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Opinião

Você não é o que você faz

Por Luís Fernando Nacif Rocha

“O que você é?”

“Eu?! Eu sou engenheiro.”

Não foram poucas as vezes que respondi dessa forma tal pergunta. Mas, você já observou quão estranha é essa resposta? Uma frase altamente filosófica, que questiona o mais profundo de nossa identidade, tão naturalmente respondida com o que temos como profissão. Troque por médica, mecânico, secretário, bibliotecária... não importa, nenhuma profissão é tão forte ou importante que venha substituir quem nós realmente somos.

No ambiente religioso cristão, entretanto, essa tensão é acrescentada de outro fator: o “chamado”. Apesar de insistirmos em dizer que cremos no “sacerdócio universal”, ou seja, que todos os crentes em Jesus são sacerdotes do Senhor para uma humanidade distante do Pai, separamos os ofícios entre os que têm um chamado: pastores, evangelistas e missionários, e os demais, que, por não possuírem tal chamado, devem se contentar com uma profissão “secular”. Assim, repetimos o erro católico romano de separar cristãos em clero e leigos e dividimos nossa igreja entre ordenados e membresia.

Entenda-me. Não estou negando que Deus chame e separe alguns para ministérios especiais no Corpo de Cristo, como bem ressaltou Paulo aos Efésios (4:11), mas a mesma passagem diz que o desempenho do serviço cristão é tarefa de todos, e não de apenas desses (Ef 4:12).

Então, todos trabalharão tempo integral para servir a Igreja? Com certeza, não! A diversidade de dons do Espírito Santo é um reflexo na Igreja da diversidade de dons e talentos dados a todas as pessoas, em todos os lugares. Uns gostam de lecionar, outros de criar engenhocas, outros de consertá-las. Enquanto alguns gostam de cozinhar, outros preferem lavar as louças. A teologia protestante enfatiza o trabalho diligente como um sinal da graça de Deus, e não um castigo a ser tolerado, já que não recebemos o tal chamado. Ver o trabalho de tal forma é o princípio da libertação de seu jugo.

Quando Paulo orienta os servos (escravos) em sua Carta aos Colossenses, ele ressalta que, apesar de estarem servindo sob condições infinitamente piores que em um emprego comum dos dias de hoje, eles deveriam ter em mente que não estavam servindo seus senhores, mas ao próprio Senhor Jesus (Cl 3:22-25). A distinção entre trabalho secular e sagrado está muito mais em nossas mentes e teologia do que no coração de Jesus. Por isso, Paulo clama: “tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai” (Cl 3:17).

Formei-me em engenharia há 25 anos e por cerca de vinte exerci a profissão. Depois disso, dediquei-me integralmente ao ministério pastoral, mas durante cerca de doze anos dividi-me entre os dois ofícios. Das várias coisas que tenho aprendido com as experiências dessa graça de Deus, posso dizer que não arriscaria dizer que o ministério religioso é superior ao trabalho dito secular, apesar de admitir tal tentação. Há lugares, pessoas e situações que apenas o profissional cristão poderá estar, tocar e vivenciar. Lugares onde ministros religiosos e missionários nunca pisarão os pés, mas que servos sem títulos eclesiásticos poderão não só estar, mas terão a oportunidade de ministrar aos perdidos mais perdidos.

Permita-se ser um profissional de Cristo. Seja qual for a profissão, seja onde for o emprego, Deus o plantou aí para ser um sacerdote para os demais, sal da terra e luz do mundo, para proclamar que só há um Senhor sobre tudo e sobre todos, que morreu, ressuscitou, vive e voltará. Para isso servimos, hoje e sempre.

• Luís Fernando Nacif Rocha é Pastor auxiliar na Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. É mestre em Teologia Bíblica do NT pelo Alliance Theological Seminary, EUA, e atua na área de missões, pequenos grupos e ensino.

Imagem ilustrativa: Designed by Freepik

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