para que sua vida, seu ministério e seu trabalho sejam eficazes e sustentáveis”.1 O debate em andamento é se o termo é bom o bastante para abranger a extensão da prática. Sabe-se que algumas organizações missionárias usam o termo “cuidado integral do missionário”, ou mesmo “cuidado e bem-estar da equipe” em lugar de “cuidado aos membros”. Uma pesquisa informal, realizada em 2021 entre os mais de mil membros do grupo da GMCN no Facebook, revelou que, embora o termo “cuidados aos membros” não seja ideal, não houve consenso em relação a uma escolha preferida. Seja qual for a terminologia que as organizações missionárias escolham adotar, os elementos-chave são os cuidados e os recursos oferecidos a um missionário que lhe permitam prosperar.

Definição de “autocuidado”

Definição de “autocuidado”
A Organização Mundial da Saúde define autocuidado como “a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades de prevenir doenças, promover e preservar a saúde, e de lidar com enfermidades e deficiências com ou sem o apoio de um profissional de saúde”. Vamos falar apenas do autocuidado de um indivíduo. É o que uma pessoa faz por si mesma para permitir que tenha mente, corpo e espírito suficientemente saudáveis para desempenhar as funções que lhe são exigidas. Nairy Ohanian vai um pouco além: “O autocuidado garante que a pessoa prospere e floresça, e não apenas que sobreviva e enfrente a situação. O autocuidado é o sistema invisível de raízes profundas, nutridas e em expansão de uma árvore forte, resiliente e frutífera”.2 Esta imagem é muito útil se considerarmos que o autocuidado não é uma solução fácil, mas exige raízes, tempo e nutrição regular. Definidos os termos, exploraremos agora a crescente conscientização sobre a importância do autocuidado observada durante e após a pandemia de COVID.

O autocuidado e o legado da pandemia
O autocuidado passou a ser um conceito mais discutido durante a recente pandemia da COVID. Foram publicados muitos artigos sobre as formas pelas quais as pessoas poderiam cuidar de si mesmas e garantir que os confinamentos e as más notícias de todo o mundo não afetassem negativamente sua saúde física e mental.3

O aumento do foco no autocuidado durante a pandemia deveu-se, em parte, à indisponibilidade de outros locais onde as pessoas pudessem receber apoio e assistência, e ao aumento de tempo livre que passaram a ter, consequência da falta de necessidade de viajar ou deslocar-se até o trabalho. Um estudo realizado em 2021 revelou que, apesar do significativo risco de ansiedade e depressão, 39% dos participantes iniciaram ou intensificaram suas medidas de autocuidado e 23% começaram a investir no autocuidado.4
Consolidou-se, portanto, na linguagem comum, a discussão sobre o autocuidado e suas práticas. Vejamos agora a relação entre o autocuidado e o cuidado aos membros.
O avanço da tecnologia nas últimas décadas é maior do que em qualquer outra época da história. Tal aumento se dá em muitas frentes e, mais significativo, confere um caráter tecnológico à vida contemporânea.
Quais são os desafios trazidos por esse avanço? A ética cristã é suficiente para responder aos aspectos relacionados às novas tecnologias? Como a igreja pode atuar nesse cenário tão desafiador?
É disso que trata a matéria de capa da edição 407 da revista Ultimato. Para assinar, clique aqui.
Modelos de cuidado aos membros e a inclusão do autocuidado
Encontramos na literatura vários modelos de cuidados aos membros, entre eles o SPARE-O5,de Dodds e Dodds, e a Pirâmide de Cuidados de Harry Hoffmann6 (desenvolvida com base no Christian Wholeness Framework, de Warlow). No entanto, a maioria destes não menciona especificamente o autocuidado e dá pouca ênfase às ações do próprio indivíduo, destacando, em vez disso, o cuidado e o apoio oferecidos ao indivíduo pelas pessoas e pelos sistemas que o cercam. Talvez o modelo mais conhecido que menciona o autocuidado seja o de Kelly O’Donnell e Dave Pollock, ilustrado no diagrama abaixo.7

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Cada uma das 5 esferas é permeável e o cuidado pode fluir entre elas. Estão incluídas as fontes de cuidado aos membros, por exemplo, quem envia – igreja ou organização missionária – assim como os tipos de cuidado, por exemplo, família e TCKs (Crianças de terceira cultura). No centro do modelo está o Master Care [Cuidado principal], reconhecendo que Deus é a fonte principal de cuidado, é quem nos fortalece. E é ele a quem servimos.
A segunda esfera inclui o cuidado mútuo (das relações que nos cercam) e o autocuidado. Ocorre assim a união dos dois conceitos: o cuidado aos membros e o autocuidado. Depois de lecionar vários anos sobre o tema do cuidado aos membros, posso afirmar que um dos pontos fracos desse modelo é o fato de o autocuidado não ocupar uma esfera própria. Associado ao cuidado mútuo, o conceito se dilui e não recebe a atenção que merece. Em vez de encorajar os missionários a assumir alguma responsabilidade por si próprios e pelo seu bem-estar, esse vínculo reforça a mentalidade de que o cuidado aos membros é algo a ser apenas recebido. Tende a concentrar-se no que os outros podem oferecer. Isso nos leva a refletir por que a ideia do autocuidado na obra missionária pode encontrar uma reação negativa.
Resistência ao autocuidado
Conduzi recentemente um retiro e alguns webinars sobre o tema do autocuidado. Embora muitos estivessem interessados em aprender como aprimorar-se nessa área, o tema despertou uma série de perguntas e comentários: “O autocuidado não é egoísta?” “Já sou muito ocupado, não tenho tempo para cuidar de mim mesmo”. “O autocuidado é o oposto de viver pela fé”. “Somos chamados para ser sacrifícios vivos, por isso o autocuidado não pode ser bíblico”.
Em Romanos 12.1 (NVI) Paulo diz: “Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês”. Esse versículo é usado para argumentar que, em vez de demonstrar cuidado conosco mesmos, deveríamos oferecer nossas vidas como sacrifício a Deus.
O tema do sacrifício e a forma como os missionários enfrentam as difíceis questões de risco e sofrimento estão bem documentados8 e, de fato, nas minhas aulas de Mestrado em Cuidados aos Membros e em Cuidados e Bem-Estar da Equipe no Redcliffe College e no All Nations Christian College, respectivamente, tenho enfatizado a necessidade de que os novos missionários desenvolvam sua própria teologia de sofrimento e risco antes de partirem para o campo. As histórias e imagens de mártires cristãos têm um papel importante na obra missionária cristã, mas também podem produzir a teologia distorcida de que “é melhor queimar do que enferrujar”. Além da consideração do risco, precisamos reconhecer que o apelo para demonstrar de forma consistente o que Eugene Peterson chama de “longa obediência na mesma direção”9 pode ser um chamado com um alto preço.
A teologia do autocuidado
Na direção contrária à ideia de que o autocuidado é uma mentalidade egoísta, que se opõe diretamente ao modo de vida sacrificial, afirmo que o autocuidado é uma ferramenta importante no kit de ferramentas do missionário. Em João 7.37, Jesus convida aqueles que têm sede para que venham até ele e bebam. Essa não é uma atitude passiva, mas requer ação da parte de quem tem sede. No primeiro capítulo de João, em outro convite, Jesus diz aos discípulos: “Venham e verão”. É provável que o texto bíblico mais prezado pelo profissional de cuidados aos membros seja Mateus 11.28-30 (MSG): “Vocês estão cansados, enfastiados de religião? Venham a mim! Andem comigo e irão recuperar a vida. Vou ensiná-los a ter descanso verdadeiro. Caminhem e trabalhem comigo! Observem como eu faço! Aprendam os ritmos livres da graça! Não vou impor a vocês nada que seja muito pesado ou complicado demais. Sejam meus companheiros e aprenderão a viver com liberdade e leveza”. Para mim, esse é um convite para cuidar de si mesmo, aproximando-se de Deus.
O exemplo bíblico mais óbvio de autocuidado seria o do próprio Jesus, que dedicava tempo a si mesmo e encorajava seus discípulos a descansar e orar em meio a uma vida de autossacrifício (Mt 14.13; Mc 6.30-32). Como afirma Ohanian: “O autocuidado não é egoísta nem egocêntrico, mas uma prática sábia, preventiva e de respeito próprio para qualquer pessoa que deseje continuar desempenhando seu papel de cuidar e servir”.10


A sinergia entre o cuidado aos membros e o autocuidado
No mundo missionário, confundimos com demasiada frequência “esgotamento” – ou burnout – com “o auge do serviço a Deus”. Vemos o esgotamento como uma medalha de honra. No entanto, um serviço eficaz não pode ser prestado por corpo, mente ou alma fatigados e debilitados. Devemos nos esforçar para ajudar o missionário a servir com qualidade e fidelidade, sem que o esgotamento o impeça de fazê-lo. Há um caminho de volta ao serviço saudável, mas ele pode ser longo e difícil, por isso é muito melhor prevenir o esgotamento do que remediá-lo.
O cuidado aos membros é multifacetado, e há muitas maneiras preventivas e curativas pelas quais um profissional pode oferecer apoio aos missionários assistidos por ele. Uma ferramenta preventiva essencial que recomendamos é a prática do autocuidado. Deveria ser algo inegociável.
Como podemos viabilizar o autocuidado em outras pessoas? Existem aspectos espirituais, físicos, emocionais, cognitivos/criativos e sociais/sistêmicos que podemos encorajar.11 Os exemplos são numerosos e variados. No aspecto físico, podemos estimular a atenção ao sono suficiente e de boa qualidade, à alimentação saudável, à prática mais frequente de exercícios físicos e à consulta médica caso, por exemplo, os sintomas do estresse sejam evidentes. O novo campo da neurociência ambiental já provou que o contato com a natureza é essencial para nosso cérebro.12 Ambientes verdes (com vegetação) e azuis (água em movimento) podem estar associados à redução do stress, mas acredita-se que a exposição ao ar livre também beneficie a função cognitiva. A natureza ativa o nosso estado de “descanso”, que estimula a calma e o bem-estar. Padrões fractais (padrões que ocorrem naturalmente, como as folhas de uma suculenta ou um floco de neve) também têm efeito positivo em nosso cérebro. Portanto, simplesmente incentivar um missionário a fazer uma breve caminhada na natureza13 seria uma excelente maneira de ajudá-lo no autocuidado.
Conclusão
O despertamento generalizado em relação ao autocuidado que ocorreu durante a pandemia evidenciou o poder e o potencial da responsabilidade pessoal pelo bem-estar. Os que atuam na área de cuidados aos membros podem tirar proveito desse aprendizado revisitando o equilíbrio entre a responsabilidade pessoal e a intervenção externa no cuidado missionário. É preciso haver um elemento teológico, sociológico e prático para reconhecer que o autocuidado relevante não é uma prática egoísta, mas uma parte essencial do kit de ferramentas de um missionário e deve ser encorajado pelo profissional da área de cuidados aos membros.
Notas

Notas
[6] Lois Dodds & Lawrence Dodds, Selection, Training, Member Care and Professional Ethics: Choosing the Right People and Caring for Them with Integrity ( Liverpool, PA: Heartstream Resources, 1997).
[7] Harry Hoffmann, ‘Connecting and Resourcing Member Care Practitioners Worldwide: The Global Member Care Network’, Evangelical Missions Quarterly, 56(1), 2020.
[9] Anna E. Hampton, Facing Danger: A Guide Through Risk (New Prague MN: Zendagi Press, 2016). Charles A. Schaeffer and Frauke C. Schaeffer, Trauma and Resilience, A Handbook (Chapel Hill, NC: Frauke C. Schaefer, MD, Inc: 2016).
[10] Eugene Peterson, A Long Obedience in the Same Direction (US: Inter-Varsity Press, 2000).
[11] Ohanian, Self-Care
[12] See the SPECS model outlined by Hawker and Horsfall in Tony Horsfall and Debbie Hawker, Resilience in Life and Faith: Finding your strength in God (Abingdon: The Bible Reading Fellowship, 2019).
- Sarah Hay (certificada como MCIPD) é gestora de RH e de Cuidados aos Membros na European Christian Mission Britain, palestrante convidada (e ex-colíder) do mestrado em Cuidados e Bem-Estar da Equipe no All Nations Christian College e ex-líder do curso de Mestrado em Cuidados aos Membros, no Redcliffe College.

O avanço da tecnologia nas últimas décadas é maior do que em qualquer outra época da história. Tal aumento se dá em muitas frentes e, mais significativo, confere um caráter tecnológico à vida contemporânea.
Quais são os desafios trazidos por esse avanço? A ética cristã é suficiente para responder aos aspectos relacionados às novas tecnologias? Como a igreja pode atuar nesse cenário tão desafiador?
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